Contemple as primeiras imagens da aguardada adaptação de 'Duna'

Antes de Game of Thrones ou Star Wars, havia Duna. O lendário romance de ficção científica escrito por Frank Herbert revolucionou o gênero com seu universo extremamente detalhado e sua trama que aborda inúmeros temas como ecologia, guerra e espiritualidade. Nem preciso dizer pra vocês que uma obra tão densa e complexa é algo quase impossível de se adaptar para os cinemas, mas se alguém tem a capacidade pra fazer isso, esse alguém é o cineasta canadense Denis Villeneuve.

Ontem mesmo, o Alan trouxe a vocês a primeira foto de Timothée Chalamet como Paul Atreides, protagonista de Duna. Hoje teremos aqui uma versão adaptada da excelente cobertura feita pela Vanity Fair para o longa-metragem programado para lançar em dezembro deste ano. O texto original é de Anthony Breznican e as fotos são de Chiabella James.

Bem-vindos ao universo de Duna

Timothée Chalamet e Rebecca Ferguson na Jordânia, onde “Duna” foi filmado. Chalamet diz que a experiência de filmar no local foi “bastante surreal”.

Timothée Chalamet se lembra da escuridão. Era o verão de 2019, e o elenco e a equipe de Duna se aventuraram pelas profundezas dos canyons de arenito e granito no sul da Jordânia, saindo ainda no meio da noite para poder capturar a aurora nas câmeras. A luz derramando sobre os abismos deu à paisagem um aspecto sobrenatural. Era pra isso que eles tinham vindo aqui.

“Foi bastante surreal,” diz Chalamet. “Essas são paisagens monstruosas, que você pode até imaginar existindo em planetas no nosso universo, mas não na Terra.”

Zendaya como Chani

Eles não estavam mais na Terra, de qualquer forma. Eles estavam no mortífero e árido campo de batalha também conhecido como o planeta Arrakis. No épico romance de ficção científica de Frank Herbert lançado em 1965, Arrakis é o único local conhecido onde se pode extrair o recurso mais vital da galáxia: a substância milagrosa que expande mentes e distorce o próprio tecido do espaço-tempo, chamada comumente de “especiaria”.

Na nova adaptação cinematográfica dirigida por Denis Villeneuve (de Arrival e Blade Runner 2049), Chalamet estrela como o jovem nobre Paul Atreides, o proverbial estrangeiro numa terra muito estranha, que luta para proteger seu hostil novo lar mesmo quando este ameaça destruí-lo. Humanos são os invasores em Arrakis. A espécie dominante nesse mundo são imensos e vorazes vermes da areia que se entocam nas correntezas áridas do planeta como dragões subterrâneos.

Para os infinitos mares de areia que dão à história seu título, a produção se deslocou para regiões remotas pelos arredores de Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos, onde as temperaturas rivalizavam com a ficção na narrativa de Herbert. “Lembro que eu saía do meu quarto às 2 da manhã e parecia estar uns 100 graus,” diz Chalamet. Durante a filmagem, ele e os outros atores estavam vestindo aquilo que o mundo de Duna se refere como “trajestiladores”— uma grossa e emborrachada armadura que preserva a umidade do corpo, coletando até pequenas partículas liberadas pela respiração através do nariz.

Na história, os trajestiladores dão vida. Na vida real, eles eram pura agonia. “A temperatura das filmagens às vezes era 120 graus,” segundo Chalamet. “Eles colocam um limite máximo lá, pro caso de ficar quente demais. Esqueci o número exato desse teto, mas você não conseguia continuar trabalhando.” As circunstâncias alimentavam a história que eles estavam lá pra contar: “De uma forma bem fundamentada, ajudou muito estar dentro dos trajestiladores e estar naquele nível de exaustão.”

A corte da Casa Atreides, da esquerda para a direita: Timothée Chalamet como Paul Atreides, Stephen Mckinley Henderson como Thufir Hawat, Oscar Isaac como o Duque Leto Atreides, Rebecca Ferguson como Lady Jessica Atreides, Josh Brolin como Gurney Halleck e Jason Momoa como Duncan Idaho.

Se fosse fácil, não seria Duna. O romance de Herbert se tornou um pilar da ficção científica nos anos 60, aclamado pela sua construção de mundo e subtexto ecológico, assim como sua complexa (alguns diriam que é até impenetrável) trama focada em duas famílias digladiando por supremacia sobre Arrakis. O livro causou uma reação em cadeia cujos efeitos podem ser vistos em grandes sucessos como Star Wars, Alien – O Oitavo Passageiro e Game of Thrones. Mesmo assim, durante décadas, o romance em si resistiu a ser adaptado.

