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Legion — A próxima etapa evolutiva para as adaptações de super-heróis | Review da Série

Não é segredo algum que a década passada foi basicamente a era de ouro dos super-heróis no cinema e na televisão.

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Embora filmes e séries desse gênero tenham existido desde muito antes (e continuarão existindo muito tempo depois), o período entre 2010 e 2019 foi o auge dos justiceiros mascarados no zeitgeist da cultura pop: durante esse intervalo tivemos aproximadamente 200 obras audiovisuais, entre filmes e seriados televisivos, estrelando tanto personagens clássicos das HQs quanto criações originais que buscavam explorar as possibilidades quase infinitas que o gênero proporciona.

Com uma produção tão extensiva (e intensiva) assim, é natural que as obras lançadas quase mensalmente ao longo desse período tenham sofrido com qualidade variável e um desgaste que se tornava mais evidente à medida que os anos passavam. 

Até a Marvel Studios, cujo sucesso e influência são reconhecidos até por seus detratores, começou a sofrer com esse desgaste por volta de 2015 quando o público percebeu os contornos da fórmula básica por trás de todos os filmes na colossal     franquia multimídia Marvel Cinematic Universe.

Nessa mesma época também vimos a ascensão de um “movimento” que buscava ir contra à saturação dos super-heróis na mídia através da produção de conteúdo, seja original ou adaptado, que aborda o gênero sob perspectivas inusitadas. Essa breve “contracultura” rendeu grandes sucessos do cinema como a comédia romântica Deadpool e o faroeste pós-apocalíptico Logan, além de séries de TV aclamadas como Umbrella Academy e Doom Patrol.

E isso nos leva ao seriado que me motivou a escrever este review, que por acaso também é uma verdadeira aula a respeito do potencial intrínseco às histórias de super-heróis, que está sempre à espera de mãos criativas o suficiente para trazê-las à vida no meio audiovisual: Legion.

A fim de evitar qualquer confusão com o filme de mesmo nome (que, cá entre nós, é bem ruinzinho) e dar uma ideia quanto ao que se esperar da primeiríssima tentativa de trazer o mundo X-Men para as telinhas, eis aqui um trailer oficial para a primeira temporada:

Mas o que é Legion?

Legion é uma série de TV exibida entre 2017 e 2019 no canal fechado FX. Trata-se de uma produção colaborativa da emissora com a Marvel Television inspirada no personagem David Haller (também conhecido como Legião), que por sua vez foi criado pelos deuses Chris Claremont e Bill Sienkiewicz para a revista Os Novos Mutantes em meados da década de 80.

Embora Legião nunca tenha chegado à categoria A-Lister em meio ao gigantesco elenco da editora, o personagem sempre chamou atenção devido a vários motivos, dentre os quais dois se destacam: o simples fato de ele ser filho de Charles Xavier, o icônico líder dos X-Men; e a maneira como Claremont e Sienkiewicz combinavam as aventuras do herói a uma exploração visual e narrativa de sua saúde mental.

Essa combinação teoricamente se traduz em potencial ilimitado para os quadrinhos, tirando vantagem da abstração de tempo que geralmente ocorre durante a leitura, mas como aplicar esse potencial a uma série de TV? Como trazer uma história tão surreal e abstrata a uma mídia que dita o próprio ritmo?

É aí que entra o showrunner Noah Hawley (também responsável pela sensacional antologia de humor negro Fargo), que decidiu romper com a maior parte das técnicas mais tradicionais de storytelling serializado e abraçar a caótica psicodelia da premissa. 

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O protagonista David Haller (Dan Stevens) e sua irmã adotiva Amy (Katie Aselton) no primeiro episódio de Legion. O visual da série mistura elementos contemporâneos e uma estética típica dos anos 60, enfatizando o tom surrealista da trama.

Mas sobre o que é Legion?

A adaptação da FX estrela o ator britânico Dan Stevens (de Downton Abbey, The Guest e Apostle) como o “personagem-título” — que não recebe o título oficialmente em momento algum da série — David Haller, um rapaz esquizofrênico que está internado em uma ala psiquiátrica após uma tentativa malsucedida de suicídio.

