Undungeon: novo ARPG surrealista tem grandes ambições e estilo impecável | Primeiras Impressões da Demo

O que acontece se você misturar Diablo, Fallout e Dark Souls, daí colocar tudo isso numa ambientação psicodélica trazida à vida com um trabalho de pixel art de qualidade comparável à obra-prima Hyper Light Drifter? A resposta seria um jogo maluco demais para existir, certo? Ok, certo, mas esse jogo existe e uma mera demo dele foi capaz de devorar todo o tempo que eu tinha durante a última tarde.

Undungeon é um RPG de Ação (ARPG) de fantasia e ficção científica criado pela Laughing Machines e publicado pela TinyBuild Games (que também nos trouxe Graveyard Keeper e o tragicamente subestimado Pathologic 2), tendo sido originalmente anunciado em 2017 por meio de uma campanha de crowdfunding bem-sucedida no Kickstarter.

Desde aquela época eu tenho acompanhado por alto o desenvolvimento de Undungeon, assistindo alguns devblogs e tal, porém no dia 14 de junho a TinyBuild resolveu lançar uma demonstração gratuita na Steam e eu finalmente pude vivenciar em primeira mão esse mundo gloriosamente insano concebido pela Laughing Machines.

E se nós vivermos em um multiverso onde diferentes realidades são separadas por nada além de uma fina membrana? E o que aconteceria se essa membrana fosse rompida? Essas perguntas formam a base do enredo de Undungeon, que é situado em um futuro pós-apocalíptico onde um evento cataclísmico fez sete diferentes versões da Terra se fundirem.

Embora a humanidade tenha sido extinta no evento, diferentes civilizações que habitam aquelas outras realidades sobreviveram e agora são forçadas a coexistir entre si. Como se pode imaginar, tal coexistência não é nem um pouco pacífica. A trama do jogo se inicia milênios após o cataclisma, com o jogador assumindo o papel de um entre sete personagens conhecidos como heralds (arautos).

O único herald jogável nessa demonstração é Void, criado por uma entidade sombria com o único fim de encontrar os outros seis heralds e coletar seus selos ancestrais para que essa entidade possa tomar os demais mundos para si. Pelo menos é isso que eu pude entender durante o enigmático diálogo inicial do jogo, situado na “Dimensão do Vazio”.

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Não dá pra negar que o Void é um personagem muito foda.

Logo em seguida você é mandado ao mundo chamado Q-Dimension, uma terra devastada onde insetos gigantes e bandos de arruaceiros vagam pelo deserto. A zona inicial é razoavelmente linear, mas depois disso o jogo decide soltar sua mão de vez.

Enquanto a jogabilidade central não é muito diferente de outros jogos do gênero onde você luta contra monstros que se explodem em loot ao serem derrotados, a experiência de Undungeon se diferencia em dois fatores cruciais.

O primeiro fator é o foco em narrativa e imersão que remonta aos RPGs clássicos para computador, com diálogos densos que organicamente revelam ao jogador informações sobre o mundo — ou melhor, os sete mundos — do jogo e os personagens que os habitam.

O segundo fator é o sistema de combate mais deliberado do jogo, que valoriza a memorização dos padrões de ataque dos inimigos. Diferente dos outros ARPGs onde você pode sair clicando freneticamente sem culpa, em Undungeon é necessário adotar uma postura mais defensiva, pois tanto seus ataques quanto suas habilidades evasivas consomem stamina. (sim, igual em Dark Souls).

Ao sair do local inicial me deparei com um mapa overworld que até o momento estava completamente inexplorado, e havia apenas um ponto de interesse ao norte da minha posição porque um NPC que encontrei antes marcou o local no meu mapa.

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A movimentação pelo overworld de Undungeon é livre e, ao longo da sua exploração, outros locais podem ser revelados e ainda há uma chance de você se deparar com eventos aleatórios.

É uma versão bem simplificada do sistema visto nos dois primeiros jogos da série Fallout, e a falta de um ciclo de dia e noite nesse caso é contornada pelo fato de que explorar consome seu suprimento de Essence.

Essence é o recurso em torno do qual o elemento roguelike de Undungeon se desenvolve. Você adquire essence ao derrotar inimigos ou através de escambo com certos NPCs, e a quantidade de essence influencia a sua vida máxima.