Na década de 70, o vanguardista e experimental cineasta Alejandro Jodorowsky embarcou em uma jornada para adaptar o livro (uma história registrada no aclamado Jodorowsky’s Dune, que nós aqui do 1 Real a Hora recomendamos a todos que curtem um bom documentário), mas Hollywood achou o projeto arriscado demais. David Lynch trouxe Duna às telonas como um longa-metragem em 1984, mas o resultado foi visto como uma bagunça incompreensível e uma mancha na filmografia de Lynch. Em 2000, uma minissérie de Duna foi exibida no canal SyFy e foi considerada um sucesso para a emissora na época, mas atualmente beira o esquecimento.

Eu não aceitaria fazer essa adaptação do livro com um único filme,” diz Villeneuve. “O mundo é complexo demais. É um mundo que ganha sua força através dos detalhes.”

Villeneuve pretende criar um Duna que até então só existiu na imaginação dos leitores. A chave, segundo ele, foi partir ao meio a gigantesca narrativa. Quando Duna chegar aos cinemas no dia 18 de dezembro, irá corresponder apenas à primeira metade do romance, com a Warner Bros. concordando em contar a história em dois filmes, semelhante à abordagem do estúdio com a obra de Stephen King em It – A Coisa e It – Capítulo Dois. “Eu não aceitaria fazer essa adaptação do livro como um único filme,” diz Villeneuve. “O mundo é complexo demais. É um mundo que ganha sua força através dos detalhes.”

Para Villeneuve, essa história de 55 anos sobre um planeta sendo minerado até a morte não era apenas uma aventura espacial, mas uma profecia. “Não importa o que você acredita, a Terra está mudando, e temos que nos adaptar,” ele diz. “Acho que é por isso que Duna, esse livro, foi escrito no século 20. Foi um retrato distante da realidade do petróleo, do capitalismo e da exploração abusiva do nosso planeta. Hoje em dia, as coisas estão bem piores. É uma história sobre amadurecimento, mas também um apelo à ação para a juventude.”

Denis Villeneuve e Javier Bardem no set de filmagens.

O personagem de Chalamet, Paul, pensa ser apenas um garoto lutando para achar seu lugar no universo, mas ele na verdade possui a habilidade de mudá-lo. Graças à sua criação e outros motivos que não podem ser ditos aqui porque spoilers, Paul possui uma habilidade sem igual de manipular a energia do próprio corpo, influenciar e liderar outras pessoas, e se integrar ao coração do planeta que agora chama de lar.

Paul vem de uma poderosa família nobre da galáxia cujo nome remete à mitologia grega — a Casa Atreides. Junto de seus pais, Duque Leto (Oscar Isaac) e Lady Jessica (Rebecca Ferguson), o jovem Paul se despede do exuberante planeta-natal Caladan para supervisionar a extração de especiarias em Arrakis. O que se segue é um embate com a influente e inescrupulosa Casa Harkonnen, liderada pelo monstruoso Barão Vladimir (Stellan Skarsgård), um gigante com apetites impiedosos. O Barão, trazido à vida graças a próteses de corpo inteiro, é como um rinoceronte em forma humana.

Essa versão do personagem está menos para um psicopata e mais para predator. “Por mais que eu ame profundamente o livro, senti que o Barão estava frequentemente beirando uma caricatura,” diz Villeneuve. “E eu tentei dar a ele um pouco mais dimensões. É por isso que eu escolhi Stellan. Stellan tem algo nos olhos dele. Você sente que ele está constantemente pensando, e pensando, e pensando — isso gera tensão e dá a ele um aspecto frio e calculista. Eu estou de prova, ele consegue ser bem assustador.”

O diretor também expandiu o papel da mãe de Paul, Lady Jessica. Ela é um membro das Bene Gesserit, uma organização composta exclusivamente por mulheres que é uma das forças políticas mais poderosas no universo de Duna. Através de um treinamento físico e mental conduzido desde a infância, as Bene Gesserit adquirem domínio absoluto sobre os próprios sentidos, abrindo caminho para habilidades consideradas “mágicas” aos olhos de um leigo.

No roteiro que Villeneuve escreveu a seis mãos junto a Eric Roth e Jon Spaihts, Lady Jessica é ainda mais temível do que nunca. A sinopse do enredo feita pelo estúdio a descreve como uma “sacerdotisa guerreira.” Como dito por Villeneuve aos risos, “é bem melhor que ‘freira espacial’.”

