Por que não assistir a “Don’t F**k With Cats”, novo documentário criminal da Netflix

O que aqui seria uma crítica, veio a se tornar uma espécie de aviso.

É um fato que em nossa sociedade contemporânea, existe um certo fascínio por mentes criminosas e explorar isso na arte, principalmente os famosos serial killers. A partir desse ponto, há muitos tópicos a se discutir, como por exemplo até onde isso é saudável ou realmente necessário. E é em meio a essa discussão que chegamos à glamurização de serial killers, e é esse um dos pontos mais importantes a não se chegar.

A cultura americana com toda as suas grandiosas produções cinematográficas internacionais acabou criando esse tipo de fascínio em um público meramente curioso, o exemplo mais recente é o filme “Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal“, que retrata o famoso assassino como um galã estiloso com intelecto avançado, é claro, quem conhece o caso de Ted Bundy sabe que ele ser considerado um “galã” é parte importante de seu caso, e é de fato uma característica de serial killers do gênero serem manipuladores e sedutores, porém o problema está na abordagem, em como você conta essa história e expõe assuntos sensíveis para um grande número de pessoas de milhares de bolhas sociais diferntes.

A direção do longa que faz todo aquele processo doentio do personagem parecer estiloso e maneiro, é só mais um exemplo de como não tratar tais assuntos.

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À esquerda temos Zac Efron interpretando Ted Bundy em seu longa, à direita temos o próprio Bundy.

O que acontece aqui em Don’t F**k With Cats é quase o mesmo problema, porém de uma maneira mais descarada. Sim, eu não poderia usar o termo “irresponsável”, porque o que se dá a acreditar é que os produtores da série documental sabiam o que estavam fazendo, e mesmo assim, fizeram.

O documentário acompanha o caso de Luka Magnotta, um psicopata que divulgava vídeos macabros na internet assassinando gatinhos, dos quais causaram uma grande comoção online fazendo surgirem milhares de pessoas tentando descobrir quem era o criminoso e onde ele se localizava. O assassino ganhava fama e seu nome era cada vez mais conhecido após ele planejar e liberar informações seletas sobre seus crimes e sua identidade na internet, tudo para conseguir exatamente isso, fama.

Narcisista em extremo, ele publicava fotos falsas com seu rosto editado em outras pessoas na internet, criava páginas fakes de fãs, tudo para alavancar cada vez mais seu nome e “entreter-se” com seus perseguidores tentando o descobrir. O que aparentemente não o satisfez tanto assim, o levando a cometer um assassinato humano, também o gravando e disponibilizando na internet.

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Um dos entrevistados que fazia parte do grupo de internautas que tentavam descobrir o psicopata.

O que antes era apenas uma caçada virtual com milhares de internautas procurando um doente de um vídeo, se tornou um caso internacional de investigação atrás do homicida, que vivia como um andarilho viajando entre países e mudando de identidade. Sendo assim, ele se tornou alguém muito instigante para mídia, conseguindo cada vez mais e mais atenção, saindo da internet para os noticiários internacionais.

E depois que foi preso, o fator crucial para ser considerado culpado foi seu fascínio com filmes hollywoodianos. Suas mentiras e farsas foram desmascaradas como cópias de falas, personagens e comportamentos de filmes que o mesmo idolatrava. “Catch me if you can” e “Instinto Selvagem” foram fatores importantes para sua condenação.

Em resumo o que temos aqui é alguém com disturbios mentais narcisistas que foi altamente influenciado por certas obras que tratam de certos assuntos específicos, o levando a cometer atos brutais e acabar com a vida de pessoas inocentes, diretamente e indiretamente. E não me entenda mal, não estou dizendo que o erro seja em si dessas obras citadas, mas sim da mente deturpada que foi exposta a um tipo de conteúdo do qual não foi capaz de ser assimilado de forma madura.

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Psicopata Americano também é um dos filmes citados na investigação, mesmo sendo uma obra que retrata com inteligência o transtorno da psicopatia em uma pessoa.

E após toda essa história sobre narcisismo, alimentar a fama e visibilidade de psicopatas na mídia e perseguições, o que decidem fazer? Sim, um documentário. Apenas a idéia de fazer um documentário sobre o caso não é errônea, mesmo se tratando de um caso delicado onde poderiam derrapar e abordar de forma errada, e bem, é exatamente isso que acontece.

A espetacularização dos atos brutais do assassino é recorrente em todos os episódios da minissérie, enquanto a narrativa é traçada para nos instigar e nos fazer ficar cada vez mais curiosos, revelando acontecimentos como se fossem twists em um roteiro, com isso, elevando cada vez mais a aura de “gênio louco” que é vendida a todo momento ao assassino.

Dando os holofotes ao assassino, o documentário desanda de diversas maneiras, uma das mais inquietantes é com Jun Lin.

Lin era homossexual e se encontrou a noite com Magnotta através do site Craiglist para uma noite de sexo casual, e logo depois se tornou a primeira vítima humana de assassino. A minisséria exprime uma comoção muito grande com o ato de brutalidade à animais (sem falar que seu título já conta principalmente com esse tema), o que não teria problema se não ofuscasse o espaço que Lin merecia ter aqui.

O pouco tempo que entrevistam o melhor amigo de Lin, falam sobre sua família e sua vida é simplesmente absurdo, um tempo inteiramente jogado para espetacularizar o caso de Magnotta, dando mais holofotes ao assassino e deixando a vítima em segundo plano

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Dedico essa parte para dizer que espero que os devidos respeitos sejam dados à memória de Lin e a sua família.

Não posso deixar de citar que ainda tentam acusar o telespectador de ser cúmplice dessa espetacularização. Sim, isso acontece. Como se já não bastasse fazer os entrevistados assistirem aos vídeos cruéis e macabros que os atormentou por tanto tempo durante suas investigações, temos mais um absurdo para fechar com chave de ouro. Quando um dos entrevistados insinua tal coisa diretamente para câmera, por pura encenação exigida para o documentário, nos deixando no limbo da curiosidade e da dúvida.

Não há quase nada de correto no documentário, mas existe sim uma maneira correta de se assistir. Saber assimilar informações, os erros e acertos dentro da proposta de uma obra, dentro da relação dela com a realidade, é disso que você precisa para poder assistir a minissérie, mas de verdade, não há nenhum bom motivo para assisti-la, por isso não avisei sobre spoiler algum e poupei vocês contando tudo aqui no texto.

Don’t F**k With Cats é uma minissérie traiçoeira, não há mensagem passada aqui, não há sensibilidade, não há boa intenção, tudo é montado para contar a trajetória do assassino e sua perseguição da maneira mais espetacularizada que puderam, tirando o espaço de quem merece, e dando o espaço para quem não deve, bem como ele queria. E ainda sim, tentam botar uma culpa duvidosa em cima do telespectador.

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