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Família em Kimetsu no Yaiba: o Brasil e o melhor anime de 2019

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Ontem, no dia 15 de fevereiro de 2020, foram divulgados os vencedores nas diversas categorias votadas pelos fãs no Crunchyroll Anime Awards 2019. Ver Kimetsu no Yaiba: Demon Slayer receber o prêmio maior da noite, o de anime do ano, não foi nenhuma surpresa; porém, logo antes da divulgação do resultado mais aguardado, foram mostradas as estatísticas da votação em alguns países específicos – e o Brasil, peculiarmente, mostrou-se dominado pela febre de Kimetsu no Yaiba. 

Não é preciso realizar nenhuma análise profunda para compreender o porquê da obra ter quebrado recordes no mundo todo, sobrepujando inclusive o épico One Piece, que dominou os rankings japoneses invicto por mais de uma década. O enredo familiar aos amantes do gênero, os personagens extremamente cativantes, o brilhante trabalho de adaptação realizado pelo estúdio UFOTABLE, a maravilhosa construção de mundo. Foi o suficiente para capturar os corações de fãs em todos os continentes. O filme Kimetsu no Yaiba: Mugen Train, previsto para este ano, já é um dos eventos mais aguardados de 2020

No entanto, acredito que existam motivos para explicar o motivo do Brasil ter se conectado tão profundamente com a história dos irmãos Tanjiro e Nezuko, ao ponto de isso se refletir em dados concretos e observados mundialmente. 

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O primeiro contato que os brasileiros tiveram com o mundo dos animes realizou-se através do gênero shounen – particularmente com obras como Dragon Ball Z, Naruto e Cavaleiros do Zodíaco. Somos uma cultura intensa por natureza, e somos atraídos pela própria essência do shounen: as lutas, o esforço, o inevitável, inescapável e imprescindível poder da amizade. 

Existe no brasileiro uma tendência inerente de estabelecer conexões humanas, de valorizar o íntimo, de amar o que é nosso e absorver o que é do outro. Somos uma das poucas culturas que possuem ainda o hábito do almoço de família, de domingo, na casa da vó, com a tia perguntando das namoradinhas e o arroz com feijão (ao ponto de “shounen arroz com feijão” ser uma expressão utilizada para se referir a obras do gênero que são clássicas, simples e gostosas de assistir e ler). Existe no brasileiro uma intensa noção de família

Mas não apenas da família de sangue. Diz o conhecido ditado: blood is thicker than water (o sangue é mais forte que a água) – mas o ditado completo diz: the blood of the covenant is thicker than the water of the womb. O sangue do juramento é mais forte que a água do útero. Tanto quanto a família de sangue, e, frequentemente, até mais do que ela, valorizamos os amigos. A amizade. Aqueles que conhecemos e que vêm a significar tanto para nós. 

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A obra Kimetsu no Yaiba começa com uma família. Não apenas qualquer família – mãe, irmãos, e Tanjiro como o centro, como aquele que os protege, que cuida deles e se esforça para mantê-los felizes e a salvo. Existe uma candura e um cuidado na essência de Kamado Tanjiro (dublado inclusive por Hanae Natsuki, o que é um detalhe peculiar, por este ser um seiyuu conhecido por atuar em personagens doces), algo mais gentil e carinhoso do que costumamos ver em protagonistas de animes e mangás shounen

Antes de ser forte, antes de desejar desenvolver suas habilidades, antes de qualquer outra motivação, ele deseja proteger. Ele é um irmão mais velho, até o fundo de sua alma; e com isso, os brasileiros se identificam, talvez até mais do que os próprios japoneses. Todos nós já tivemos uma figura assim, seja de sangue ou não; todos nós tivemos que proteger alguém, tivemos alguém que cuidasse de nós. 