A missão de Lady Jessica é trazer um “salvador” ao universo — e agora ela tem um papel maior em defender e treinar Paul também. “Ela é uma mãe, uma concubina e uma guerreira,” diz Rebecca Ferguson. “Denis foi muito respeitoso ao trabalho de Frank no livro, mas a qualidade dos arcos dramáticos de muitas das mulheres em Duna foram trazidos a um novo patamar. Houveram algumas alterações que ele fez, e essas personagens são retratadas maravilhosamente.”

Jason Momoa como Duncan Idaho. Um bom nome para carregar a franquia caso o estúdio decida por eventualmente adaptar as sequências de Duna.

Em uma intrigante alteração do material-base, Villeneuve também quis atualizar o personagem Liet-Kynes, o planetólogo encarregado de Arrakis e um mediador independente em meio às várias facções inimigas. Embora tendo sido sempre retratado como um homem branco (Kynes foi vivido por Max Von Sydow em 1984 e Karel Dobrý em 2000), o personagem agora é interpretado por Sharon Duncan-Brewster (Rogue One), uma mulher negra. “O que Denis havia me falado era que faltavam personagens femininas no elenco dele, e ele sempre foi muito feminista, pró-mulheres, e queria escrever o papel para uma mulher,” Duncan-Brewster diz. “Essa pessoa praticamente consegue manter a paz entre um monte de pessoas. Mulheres são ótimas nisso, então por que não tornar Kynes uma mulher?”

Sharon Duncan-Brewster como Liet Kynes.

Como os fãs já sabem, há uma vasta coleção de outros personagens populando Duna. Existem humanos chamados “mentats”, treinados desde cedo para desenvolver habilidades cognitivas e analíticas comparáveis às de um computador (as “máquinas pensantes” nesse universo são proibidas). Paul é orientado pelos dois bravos guerreiros Duncan Idaho (Jason Momoa) e Gurney Halleck (Josh Brolin). Dave Bautista interpreta o sinistro executor Harkonnen Glossu Rabban, e Charlotte Rampling desempenha um papel-chave como a Reverenda Madre das Bene Gesserit. A lista não para por aí: Nos inóspitos desertos de Arrakis, , Javier Bardem lidera o povo Fremen como Stilgar, e Zendaya co-estrela como a misteriosa Chani, uma mulher de brilhantes olhos azuis que assombra Paul em seus sonhos.

A monumental escala de Duna é o que fez a obra ser tão difícil para os outros adaptarem. “É um livro que aborda política, religião, ecologia, espiritualidade — e com muitos personagens,” diz Villeneuve. “Acho que é por isso que é tão difícil. Sinceramente, essa é de longe a coisa mais difícil que eu fiz em toda a minha vida.” E depois que Denis terminar o trabalho no primeiro filme, ele simplesmente vai ter que fazer tudo de novo.

Essa foi a matéria da Vanity Fair sobre o que é provavelmente o filme de ficção científica mais ambicioso de todos os tempos, e agora eu gostaria de fazer umas observações pessoais e explicar o porquê de estar tão ansioso para dezembro (e por que você também deveria estar).

Obviamente, sou o fã de Duna residente aqui do 1 Real a Hora. Conheci o universo através dos jogos produzidos pela Westwood, considerados por muitos como pioneiros do gênero de Estratégia em Tempo Real. Os jogos seguiam uma trama própria sem relação com a saga de Frank Herbert, e buscavam inspiração tanto na estética industrial do filme de David Lynch (por mais que aquele filme tenha sido horroroso, não dá pra negar que ele tinha uma identidade visual extremamente marcante que de certa forma influenciou todas as adaptações posteriores de Duna) quanto na lore mais aprofundada da série.

Daí resolvi conferir os livros e fui imediatamente sugado para aquela que até hoje consta como uma das mais incríveis experiências literárias que eu já vivenciei. É algo íntimo e épico ao mesmo tempo, onde a ação situada nos vastos cenários do planeta Arrakis divide espaço com a exploração da psiquê dos personagens envolvidos. É uma narrativa que não tem medo de questionar a si mesma sem dar respostas definitivas, porque confia na sua capacidade de encontrá-las. É uma aventura emocionante com eventos grandiosos, mas que também te obriga a refletir sobre o que tais eventos significam.

Se Denis Villeneuve, através de sua adaptação cinematográfica, conseguir trazer às telas do cinema essas e outras inúmeras nuances da obra original (e estou bem confiante na capacidade do cara), tenho certeza que teremos em mãos um dos melhores filmes já produzidos.

Duna será lançado em 18 de dezembro de 2020 nos Estados Unidos. Se você não consegue segurar a ansiedade e quer conhecer o intrigante universo criado por Frank Herbert, fique sabendo que a Editora Aleph publicou os cinco primeiros volumes da saga literária em um luxuoso formato de capa dura. Os livros estão todos disponíveis na Amazon.