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Os delírios de Jamdsaip | 1 Real o Conto

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Leia a seguir o nosso conto autoral do 1 Real a Hora, intitulado de Sentimentos em Crise. Indicamos que leia escutando essa música.

Os Delírios De Jamdsaip | 1 Real O Conto
Os Delírios De Jamdsaip | 1 Real O Conto

O medo percorria minhas veias, o horror gritava em meus nervos, e o mais puro pavor sangrava de meus inúmeros cortes. E por mais incrível que pareça, de minha boca não saía som algum.

Mas houve um motivo para que tudo isso começasse. E claro que não podia ser outro: a minha maldita curiosidade. Aquela que me elevara ao topo do mundo, mas que me empurrara para baixo tantas vezes. E claro, a que agora trazia a minha ruína.

Esses são meus últimos momentos de vida, e não vale a pena apenas me lamentar. Então eu vou contar como cheguei até aqui; até este fatídico dia.

Meu nome é Déric Jamdsaip, e acredito que em pouco tempo meu nome será esquecido. Mas não faz mal, eu já não me importo com reconhecimento. De verdade, eu espero que esse áudio nunca seja sequer ouvido.

Tudo começou quando eu era apenas um fedelho correndo em torno das pernas da minha mãe. Foi quando eu vi um besouro voando para longe, e decidi correr atrás dele; apanhá-lo.

Ver aquela criatura voando, suas pequenas patas se movendo enfurecidamente enquanto eu a segurava em minhas mãos foi algo incrível. Me trouxe uma sensação única e inigualável.

E desde então eu percebi que era isso que desejava para minha vida. Eu me tornei um biólogo, e mais tarde um arqueólogo. Minha paixão era conhecer mais sobre as criaturas diferentes que passaram pelo mundo, que ninguém conhecia até então.

Em pouco tempo eu saí de uma cidadezinha qualquer do interior e me tornei reconhecido por todo o mundo; criei o meu império dentro da arqueologia.

Mas houve um ponto em que o fascínio se tornou obsessão: foi quando eu encontrei uma parede antiga. Essa pode ser uma frase um pouco estranha, mas havia um motivo: suas pinturas rupestres.

A linguagem sempre foi outro ponto pelo qual eu era apaixonado. Conseguir transmitir seus pensamentos, sentimentos; temores. Tudo através de uma ferramenta tão complexa, ao mesmo tempo que simples. Todas as formas de expressão me tinham uma atenção especial.

E principalmente quando se tratava das mais arcaicas. De povos que ainda não tinham desenvolvido uma língua complexa, e por isso deixavam suas histórias registradas através de desenhos. Assim, qualquer um que visse aquilo poderia entender do que se tratava.

Mas é difícil entender do que se trata o pensamento de uma pessoa que viveu milhares e milhares anos antes de você. Algo que beira o impossível na verdade; mas ainda assim nós tentamos.

Porém muitos povos tem um padrão, e quando você descobre como lê-los, tudo se torna mais fácil, e você tem um norte pelo qual seguir. Não está mais às cegas.

Entretanto esse não era o caso daquelas pinturas. Elas eram diferente de tudo que eu já havia visto em minha vida inteira. Aqueles desenhos mostravam uma espécie de adoração. Animais, humanos e até mesmo o fogo, ar, terra, água e trovão. Tudo se voltava a uma única coisa.

Coisa: essa é a melhor forma de definir aquilo. Não havia uma forma realmente, era como se fosse apenas um borrão. Ele era mais alto que os outros desenhos, e trazia uma beleza mórbida. Mesmo que se tratasse apenas de dedos deslizados por uma parede fria; mesmo que não houvesse nenhuma forma de reconhecer aquilo; mesmo que eu não entendesse, ainda me deixava apavorado.

Pavor: segundo os dicionários se trata de um medo em excesso. Medo: estado da consciência que nos alerta de um perigo. Perigo: quando uma existência se encontra sob alguma ameaça.

Isso já era um aviso de meu inconsciente. Mesmo que eu não reconhecesse aquilo, no fundo eu sabia que não era algo bom. E vocês já devem imaginar que eu não escutei meus próprios avisos, meus próprios limites; fui tolo.

Não cabe aqui escrever sobre minhas infindáveis pesquisas. Sobre todos os quinze anos que passei diversas noites em claro tentando solucionar o mistério. Sobre minhas descobertas que não me levaram a lugar algum. Sobre todas as minhas frustrações e quase desistências.

Tudo que preciso lhes mostrar é meu resultado. Onde eu consegui chegar com tantos anos de macabro fascínio por um simples desenho. Era quase como se eu fosse um animal caçando uma presa; uma que definiria sua vida ou morte. E no fim, é isso o que aconteceu.

Após todos os meus estudos, eu descobri algumas coisas. O borrão na caverna era uma espécie de entidade, que aparecia em diversas outras cavernas. muitas vezes escondida em lugares mais distantes de outros desenhos. O que levava a muitos arqueólogos ignorarem. Era apenas “uma marca usada para testar a tinta”.