Você perde essence ao morrer em combate ou ao viajar pelo overworld, então falhar muitas vezes deixará seu personagem mais fraco e dificultará sua vida até você conseguir recuperar seu suprimento.

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Nem preciso falar o quanto gosto desse estilo visual.

Esse sistema claramente busca emular a série Souls, mas sua presença transforma uma característica — que normalmente não importaria muito — em um defeito: os inimigos não ressurgem quando você morre, deixando o jogador com cada vez menos recursos para se recuperar após cada respawn.

Espero que isso seja um descuido por parte dos desenvolvedores ou uma alteração feita especificamente para a demo, até porque dominar o combate de Undungeon exige muita tentativa e erro contra os diferentes tipos de inimigos.

Uma coisa que você não perde ao morrer, no entanto, são os materiais coletados tanto dos monstros quanto do ambiente. Alguns desses materiais não servem para nada além de trocar com os mercadores por coisas mais úteis como itens de cura ou novas armas, mas outros materiais podem ser usados para confeccionar partes novas para seu personagem.

Pernas, olhos, entranhas, pele, cérebro, todas as partes do corpo de um herald podem ser personalizadas e substituídas por outras com funções diferentes caso você possuir os materiais e a quantia de essence necessária para confeccioná-las.

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Aspectos da arte em “raio-x” do seu herald mudam de acordo com as alterações instaladas em cada órgão do personagem.

Junte isso a um inventário até robusto e você tem um excelente e criativo sistema de customização de personagem, sem falar que dito sistema se encaixa perfeitamente na ambientação bizarra de Undungeon.

Por falar em bizarro, a narrativa introduzida nessa demo bastante generosa é um mistério que se ramifica de maneiras imprevisíveis à medida que você se depara com os NPCs e locais espalhados pela Q-Dimension.

Às vezes, um personagem encontrado numa zona secundária te guiará por uma trama quase tão interessante quanto o enredo principal — e que talvez trará alguma consequência no futuro.

Essa sensação de descoberta de novas histórias e possíveis escolhas que não foram entregues de bandeja para você é algo que faz falta nos dias de hoje, onde o design dos mundos em RPGs parece ter desistido de verossimilhança e aderido a uma tendência de criar “parques de diversões” onde tudo tem o objetivo de proporcionar “atividades” para o jogador.

O que achei de Undungeon Demo?

Com exceção de algumas pontuais frustrações devido à incongruência entre alguns sistemas, minha opinião sobre a demonstração de Undungeon é a de que ela é um início bastante promissor para o que pode ser potencialmente um novo clássico dos RPGs.

Fico feliz em poder dizer que a premissa surrealista, que me chamou a atenção inicialmente, atendeu às minhas expectativas. É bem óbvio pela altíssima qualidade do roteiro que a Laughing Machines leva muito a sério essa ambientação psicodélica que eles criaram.

Para você ter noção do quão cuidadosos eles foram ao criar esses mundos, preciso frisar que estamos falando de um jogo que faz conceitos de ficção científica clássica coexistirem com zumbis que foram reanimados por raízes amaldiçoadas, e nenhum dos dois elementos parece deslocado em momento algum.

Em consonância com a premissa de sua narrativa, a própria estrutura de Undungeon funde diversos estilos que por sua vez se originaram do mesmo lugar: um CRPG nos moldes dos clássicos da Infinity Engine que ostenta uma trama densa e cheia de ramificações, incorporando o ritmo constante de risco e recompensa dos ARPGs e o combate estratégico dos Souls-likes.

São estilos muito diferentes entre si, no entanto ainda são todos parte do gênero RPG, e é por isso que a mistura foi tão bem-sucedida. Provavelmente o fato de essa mistura ser literalmente espelhada na premissa narrativa foi uma coincidência, mas seria interessante se fosse proposital.

Se é proposital ou não, só saberemos quando Undungeon for lançado no quarto trimestre de 2020 exclusivamente para PC. Enquanto o jogo não lança, por que você não vai lá na página oficial de Undungeon na Steam e faz o download gratuito da demo? A história principal deve levar umas duas ou três horas para completar, mas explorar o mundo e conhecer todas as suas nuances facilmente consumirá muito mais do seu tempo.

Se você gosta de jogos assim, garanto que esse tempo será bem-gasto.