Através de uma montagem no início do primeiro episódio que reconta diversos momentos da vida do protagonista, a série já deixa pistas de que a condição de Haller vai muito além de uma “simples” esquizofrenia. Durante o que parece ser apenas mais um dia maçante no sanatório, David conhece — e instantaneamente se apaixona por Sydney “Syd” Barrett (Rachel Keller), uma garota com uma aversão patológica a ser tocada.

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A maravilhosa Rachel Keller como Syd Barrett, uma personagem introduzida como um simples “par romântico” mas cujo desenvolvimento rapidamente toma rumos inesperados.

Após se conhecerem ao longo de várias sessões de terapia em grupo, o casal desenvolve um desajeitado romance que é abruptamente interrompido no momento que a trama decide engrenar.

Infelizmente não sou capaz de adequadamente resumir a trama de Legion em palavras, tendo em vista a profusão e frequência dos “truques” pouco ortodoxos de storytelling que Hawley emprega ao longo da série. 

O episódio piloto faz um bom trabalho de dar uma amostra bem precisa do que se pode esperar da narrativa de Legion — em outras palavras, ele te bombardeia com informações e elementos que muitas vezes não farão sentido até os momentos finais da série (isto é, se o fizerem em algum momento).

Se você for capaz de suportar essa breve sobrecarga sensorial (que é apenas a primeira entre muitas), garanto que sua experiência com Legion será bastante positiva. Com 27 episódios, a série segue uma estrutura narrativa híbrida — onde diversas tramas episódicas contribuem para avançar um conflito principal que perdura até o final da série. 

Essa abordagem híbrida permite que Hawley conte sua excêntrica história através de um caos cuidadosamente construído que transforma as idiossincrasias de cada personagem em elementos fundamentais do enredo.

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Essa é Lenny ‘Cornflakes’ Busker (Aubrey Plaza, de Parks and Recreation), apresentada como nada mais que uma amiga de David na ala psiquiátrica. Como é de praxe nessa série, a natureza e a extensão do envolvimento de Lenny no enredo são imprevisíveis.

Cada membro do elenco principal de Legion, seja mocinho ou vilão (ou as duas coisas), é antes de tudo uma pessoa profundamente danificada, com visões de mundo levemente distorcidas moldadas por experiências traumáticas. 

Ao combinar essa ênfase a um enredo fragmentado e não-linear, todos os personagens principais acabam se tornando também narradores não-confiáveis. Os eventos mostrados em cena nunca equivalem ao que realmente aconteceu, mas à forma como certo personagem enxergou tal acontecimento.

Muitas vezes, a influência exercida pelos personagens — tanto através de suas visões de mundo quanto seus atuais estados de espírito — sobre suas respectivas cenas faz a série transitar entre gêneros sem qualquer aviso prévio.

Para se ter uma ideia das coisas que podem acontecer aqui: um episódio se iniciar como uma paródia da comédia romântica Se Enlouquecer, Não se Apaixone; incluir um número de dança estilo “Bollywood” do nada para sinalizar um momento-chave da narrativa; e então logo em seguida um thriller de conspiração.

Esse caos em Legion, e rapidamente somos condicionados a esperar o inesperado.

A última, mas não menos importante, vantagem principal existente nesse estilo de narrativa escolhido por Noah Hawley é o fato de tais técnicas permitirem contar uma história intimista e pessoal ao passo que tal história é revestida por um clima épico e emocionante. 

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Mais alguns personagens que compõem o diverso (e deliciosamente bizarro) elenco de apoio em Legion. Prefiro não explicar essa imagem e deixar por sua conta.

Veja bem, essa série não tem interesse algum em construir um universo expandido ou se prolongar por tempo indeterminado. Desde o princípio, Legion faz questão de colocar em primeiro plano que sua prioridade é a jornada pessoal de David Haller, e que todos os demais elementos da série só estão lá a serviço dessa jornada.

