O Pacto dos Lobos — Quando estilo e substância são um só | Retro Review

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Durante a presente “quarentena” prolongada, me encontro com frequência naqueles momentos de extremo ócio onde a única coisa que resta a se fazer acaba sendo vasculhar as profundezas dos acervos das plataformas de streaming (leia-se: Netflix e Amazon Prime) em busca de algo divertido o suficiente para ajudar o tempo a passar mais rápido, mesmo que seja por poucas horas.

Em um desses momentos me deparei com um filme francês no catálogo da Amazon Prime Video que chamou minha atenção imediatamente devido ao pôster, onde dois personagens encaravam a câmera de forma imponente e usavam trajes que me fizeram lembrar do jogo Bloodborne.

A sinopse, que descrevia uma história de terror e mistério situada na França do século XVIII e é inspirada por lendas urbanas desenvolvidas em torno de fatos reais, sem falar na semelhança superficial com aquele que é sem dúvida alguma o melhor exclusivo lançado para o Playstation 4 (opiniões discordantes são inválidas) me deixaram no mínimo curioso.

Exatamente duas semanas e meia dúzia de replays depois, sou capaz de tirar duas conclusões: nenhuma sinopse seria capaz de fazer jus ao que de fato acontece na história, e eu não me surpreenderia se o game designer Hidetaka Miyazaki dissesse publicamente que é fã desse filme.

O Pacto dos Lobos
Me corrijam se eu estiver errado, mas tenho uma forte impressão de que esse tipo de roupa não era usado na Inglaterra vitoriana que inspirou Yharnam.

Que filme é esse, afinal?

O Pacto dos Lobos, dirigido pelo tragicamente azarado Christophe Gans (Terror em Silent Hill) e lançado em 2001, é uma obra quase impossível de descrever sem esbarrar em spoilers ou bagunçar a linha de raciocínio, mas vou fazer um esforço porque o mundo precisa conhecer essa maravilha.

O que temos aqui é basicamente uma mistureba de diversos gêneros cinematográficos com a roupagem de um drama de época. Isso certamente resultaria em algo confuso e caótico nas mãos de cineastas menos ousados, mas os floreios característicos de Christoph Gans dão um ar de coesão às diferentes partes e fazem a obra no geral transbordar estilo a cada frame.

Esse estilo é visto logo nos primeiros segundos d’O Pacto dos Lobos, com uma breve tomada contínua na qual a câmera atravessa as janelas de vidro de um palácio. Essa primeira cena, situada no auge da Revolução Francesa, também introduz à audiência o framing narrativo e alude a alguns temas que serão explorados pelo filme mais adiante.

O narrador dessa história é o marquês Thomas d’Apcher (Jacques Perrin), que escreve um livro de memórias enquanto aguarda sua fatídica execução nas mãos dos revolucionários. As lembranças de Thomas levam ele (e a audiência) de volta ao ano de 1764, quando uma fera aterrorizava a antiga província do Gévaudan e deixava um rastro de cadáveres mutilados em seu encalço.

O Pacto dos Lobos
O índio Mani, personagem de Mark Dacascos, é fluente em francês e em meio milhão de formas de te descer a porrada.

Embora as suspeitas iniciais tenham levado as autoridades do Gévaudan a crer que a tal fera era apenas um lobo, relatos mais recentes sugeriam algo mais sinistro e sobrenatural. Como resposta ao pânico, o rei Luís XV envia seu biólogo oficial Grégoire de Fronsac (Samuel Le Bihan) com o objetivo de investigar as ocorrências, abater a fera e empalhá-la para a coleção real em Versalhes.

Grégoire chega ao Gévaudan acompanhado de seu parceiro e melhor amigo Mani (Mark Dacascos), um índio iroquês que imediatamente se revela um mestre em artes marciais — sim, um índio que luta karatê — ao derrotar um bando de rufiões que agrediam o velho Jean Chastel (um personagem que realmente existiu e é vivido aqui por Philippe Nahon) à beira da estrada.

Ao cair da noite os dois protagonistas chegam à mansão da família d’Apcher e são recebidos por um jovem Thomas (aqui interpretado por Jérémie Renier), que foi encarregado por seu pai (Hans Meyer) de fazer com que Grégoire e Mani se sintam em casa durante sua estadia.

No dia seguinte, o biólogo é levado por Thomas para conhecer o Conde de Morangias (Jean Yanne) e é apresentado à família: sua esposa Genevieve (Édith Scob) e seus filhos Jean-François (Vincent Cassel), que havia sido um aventureiro e caçador até ter o braço direito devorado por um leão, e Marianne (Émilie Dequenne), por quem Grégoire se interessa na hora.

O Pacto dos Lobos
Só deixando claro: o fato de Émilie Dequenne ser provavelmente a mulher mais bonita que já vi na minha vida não teve influência alguma no meu julgamento desse filme.

Ao longo da trama são introduzidos mais personagens interessantes como o padre Henri Sardis (Jean-François Stévenin) e a cortesã italiana Sylvia (Monica Bellucci), sobre os quais não há muito a ser falado sem entrar no território dos spoilers.