Eu não deixei isso abalar, mas logo a visão que eles tinham de mim, tudo que eu construí como um renomado arqueólogo, foi para os ares. Eles me viam apenas como um louco. Alguém obcecado por algo sem sentido. Algo que não levaria ninguém a lugar algum.

Mas eu tinha total certeza de que eles estavam errados. Em todos os lugares que essa entidade existia, em um tom de azul, os protagonistas das pinturas estavam voltados para ela. Isso não podia ser simplesmente uma coincidência.

Eu sabia que estava certo, porém isso não me levava a lugar nenhum, eu continuava estagnado. Foi quando, por puro impulso, decidi procurar entre os resquícios dos povos nórdicos.

O que, mais uma vez, não trouxe muitos resultados. Mas foi o que me deu conhecimento para entender o que encontraria mais tarde. Você já ouviu falar sobre o Ragnarök?

Se trata do fim do mundo na mitologia nórdica. E, resumidamente, era uma guerra entre os titãs e os deuses, que culminaria na destruição de tudo o que conhecemos. Após isso, os deuses remanescentes se uniriam, e os últimos dois humanos repovoariam o planeta.

Eu já não sabia mais para onde rumar, e foi nesse ponto que eu acabei conhecendo, através de um colega, sobre os Hopis.

Mais uma vez, não cabe falar sobre esse colega ou sobre meu tempo de estudo. Tudo o que importa é o resultado. Esse povo acreditava em sua própria mitologia, e eles também tinham um fim do mundo.

Em sua história, existe um espírito nomeado de Kachina, que, quando chegasse a terra, marcaria o seu fim, assim como o começo de um novo e diferente mundo.

Esse espírito é o último sinal antes do dia da purificação. Um dia onde tudo será destruído, sem que nada fique em pé. E, assim, o mundo será purificado. Uma ideia tenebrosa, e ela se torna ainda melhor.

Esse espírito apareceria na forma de uma estrela azul, que se destacaria no meio de tudo. E se você é alguém como eu, já deve ter começado a ligar os pontos.

Segundo o Ragnarök, o fim do mundo começa com um longo inverno. O inverno que é marcado pela cor azul. Após isso, vem a destruição, para as duas mitologias.

E pode não ter sido muito bem uma estrela, mas nas pinturas que eu encontrei, havia um povo adorando alguma coisa azul. Algo que com certeza era visto como superior. E poderia muito bem ser um espírito que faria todos se curvarem perante ele. Um que traria a destruição.

Porém, ainda que eu encontrasse ligação entre tudo, eu não tinha muito o que fazer com isso. Foi quando eu tive um sonho: o que me trouxe até onde eu estou.

Nesse sonho, eu pude ver um borrão azul, e eu apenas sentia que deveria me dirigir a um local específico dentro da Amazônia. Mas não pense que eu irei revelar onde é esse local. Essa é uma descoberta que eu espero que caia no esquecimento.

E, bom. Como vocês imaginam, eu cheguei até esse lugar. E fiz a idiotice de vir até aqui sozinho. Não avisei ninguém de minha viagem, o que talvez deixe meus familiares e amigos preocupados. Mas espero que eles possam viver sem mim, e que suas curiosidades não lhes façam me procurar; não lhes façam chegar até aqui.

Meu sonho acabou me levando até uma caverna, onde eu encontrei um túmulo estranho. Era como o de um faraó, porém não deveria estar em um lugar tão longe. Por isso, eu o toquei. E acredito que foi a pior coisa que poderia ter feito.

Minha mente embaralhou, e eu não sei bem o que aconteceu nesse meio tempo. Quando me dei por conta, eu estava jogado no chão de uma construção antiga. Era como um templo grego, mas subterrâneo. Tinha o aspecto de uma caverna fora do templo, mas as paredes eram feitas de uma pedra lisa. Não havia sequer uma rachadura ou parte áspera.

A visão me deixou estupefato. Aquilo me deixou sem ar, tanta beleza; era algo caótico. Por conta disso, só percebi o tamanho do estrago em meu corpo quando me levantei.

Eu estava em uma poça de sangue, com inúmeros cortes. Minha roupa estava rasgada, minha pele suja de sangue e areia. Minha cabeça latejava, e eu estava morrendo de fome.

Mas não parecia haver qualquer saída de fora do templo. Por isso eu decidi entrar lá, e a visão tirou todo o meu apetite.

Haviam corpos partidos, retorcidos, pendurados e torturados. Eu tive vontade de vomitar, mas não havia nada na minha barriga para isso. Não quero falar muito sobre. Não quero lembrar de minha visão.

Mais uma vez eu não sei muito bem o que se sucedeu, eu apenas corri o mais rápido que pude, sem rumo algum. E sem olhar para trás.

Quando meu pulmão finalmente obrigou que eu parasse, eu olhei para cima e percebi estar dentro de um grande salão: com paredes brancas e uma grande cúpula de vidro no teto. Através dela, só havia a escuridão.

