Contos do Paladino Sangrento #03 – Parte 02

| Tiago Amorim |

Assim que ouvi ecoar na voz do homem a palavra “paladino” eu tremi. Não temeroso, porém em ira. Cada tendão de meu corpo tensionou-se, todos impulsionados por músculos repletos de raiva. Minhas mãos mantiveram-se cerradas, as unhas dilacerando pele, rasgando a epiderme. Uma inspiração longa: traguei o ar vagarosamente, buscando uma calmaria que não chegou mental mas corporalmente. Virei nos calcanhares e observei seu rosto brutal, com um sorriso amarelo em meu rosto.

– É um prazer e um desgosto ao mesmo tempo ouvir de sua boca imundo meu tão merecido título, pagão – E continuei irônico.

O sujeito não se moveu do seu assento. Agora, do meu ponto de vista, ele parecia inferior: seus dois metros de altura se reduziam quase à metade e minha presença sobrepunha–se a dele. A inexpressividade em seu olhar mostrava a indiferença com minha tentativa de insulto. Sem dirigir-me o olhar, ele continuou raspando sua tigela do grude que o serviram enquanto proferia com a grossa e impetuosa voz:

– Eu poderia dizer alguns insultos a você também, meu caro, mas não sou do seu tipo. – Agora ele finalmente largou ao chão seus restos e virou o rosto para mim, respondendo meu falso sorriso com uma seriedade sincera, em raiva contida. – Você acredita mesmo que ninguém iria te reconhecer aqui? Meio a assassinos: um justiceiro, anti-herói, bastardo, infanticida. Oh, perdão – O sujeito ergueu as sobrancelhas – Eu havia dito que não o insultaria, não? Perdão, acabei perdendo a linha…

Tentei manter a calma, tentei manter a superioridade e não me aparentar ofendido com as mentiras que vazavam da boca do herege e ignorei sua última frase, rebatendo-o com outra pergunta.

–  Por acaso conhece-me, nobre herege?

O homem deu um riso – Ha! – E levantou-se da cadeira, agora ele estava ganhando a luta verbal e psicológica com sua presença aterradora, fazendo sombra sobre meu corpo. Encarando-me de cima, ele disse:

– Por acaso conheço-lhe, de fato, nobre assassino. Um homem que carrega as palavras dos falsos deuses como desculpa para cometer os mais hediondos crimes. Os padres que assassinou naquela noite de inverno em Burgh? Nenhum sobrevivente não é? Nenhum mesmo? Você lembrou-se de checar todos os cantos do mosteiro? Não sabia que um pequeno garoto observava tudo de dentro do confessionário? – Seu rosto e corpo iam vagarosamente se aproximando de mim, aumentando a intimidação – Quatorze anos, Paladino… Quatorze anos estive esperando para botar as mãos em você. Acredito que Deus nos colocou nessa prisão por um motivo, por um destino. – Agora o sorriso maníaco estava estampado em sua face, olhos arregalados e supercílios corrugados – Finalmente posso mostrar a Deus que sou…

Sua última frase foi interrompida por mim. O homem estava distraído demais com seu discurso mirabolante sobre vingança e detalhes que nem mesmo eu sou capaz de lembrar… Aproveitei e dei-lhe um murro entre os lábios, sem ele mesmo perceber. Meu braço direito cortou um ar com velocidade muito maior que a de costume, afinal eu estava vestindo as roupas de couro velho da prisão, sem minha armadura. Porém, a falta de manopla também me trouxe um viés: esqueci-me de maneirar a força e acabei deslocando duas falanges do lugar, o que custou uma dor brutal logo que o calor do momento passou.

O pescoço do grande homem entortou-se para trás alguns centímetros e logo voltou-se para mim. A boca coberta de sangue, com um dente canino faltando, mas ele parecia não se importar. Suas cicatrizes ficavam mais dilatadas a medida que a raiva tomava conta de sua face, dando volume aos vasos sanguíneos superficiais. Ele agora não conseguia mais esconder sua empolgação e emoção ao ver de perto a sua vingança. Alterando com cuspidas de sangue no chão, ele falava:

-Ha! Um belo golpe de um homem traiçoeiro como você, Paladino! – Assim que falou, seus braços foram em direção ao meu colarinho com brutalidade. Tentei abaixar-me, porém seus músculos e altura lhe conferiam muito mais explosão do que minha agilidade. Agarrou e ergueu-me do chão cerca de trinta centímetros. Tentei digladiar com seus flexores do carpo mas era inútil. Então, enquanto me levantava ele caminhava em direção a parede, dizendo em voz alta, chamando a atenção dos homens animalescos pelo chão devorando migalhas – Mas você jamais irá vencer sem sua montante especial, sem sua armadura mágica, sem seu elmo abençoado! Você não passa de uma mentira, Paladino! Você não serve a nenhum deus verdadeiro! Você é uma aberração! Um demônio em terra! Morra, Paladino!

Ele empurrou-me ferozmente contra a parede. Crânio, escápula, costelas, vértebras e pelve chocando-se contra a pedra dura irregular. Minhas costas estavam esmigalhadas e eu conseguia sentir a agudez tomando conta do meu dorso. Meus braços respondiam fracamente enquanto o brutamontes deixava-me cair ao chão. Tentei dizer algo mas uma golfada de sangue tomou conta de minha faringe e vomitei vermelho, meio a tossidas afogadas.

– Mas não vou matá-lo assim, de uma vez só, seu cretino. Vou deixá-lo sofrer aos poucos – Falou após se agachar próximo ao meu ouvindo, quase sussurrando. Então ergueu-se novamente, apoiou o peso de seu corpo na perna esquerda e flexionou toda a perna direita seguido de uma hiperextensão: um chute que me prensou contra a parede. Eu senti pelo menos três costelas quebrando.

Senti também minha visão sumindo.

Minha respiração caindo.

Poderia ser meu fim…

Juninho Knoll

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