| Márcio Moreira | ,

Space Force (Season 1) – Promissor, mas não decola | Review

A experiência de assistir Space Force, a nova série original Netflix criada por Steve Carell e Greg Daniels, é como ver mais ou menos quatro histórias completamente diferentes que foram remendadas umas nas outras ao longo de seis episódios: uma buddy comedy onde duas figuras extravagantes estão em constante conflito; um drama familiar; uma narrativa de hard science fiction; e uma workplace comedy que bebe da fonte de The Office. Uma dessas partes é muito boa, enquanto as outras são… bom, acho melhor explicar ao longo deste review.

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Mas sobre o que se trata Space Force? Apesar de a série, em diversos momentos, parecer não ter ideia da resposta para essa pergunta, a premissa é bem simples e ancorada em eventos contemporâneos: em junho de 2018, o presidente dos EUA Donald Trump anunciou a criação da “Força Espacial” como um novo ramo das forças armadas estadunidenses. A organização começou a operar em 2019 e ostenta o ambicioso objetivo de “pôr os pés na lua até 2024”.

O seriado da Netflix nos apresenta uma versão fictícia dessa mesma organização, que é comandada pelo General Mark Naird (Carell) e cujo braço científico é liderado pelo Dr. Adrian Mallory (John Malkovich), e esses dois são efetivamente os “heróis” de Space Force. Enquanto Naird foi concebido como uma paródia direta do general John W. Raymond (comandante da Força Espacial na vida real), Mallory é curiosamente inspirado no personagem-título do filme Dr. Strangelove, lançado em 1964.

Aparentemente só o John Malkovich, ao confrontar os floreios mais pueris de Steve Carell com seu charme estoico, consegue fazer Space Force se aproximar daquilo que pretende ser.

Isso nos traz à primeira das várias partes mencionadas no parágrafo introdutório deste texto: a dinâmica entre Naird e Mallory ao longo de Space Force é facilmente o ponto alto dessa série, assim como o principal motivo de eu estar escrevendo sobre ela. Os dois personagens apresentam personalidades fortes que são elevadas pelas excelentes atuações de Carell e Malkovich, e os inúmeros conflitos oriundos do contraste entre o “patriotismo emocionado” de Naird e a “racionalidade insensível” de Mallory são algo bastante divertido de se ver.

Mas aí temos as outras partes.

Apesar de as interações entre Naird e Mallory serem integrais para a trama, é o personagem de Steve Carell que assume o posto incontestável de protagonista de Space Force. Em algum momento, os roteiristas resolveram que essa série também deveria conter uma exploração da vida pessoal de Naird e de como o General tem se esforçado para manter a família unida (e a própria cabeça no lugar) apesar das atuais circunstâncias. 

Ao longo da primeira temporada de seis episódios, é revelado que: Naird sofre com transtorno de estresse pós-traumático devido a experiências na Bósnia; sua esposa Maggie (Lisa Kudrow em uma atuação que não me distrairia tanto se a personagem simplesmente se chamasse “Phoebe Buffay”) foi presa por um crime bem sério que nunca é revelado, deixando-o encarregado de cuidar da filha adolescente Erin (Diana Silvers) por conta própria; e os esforços de Naird não são suficientes para conter o gradual distanciamento de Erin.

Preciso dizer quem é quem? Literalmente todo mundo já deve ter ouvido falar de F.R.I.E.N.D.S. em algum momento da vida.

Essas linhas de enredo tentam adicionar uma camada de drama familiar à série e, como vocês podem imaginei, eu não gostei muito de como isso foi implementado. 

Algo que gostei ainda menos foram os vários momentos em Space Force onde o enredo adota um tom mais sério, introduzindo drama militar e hard science fiction na equação. Eu geralmente adoro a combinação de drama militar com comédia satírica e uma história assim que incorpora elementos de hard science fiction, se bem executada, se tornaria um clássico instantaneamente. Infelizmente, nessa série em particular, não é o caso.

Embora essa justaposição tenha potencial para amadurecer em temporadas futuras, inclusive partindo de algumas ideias introduzidas nesses primeiros episódios, aqui ela simplesmente não funciona porque exige tempo e sutileza. Como já mencionei antes, a primeira temporada de Space Force possui apenas seis episódios, o que dá a Carell e Daniels pouquíssimo tempo para equilibrar seu humor extravagante (que é marca registrada de ambos, mas deveria ser suavizado se eles decidirem persistir nessa abordagem) com os temas mais sérios que eles pretendem tratar.

Acho que eu deveria falar sobre os outros personagens do elenco, que geralmente seguem suas próprias tramas secundárias paralelamente aos conflitos principais dos episódios, mas eu sinceramente achei eles tão esquecíveis que literalmente só me lembrei de escrever esse parágrafo quando eu já estava no meio da formatação.

Só não esqueci do Ben Schwartz (o Sonic do filme live-action) porque ele se comporta como um personagem de Looney Tunes e exemplifica o quão deslocado o humor dessa série é.

Resumindo, Space Force é…

Uma série mediana que (assim como a organização da vida real que dá o nome à mesma) ainda está tentando entender seu propósito, mas que (ao contrário de dita organização) é elevada pelas excepcionais atuações de Steve Carell e John Malkovich.

Apesar da experiência fragmentada e do fato de o humor não casar muito bem com a estrutura da série (muito menos com a excelente trilha sonora que merece acompanhar uma história melhor), acredito que ela merece uma chance pois tem potencial para se tornar algo realmente bom futuramente.

Também acredito que vários desses problemas sejam sintomáticos de uma tendência nociva entre as séries produzidas para streaming, onde os showrunners aparentemente acreditam que se deve “serializar para ser levado a sério”. É preocupante que Greg Daniels, criador de The Office (uma das melhores comédias já produzidas para a televisão, que segue uma estrutura episódica sem abrir mão de desenvolvimento dos personagens), tenha sido vítima disso.

Mas enfim, quem sabe nas próximas temporadas tais problemas sejam resolvidos e nossa geração tenha uma M*A*S*H para chamar de sua?

(Se você não conhece M*A*S*H, faça um favor para si mesmo e assista)

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