E é aqui que eu estou gravando esse áudio. Eu não sei onde estou, mas não tenho vontade alguma de caminhar pelos arredores e acabar descobrindo. Não quero ter que voltar para aquela outra câmara.

Então, se você ouviu isso, saiba que pro…

– Saudações, pequeno humano!

– Quem é você? Por que estou aqui?

– Você pergunta por quê? Foi a sua curiosidade, a ânsia que fez Sanhuniudfrao deixar que você o conheça. O fim está se aproximando, e você será o único humano capaz de vê-lo.

– Então por que ele não fala comigo?

– Que pergunta idiota! Ele é um rei, um deus. Vocês humanos não tem o direito de se dirigirem a ele, e não o compreenderiam. Eu sou ser porta voz! Seja grato por ele permitir que você o veja. Agora contemple toda a beleza de seu ser.

– Do que você está…

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A vida é algo tão simples, vocês não acham? As pessoas vivem, trabalham, se divertem. Criam suas próprias famílias. E tudo isso sem entender sobre tudo que está em seus arredores; sem entender que irão morrer a qualquer instante em prol de algo muito maior.

Um novo ser; uma nova vinda; um novo mundo. Quando os europeus descobriram as Américas, foi assim que eles chamaram esse novo lugar repleto de coisas novas: novo mundo.

Porém isso não era de fato um novo mundo. Foi algo que sempre esteve lá. Entretanto estava distante demais para seus pensamentos pequenos; distante demais para a sua ignorância.

Os humanos se animam para descobrir coisas que já aconteceram. Ou coisas que já deveriam saber, mas acabaram sendo esquecidas; abandonadas com o tempo. Eles buscam incessantemente pelo desconhecido, mas não estão nem ao menos dispostos a abandonar suas crenças mais frívolas para aceitar a verdade.

A verdade: algo que todos buscam, mas poucos estão realmente dispostos a encontrá-la. Eu entendo todos os humanos, eu também era como eles. Eu não estava pronto para a verdade, mas a conheci assim mesmo.

A verdade estava nos olhos daquele ser; daquele deus. Em sua face eu pude ver tudo. Todos os seres que já pisaram nesse mundo; todos os países e cidades que já existiram; todas as memórias mais escuras de minha vida.

E ao mesmo tempo, eu não vi nada; eu vi a inexistência. Em apenas alguns segundos eu pude ter todo o conhecimento. Coisas que a humanidade jamais descobrirá. Todos os segredos do universo foram respondidos; tudo que eu busquei por anos estava a minha frente.

Mas ao mesmo tempo que o fervor tomou conta de minha mente, junto dele veio a tristeza; o vazio. Tudo que dava sentido a minha vida fora respondido, será que ainda vale viver?

Eu perdi todas as noções mais básicas após esse encontro. Após ver a magnificência daquele deus. Eu sempre fui ateu, Deus não é um ser necessário equação do universo. Porém ainda assim, aquele ser era necessário. Sua missão de nos purificar é bela.

Mas eu não posso mais esperar, não consigo ficar aqui mais um segundo. Infelizmente não verei todo o esplendor da chegada de meu Senhor. Daquele que nos guiará para o tão esperado vazio eterno.

Somente de me lembrar daquela cena as lágrimas saem aos meus olhos. Depois de encontrá-lo e me submeter a seus pés, minha vida perdeu o sentido. Entretanto eu sei que isso aconteceu por um bem maior.

Eu saí daquele templo de algum modo, e não me recordo de mais nada. Não faço ideia de como eu vim parar o meio dessa floresta de bonecas. E não posso avisar ninguém da chegada de meu Senhor. Eu gostaria muito de poder, ele sabe como eu queria. Mas não há ninguém aqui, e eu não posso mais sair daqui. Eu preciso acabar com tudo isso agora.

Então, se porventura você encontra essa fita, e a curiosidade tomar conta de seu ser. Vá atrás, procure. Não deixe que seus medos o limitem. Você estará prestes a encontrar um ser muito além de sua compreensão. Algo poético, belo e sem igual.

Então, antes de por um ponto final em tudo, eu, Dr. Jamdsaip, deixo minha última frase, e espero que ela ressoe em seus ouvidos por toda a eternidade, e faça você ir atrás dos segredos mais obscuros que existem no universo.

Se torne um adepto de Sanhuniudfrao. Devote a ele sua vida, e você encontrará o verdadeiro valor das coisas.

(Um som de tiro encerra a gravação).

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Veja também: Sentimentos em Crise – 1 Real o Conto

Os delírios de Jamdsaip
Foto Reprodução: 10Wallpaper

A noite estava fria e pálida.

Porém, você deve compreender que isso é o comum de uma noite de lua cheia. Quando você está sozinho em uma noite como essa, tudo se torna ainda muito mais claro: a solidão se intensifica.

Assim como acontecia com William, que sentia como se o mundo inteiro coubesse em seu peito. Havia espaço para tudo, mas nada queria estar lá. Ninguém queria preencher o seu vazio infinito.

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