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Histórias Sórdidas: Branco sem fim

| Tiago Amorim |
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Olhos se abrem e veem apenas branco. Ao redor apenas um mar alvo infinito, o chão como neve e o céu e paredes impossíveis de serem vistas. Os olhos voltam para o próprio corpo que os possui e se reconhece: um homem, de meia idade, aparência ordinária, negros e curtos cabelos que se prendem sobre um rosto sério e preocupado. Os olhos se direcionam imediatamente para seu corpo e a primeira coisa que observam são as mãos cobertas de sangue.

Gotejam ao chão rubis escarlates, maculando a pureza do branco. O homem ajoelha-se, incerto de tudo. Onde estaria? Teria ele morrido? Isso era alguma espécie de castigo ou purgatório? Ou estaria apenas sonhando? A única certeza que ele possuía era a de sua memória. Como relâmpagos no céu chuvoso vinham suas lembranças: uma chave tilintando no bolso da calça; a chave que se encaixa na fechadura; uma sala escura com os móveis luxuosos limpos e meticulosamente organizados; os sons de gemidos vindos de um cômodo; passos apertados e a raiva tomando conta; um corredor que se tornava mais longo que o comum a medida que os gemidos femininos de deleite se aproximavam; uma porta que se abre em um estrondo; dois amantes na escuridão; o anel dourado sobre o bidê; a mudança súbita de prazer para susto e desespero; um disparo; dois.

Nesse ponto o homem já estava com as duas mãos ensanguentadas apertando seu crânio, seu cérebro doía como o inferno, sujando seu cabelo e rosto com o sangue de outras pessoas. As lágrimas vertiam ininterruptas sobre suas maçãs do rosto e convergiam no fino queixo. Os olhos arregalavam-se e tremiam.

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– O que foi que eu fiz? Eu perdi a cabeça! Não pode ser, não! – Dizia o homem em desespero, a voz em altos e baixos, vibrando.

Ao longe uma mancha negra destacava-se no mar alvo. Parecia uma sombra flutuando, se aproximando vagarosamente enquanto o homem se martirizava. A medida que chegava mais perto, era mais visível: era uma figura humanoide, vestindo um manto negro com rasgos na parte inferior e um capuz tão grande no topo que caía sobre quase todo o vão para o rosto. Daquele corpo flutuante, sem pernas ou parte visível de corpo, emanava uma aura da mesma cor do manto, eram como labaredas da mais escura sombra, dançando ao seu redor aleatoriamente como as sombras disformes projetadas de uma fogueira na noite. Um rastro de cinzas e fumaça era deixado para trás conforme a figura voava para perto do homem.

Quando aquilo estava há poucos metros do homem, ele finalmente notou sua presença negra. A cabeça lambuzada de sangue vagarosamente inclinou-se para cima enquanto as mãos repousavam no chão.

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– Quem é você? – A pergunta mais óbvia que qualquer ser faria em uma situação dessas.

A figura para, flutuando a cinquenta centímetros do chão, com as vestes balançando, as labaredas obscuras se enrolando em seu corpo e as cinzas caindo como neve no chão. Após alguns segundos, de dentro do capuz se projeta uma voz, ou melhor, mil vozes distorcidas e graves que ecoavam no turbilhão infinito do local.

– Não possuo nome, sequer identidade. A vontade imbecil humana de dar nome às coisas concedeu-me o apelido de “morte” entre vocês – Fumaça vazava do capuz, acompanhando as palavras proferidas pelas mil vozes.

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O homem, assustado, exclama – Então é chegada a hora? É realmente minha morte?

-Não – Responde breve a morte.

– Não? – Sua expressão facial denota o desentendimento.

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– Pelo menos, ainda não. Este local é meu lar, é uma passagem entre a vida e a morte, e cabe a mim conceder aos mortais o acesso ao que vocês gostam de chamar de “paraíso” ou “outro lado”.

O homem parecia um pouco abalado, porém não muito surpreso. Ficou alguns instantes encarando o chão, fitando o movimento aleatório das cinzas caindo do manto da morte.

– Então eu realmente morri… – Falava baixo, quase que para si – Mas, por que eu não consigo me lembrar de ter morrido?

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– Você cometeu suicídio.

– Entendo… E o que eu preciso fazer para passar para o outro lado?

– Você deve realizar-se das mentiras da sua vida e aceitar a realidade que vivenciou antes de cruzar daqui para lá.

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– Mas… Mas… – Gaguejava – Que mentiras? Eu não sei! Eu não entendo! Me explique! – Agora sim o homem beirava o desespero.

– Se você veio parar aqui, mortal, foi devido a sua vida terrena não ser nada além de uma mentira. Cabe apenas a você saber disso. Pense nos momentos antes de sua morte.

– Eu matei minha esposa… Ela estava me traindo com outro homem… – O homem disse isso sem pestanejar, em uma mistura de desconforto e ira. – Como ela pôde fazer isso comigo? Vinte anos de casamento… Vinte anos de amor!

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A morte o interrompeu – Amor?

– Sim, como alguém que ama é capaz de trair? Vinte anos de declarações, eventos, festas, viagens e momentos… Isso não é amor? Não é algo criado pela imaginação, é algo que eu vivi, é algo que eu senti, é algo indescritível que bate em meu coração. Se tenho certeza de algo na vida, é que amei. – Dizia com paixão, o punho cerrado, o cenho franzido e os dentes à mostra enquanto falava.

A morte escuta pacientemente o que o homem diz até o fim e, após alguns segundos, diz:

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– Tudo que ouço é “eu” e “meu”.

Assim que essas palavras são ditas, o homem se cala e paralisa. Um milhão de imagens de sua vida transcorrem o pensamento. Tenta balbuciar algumas palavras:

– En… Então… Eu… Minha vida… Essa era a mentira? – Uma lágrima cai ao chão.

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O homem encara a morte e sente seu corpo começar a ficar mais leve. Seus pés começam a evaporar e transformarem-se em fumaça. A fumaça da voltas no céu e converge para o corpo negro, misturando-se às labaredas, às cinzas e ao manto. Vagarosamente as pernas, as coxas, o tronco e os braços vão imitando esse processo e incorporando-se à morte.

Resta sua cabeça triste flutuando na brancura.

Os olhos se fecham.

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Devagar o rosto some até sobrar apenas um olho.

Uma lágrima cai ao chão.

E agora só o branco resta.

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Juninho Knoll

Post Scriptum: Para quem acompanha minhas séries, só uma notícia que talvez entristeça ou alegre… Vou parar com as Histórias Sórdidas por enquanto, irei postar somente os Contos do Paladino Sangrento. O motivo é que estou com um bloqueio criativo para as Histórias Sórdidas, enquanto minha cabeça está lotada com ideias do Paladino amaldiçoado (spoiler?). As postagens continuarão sendo aos fins de semana (preferencialmente domingo) e semanalmente. Valeu =)

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