O que posso dizer, no entanto, é que cada membro do elenco de O Pacto dos Lobos transborda personalidade e cumpre um papel integral no filme, seja na trama em si ou nas muitas mensagens que ela busca passar.

Por falar nisso, agora é a parte na qual eu entro em detalhes sobre a abordagem de Gans e sua co-roteirista Stéphane Cabel na concepção desse enredo.

Em seu nível mais fundamental, a trama de O Pacto dos Lobos apresenta um bom equilíbrio entre elementos de drama, romance, mistério e sátira social com um pano de fundo histórico surpreendentemente autêntico. No entanto, esse aspecto está longe de ser tudo que o filme tem a oferecer.

O Pacto dos Lobos
Édith Scob dá vida à condessa Genevieve de Morangias com uma performance silenciosa e inteiramente sustentada por sua linguagem corporal, enquanto Vincent Cassel mastiga o cenário em todas as suas cenas como Jean-François.

Ao longo do filme acompanhamos majoritariamente as perspectivas de Grégoire, Marianne e Mani, e cada um deles é interessante e carismático à própria maneira. Por exemplo: enquanto Grégoire e Marianne têm uma química ácida e divertida que remete às interações entre Han Solo e Leia Organa em O Império Contra-ataca, Mani expressa sua personalidade através dos punhos.

O resto do elenco de O Pacto dos Lobos é apresentado através dos olhos dos três protagonistas, e com isso temos amostras tanto dos preconceitos e ignorância característicos da época quanto da forma com que os heróis dessa história respondem a esse status quo.

Contudo, isso não significa que os demais personagens existam apenas para servir à história dos três principais e não tenham qualquer personalidade além disso.

O Pacto dos Lobos
Correção: Mani expressa sua personalidade através dos punhos e de seu tomahawk

Devido ao tamanho do elenco e da quantidade de relações que o filme precisa introduzir e desenvolver ao longo de quase duas horas e meia de duração, é natural que alguns personagens — aqueles em quem o público deveria ter mais investimento emocional, mais especificamente — recebam tratamento preferencial e apareçam por mais tempo, mas os roteiristas de O Pacto dos Lobos se recusam a deixar qualquer personagem para trás.

O resultado desse esforço se manifesta como uma das melhores e mais atenciosas implementações de visual storytelling que eu já vi fora de algo dirigido pelo Guillermo Del Toro, que rompe os limites entre o roteiro e o design de produção para fazer com que cada detalhe do cenário e do figurino tenham um peso equivalente a qualquer frase entoada pelos personagens.

Como se isso não bastasse para constituir uma película sólida e digna de elogios por parte de qualquer um, Christophe Gans vai além e incorpora elementos de ação e aventura à narrativa, incluindo estilosas sequências de artes marciais e swashbuckling.

O Pacto dos Lobos
Cenas que não dá pra entender sem contexto então não conta como spoiler (parte 1)

Apesar do slow motion frequente que Gans emprega nessas cenas, todas elas têm a coreografia consistentemente legível e também contam com excelente stuntwork. Posso dizer com segurança que cada centavo gasto no cachê do Mark Dacascos (e nas aulas de francês) foi muito bem-aproveitado.

Vale também mencionar que a “Fera de Gévaudan”, trazida à vida com uma combinação de CGI (até razoável para a época) e marionetes animatrônicas feitas pelo icônico Jim Henson Creature Shop, é um dos designs mais geniais que já vi para um monstro no cinema.

Não posso dizer mais nada sobre a Fera nem postar imagens dela aqui (não pode olhar no google ok?) pois ela é uma das muitas surpresas que o filme guarda, sem falar que a força do design é diretamente ligada à questão do visual storytelling no filme daí o contexto é absolutamente necessário.

Mas o que achei de O Pacto dos Lobos?

O Pacto dos Lobos
Cenas que não dá pra entender sem contexto então não conta como spoiler (parte 2)

Não precisa ser especialista pra perceber que eu me tornei um grande fanboy desse filme ao longo das duas semanas que se passaram desde a primeira vez que o assisti. Também imagino que tenha ficado bem claro, pela estrutura errática desse review, que O Pacto dos Lobos é uma obra gloriosamente insano que corre o risco de ser arruinado por qualquer tentativa de descrevê-lo.

Sinceramente sou incapaz de me lembrar de qualquer outro filme que tenha me proporcionado uma experiência semelhante. A mistura entre gêneros — normalmente considerados incompatíveis — é impecável, e a história é elevada a outro patamar graças às atuações consistentemente sólidas do grande elenco e ao estilo visual que Christoph Gans faz transbordar de cada frame.

O Pacto dos Lobos é absolutamente obrigatório para qualquer pessoa que gostar de cinema (leia-se: qualquer um que teve a paciência e a curiosidade de chegar ao fim desse review) como um exemplo das possibilidades que a sétima arte proporciona a quem tem paixão pelo que faz.

Além disso, a incrível atenção dada aos detalhes e a preferência pelo visual storytelling como um complemento para a trama servem como ótimos incentivos para quem quiser ver o filme mais de uma vez pois há inúmeros detalhes a serem descobertos, que recompensam olhos atentos com uma narrativa muito mais rica do que parecia ser à primeira vista.