Para dar a vocês uma ideia a respeito da coesão magistral que o showrunner foi capaz de criar, sem deixar escapar spoilers da história no processo, é interessante falar sobre o mecanismo narrativo da “Arma de Chekhov”: tipificado pelo dramaturgo russo Anton Chekhov através de cartas onde dizia que “ninguém deve colocar um rifle carregado no palco se ninguém estiver pensando em dispará-lo”, essa metáfora basicamente diz que nenhum elemento da história deve ser visto como descartável.

Aplicando o raciocínio de Chekhov a Legion, eu diria que a série gradualmente revela seu gigantesco arsenal à medida que efetua rápidos disparos com igual frequência para atiçar a curiosidade do espectador. Ainda nessa lógica, o clímax da terceira e última temporada é o equivalente a uma ensurdecedora saraivada de tiros onde todos os conflitos e mistérios se conectam e se resolvem.

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O britânico Dan Stevens tira proveito de sua experiência no Teatro e se perde no papel do perturbado herói David Haller, realizando sem dificuldade as rápidas alternâncias entre os momentos de serenidade e explosão emocional exigidas pelo papel.

OK, e o que eu achei de Legion?

Talvez tenha a ver com minha fraqueza diante de produções audiovisuais com uma premissa esquisita e execução ainda mais surreal, mas posso dizer com segurança que minha experiência assistindo Legion foi a mais consistentemente positiva que já tive com qualquer seriado baseado em HQs.

Muitas outras adaptações televisivas dos quadrinhos começam de forma promissora mas sofrem uma brusca queda de qualidade em algum momento de sua duração. Isso acontece por um ou mais dentre vários motivos que eu mencionei por alto alguns parágrafos atrás, que podem ser resumidos à tentativa de emular aspectos superficiais do storytelling das HQs sem, contudo, traduzir os elementos que tornam essa mídia tão atemporal.

Legion escapa desses problemas graças à decisão do showrunner Noah Hawley de dissecar os conceitos que moldaram o personagem de Chris Claremont e Bill Sienkiewicz, usando a exploração desses conceitos como ponto de partida para uma trama original que presta homenagem às obras que vieram antes, ao passo que — assim como as melhores obras assinadas pelo lendário Claremont — pode ser apreciada até por quem não tem muita familiaridade com o cânone.

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Algumas das explosões mencionadas na legenda da foto anterior são bem literais.

É uma história que mostra o universo dos mutantes sob uma perspectiva íntima, apresentando um protagonista cuja mente é ao mesmo tempo sua arma e seu pior inimigo, e realmente explorando as implicações desse cenário. 

A aventura vivida por David Haller e seus companheiros, por mais bombástica e psicodélica que seja, ganha um inesperado ar de realismo graças à ênfase dada a explorar a psique de cada personagem, assim como a jornada emocional à qual cada um deles se submete.

Por fim o estilo de narração simultaneamente episódico e serializado, que usa floreios literários — à la Neil Gaiman e o próprio Chris Claremont como o tecido conectivo entre as histórias independentes de cada episódio e o arco dramático que permeia toda a série, Legion consegue conquistar seu lugar de destaque em meio às suas contrapartes nesse gênero extremamente saturado.

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Os character actors veteranos Jemaine Clement e Bill Irwin são agradáveis surpresas em Legion, vivendo respectivamente o sábio Oliver Bird e o divertido Cary Loudermilk.

Todas as três temporadas de Legion estão disponíveis na Netflix, e devo adiantar que a série não é para qualquer um. Mas então, para quem fica a recomendação? Se você estiver aberto a investir seu tempo em uma história contada de maneira atípica e tiver paciência suficiente para desvendar o enredo junto dos personagens, você irá se deparar com o que honestamente considero uma das melhores e mais inovadoras séries de televisão já feitas.

Legion é uma história de escopo relativamente pequeno que acaba sendo engrandecida por sua execução magistral, com reviravoltas que ficarão na sua cabeça mesmo muito depois dos créditos de encerramento do episódio final terminarem de rolar. E então, como sempre acontece com as melhores histórias, você irá querer vivenciar tudo de novo.

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