Tanjiro não embarca em sua jornada com sonhos de vitória ou de conquista – não há nele vontade de ser o futuro Hokage da Vila da Folha, ele não pensa em ser o Rei dos Piratas. Não que Naruto ou Luffy estejam errados em suas motivações, mas existe algo muito mais próximo ao coração dos brasileiros do que desejos de glória: o desejo de proteger aqueles que são importantes para nós. 

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Tanjiro só se junta aos Demon Slayers por querer cuidar de sua irmã mais nova, a única pessoa que restou de sua família. À medida que segue em seu épico arco, ele conhece mais pessoas, faz amigos, e encontra personagens que também irão tocar seu coração.

Personagens que passam a ser importantes para ele, que o protegem e sacrificam-se pelo seu bem, que o abrigam e confiam nele. 

Existe um momento extremamente peculiar no anime de Kimetsu no Yaiba que me marcou intensamente quando assisti. Na cena em que Tanjiro conhece os Pilares, o grupo dos guerreiros mais fortes, algo narrativamente similar à cúpula da Soul Society de Bleach, não temos uma apresentação destes de maneira grandiosa, em uma batalha, ou em uma guerra. Somos apresentados a eles em um local agradável, como uma casa, como se fossem uma família, que discute e discorda e cuida.

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Mesmo as reações negativas iniciais de Shinazugawa Sanemi e Iguro Obanai e de alguns outros pilares à situação em que Tanjiro e Nezuko se encontram nada mais são do que reflexos de proteção – eles se importam com aqueles à sua volta, e por isso temem que algo de ruim aconteça. 

Oyakata é apresentado como uma figura essencialmente paterna – a maneira como ele se dirige aos Pilares não é como de um líder para com seus subordinados, mas como de um pai para com seus filhos. Ele os chama de minhas queridas crianças, refere-se a eles por seus primeiros nomes (algo extremamente significativo para conhecedores da cultura japonesa, que sabem o nível de intimidade necessário entre duas pessoas para que elas se refiram uma à outra pelo primeiro nome). 

Tanjiro é acolhido na casa de Shinobu Kocho como uma visita, e existe também aí algo muito brasileiro – o do convidado, da visita, da necessidade inerente que possuímos de tratar bem aqueles que vêm à nossa casa. 

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De maneira fascinante, os antagonistas e vilões de nossos heróis representam a deturpação desta ideia. Tanjiro vê-se absolutamente paralisado quando é confrontado com o fato de que Kibutsuji Muzan tem uma família, uma distorção daquilo que tanto significa para nosso protagonista, por ser meramente uma fronte, uma máscara para que o pai dos demônios consiga se misturar na sociedade. 

Existe algo doentio em Muzan, em como ele facilmente se desfaz de todas as Luas Inferiores, após decidir que estas são inúteis e ineficientes em suas missões – algo diametralmente oposto aos Pilares e a como Oyakata cuida deles e os trata como filhos. 

Em paralelo, temos a luta contra Rui, no episódio mais memorável de todo o anime; e como toda a história nos marca, por mostrar essencialmente um garoto traumatizado e perturbado que buscou, de maneira forçada e violenta, encontrar a família que havia perdido. 

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E sempre, de novo e de novo, Tanjiro, Nezuko e seus amigos vencem por serem unidos, por se importarem uns com os outros, por possuírem carinho o suficiente em seus corações para subjugar o medo e as provações. 

O que observa-se em Kimetsu no Yaiba não é a jornada de um herói para conquistar o mundo; mas sim de um garoto que perde sua família, e agarra-se com todas às forças ao que lhe resta, e conquista pessoas importantes para ele ao longo de sua trajetória. Similarmente temos isso em Naruto, em One Piece – mas em Kimetsu, este é um foco principal, realizado de maneira maravilhosa e bem-executada. Os personagens não são apenas personagens; eles são irmãos, amigos, família, órfãos, amigos, amantes de alguém.

São as conexões entre as pessoas que fazem com que a obra nos atinja tão intensamente.

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É a noção de família – algo que os brasileiros (e Kamado Tanjiro) conhecem muito bem. 

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Rachel Pinheiro

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