Um Lugar Silencioso: o lugar da empatia e do som no horror

| Nathália Gonçalves |

Som é um dos elementos mais importantes do cinema de horror, e ao observar-se a evolução do gênero nas telonas fica claro a importância desse aspecto da produção audiovisual que só tende a crescer. Desde a icônica trilha sonora de Psicose por Alfred Hitchcock, até a arma de sustos barata que é o tão popular jumpscare, recurso em que a trilha do filme é retirada para que no meio do silêncio um barulho muito alto e repentino assuste o espectador. Um Lugar Silencioso parece saber muito bem o caminho traçado em termos de som como um recurso do gênero e, em seu tamanho silêncio, todo e qualquer som se torna extremamente alto e absolutamente aterrorizante para quem o assiste. Ele é quase que como uma antítese do jumpscare e nessa brincadeira com o clichê é mais que bem sucedido.

O filme segue uma família que, em meio a uma espécie de sociedade pós apocalíptica, é forçada a viver em silêncio para sobreviver a criaturas assassinas que caçam pessoas seguindo o som. O filme vir de John Krasinski é uma grande surpresa, ele que já vinha se distanciando da comédia por qual sempre fora conhecido como ator, aqui mostra que sua aptidão pro cinema é vasta. Um Lugar Silencioso é completamente diferente das duas comédias, ainda que estas não sejam exatamente leves, que Krasinski havia dirigido anteriormente, mas ele parece completamente confortável no comando dessa obra tão específica do gênero de horror.

O diretor citou Tubarão como inspiração pessoal para o filme e é impossível não lembrar também de Alien, tanto por como a tensão é construída enquanto não vemos as criaturas, tanto por conta do design das tais criaturas que lembram muito ao famoso oitavo passageiro do filme de 79. Nos seus melhores momentos, especialmente no quão aterrorizante e inervante é sua primeira metade, o filme de fato lembra a clássicos do horror e suspense como os que citei, e mostra potencial para se tornar um clássico próprio em seu tempo.

Algo que também fortalece o filme são suas performances, Krasinski faz um excelente trabalho em construir o sofrimento do pai de família traumatizado e super protetor que se percebe machucando seus filhos como resultado, e você logo percebe que o ator é o diretor e roteirista do filme já que seu personagem possui o arco narrativo mais satisfatório no filme. Noah Jupe se entrega completamente e passa a inocência de criança apesar da situação caótica, é uma performance muito sensível e ele parece se posicionar muito bem como um centro emotivo pra família. Já Millicent Simmonds, que pode se argumentar que tem o papel mais importante do filme, não parece completamente no momento na primeira metade do filme, lhe falta alguma coisa para sustentar a raiva alimentada por culpa e trauma que a personagem carrega. Porém, o fato da atriz ser surda assim como sua personagem, informa muito a performance de todo o elenco a sua volta, e quanto o roteiro de fato exige que sua personagem tome o centro do filme ela preenche a tela com força e rapidamente fica fácil entendê-la e torcer para ela.

A química do elenco é inegável e é muito importante para o funcionamento do filme o quão verdadeiramente uma família eles parecem, mas o verdadeiro destaque do elenco que precisa ser comentado em especial é Emily Blunt. Independente do seu papel na narrativa não ser nem de longe o principal, ela é a verdadeira estrela de Um Lugar Silencioso. Ela dá 101% de si e vende cada segundo em que está em tela, é uma performance quieta (sim, mais quieta do que o filme inteiro por si só), angustiada e absolutamente brilhante. As sequências de horror focadas em sua personagem são as mais enervantes e a cena na banheira em especial tem que ficar gravada como um dos grandes momentos da história do cinema de horror, é impossível de não se arrepiar ao assisti-la.

O longa não é perfeito, é claro, mostram as criaturas um pouco demais, a tensão funciona muito melhor quando eles não estão em tela e da metade pro final o filme parece não perceber isso tão bem. Krasinski tem alguns medos na direção que aparentam um pouco demais e acabam fazendo parecer que ele está subestimando o espectador. Em especial o quanto o filme bate na tecla do aparelho de audição como plot device, o filme estabelece a importância do elemento na narrativa bem e continua voltando pra ele inúmeras vezes e acaba demorando demais para resolvê-lo depois por medo do espectador ainda não ter entendido. Mas, de todos os seus pequenos defeitos, o tempo de duração do filme ajuda. A uma hora e meia de filme deixa as coisas arrumadinha para que a narrativa se resolva na hora certa e acabe, assim que o espectador começa a se cansar das sequências de horror com a perseguição das criaturas o filme engata para o final e se mantém interessante na exploração de seu tema. Não dá nem tempo de se incomodar com a exacerbada ação que o filme introduz de repente em sua sequência final.

Um Lugar Silencioso é uma narrativa de horror que explora com maestria como a verdadeira sobrevivência está em como você se relaciona com o outro em momentos de crise, como olhar pra fora de si é a resposta para tantos dos nossos maiores problemas. É criativo e fora da caixa e bom cinema de horror é feito assim. Independente de pequenos problemas, o que o espectador há de se lembrar ao deixar a sala de cinema são sequências verdadeiramente brilhantes que se unem para criar um possível clássico do cinema atual.

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