The Nightingale – A crueldade e a humanidade sob a mesma lente | Review

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The Nightingale é um filme australiano dirigido por Jennifer Kent, que caminha sob os gêneros do suspense e o drama. A narrativa acompaha Claire, uma mulher que vai atrás de vingança após atos brutais cometidos contra sua família.

O longa conta uma história dura, pesada e sensível, algo que para se contar é preciso ter um bom tato. Depois de várias controvérsias e polêmicas em exibições de festivais por conta de cenas contínuas e as vezes detalhadas de estupros e assassinatos, uma escolha da direção que abre um leque de discussões.

As polêmicas causadas são compreensíveis, tendo em vista que é sim um filme duro de se assistir, mas acredito que toda atmosfera crua do filme é complementada com a brutalidade mostrada, nos apresentando um mundo cruel, brutal e hostil diretamente dos olhos de seus personagens, nos fazendo sentir mais intensamente cada acontecimento e também nos fazendo ansiar mais e mais para uma resolução.

The Nightingale

A dramatização das cenas de estupro, por exemplo, é algo que acontece mais de uma vez e que se torna recorrente no longa, o que se torna a decisão mais controversa da direção, que por um lado acrescenta em sua atmosfera brutal intensificando as sensações de desconforto ao assistir, mas por outro lado, é algo que ainda sim poderia ser abordado de outra forma.

É preciso ter estômago para digerir toda a narrativa.

O ritmo do longa se mantém controlado e intrigante por boa parte de sua duração, com a intensidade de seu primeiro ato o longa parece desandar em ritmo depois disso, porém é apenas uma impressão momentânea, pois seu ritmo desanda mesmo em seu terceiro ato.

Aqui é onde encontramos a parte mais problemática do longa, onde seu ritmo acaba sendo ratardado pelas decisões do roteiro de jogar os personagens para cá e para lá sem tanto propósito, apenas apresentando idéias que acrescentam sim à seu universo, mas que poderiam ser retiradas sem muita falta, os levando a uma resolução um tanto anti climática.

Isso apenas cansa, porém não tira todo o mérito da direção e do roteiro em suas competências. O roteiro é algo simples, porém executa um desenvolvimento de personagens de maneira excelente, um ótimo exemplo é personagem do garoto que aparece apenas na metade da trama, e até o fim consegue ter um excelente desenvolvimento com densidade.

Aisling Franciosi interpreta a personagem principal, que passa por processos traumáticos e intensos, tudo é executado de maneira convincente e impactante, o único estranhamento que ocorre é quando a direção escolhe não mostrar seu rosto em algumas cenas de choro, mas nada que o tire da trama.

Todo o elenco é competente e entrega performances convincentes, por exemplo Sam Claflin com seu personagem denso e extremamente odiável.

The Nightingale

Tudo isso nos é mostrado sob uma resolução de 35 mm, uma escolha estética da direção que enriquece o universo de época.

A fotografia prioriza as paisagens e o ambiente de forma estranhamente relaxante em meio a tanta brutalidade, o que contribui muito para a dualidade apresentada na atmosfera do longa. A brutalidade é explorada lado a lado com a humanidade, nos dando um vislumbre de uma época sombria e dura da sua própria maneira.

Usufruindo de seu universo pautado na realidade, os reflexos históricos abordados aqui nos dão um vislumbre duro sobre uma época desumana em que os personagens viviam, explorando as diferenças culturais, o preconceito e a supremacia dos privilegiados.

Baykali Ganambarr

Sua resolução apesar de anti-climatica, consegue nos render um forte aperto no coração, o que é um estranho suspiro de alívio após tudo que seus personagens passaram. Sendo assim, algo que o longa se compromete em nos entregar, tendo em vista não só retratar brutalidades sem propósito.


No fim, The Nightingale é um duro e brutal drama de época que exige um estômago forte para ser digerido, que pode se perder em meio a idéias mas se encontra de maneira estranha, e que passa bem mais do que apenas uma cruel realidade histórica.

Ótimo