| Tiago Amorim |

Contos do Paladino Sangrento #03 – Parte 01

Seca a fonte. A última gota insalubre do poço imundo que chamavam ironicamente de fonte limpa escorre pela minha garganta seca, e o rastro filiforme deixado por ela ficaria por muitas horas ambígua: a satisfação mínima em contraste com a vontade de cada músculo liso repleto de secura permeando a trilha do prazer desértico.

Estava preso, enjaulado, jogado à lama junto dos criminosos, bandidos assassinos e ladrões, dividindo a latrina com retrocessos da sociedade, sentando meu rabo no mesmo lugar em que ratos do submundo resfolegam suas sujeiras. Um servidor dos deuses preso, pagando pelo que não fez.

A hora da comida é chegada. Os guardas os tratam como animais que são, despejando rasgos de pão, pedaços de carne, grãos de arroz ao chão de lama. como porcos, alguns esfregam-se à sujeira, grunhindo e roncando enquanto colocam pedaços inteiros goela abaixo, sem mesmo mastigar. Outros rosnam, gritam a brigam, ferindo-se como hienas digladiando por restos de uma carniça.

Um detento caminha altivo entre as bestas imundas, com passos calmos e presença aterradora. Vestia apenas calças de couro batido, repletas de marcas de gordura e rasgos, deixando à mostra seu corpo extremamente musculoso, com cicatrizes monstruosas que denotavam guerra – desenhos feitos por lâminas de espadas sobre a pele braquial, traçando profundo aos músculos por todo seu tórax e abdome. Seu rosto, porém, era limpo de qualquer marca, mas mesmo assim brutal. O cabelo era ausente e as linhas de expressão eram tão fundas que pareciam criar penumbra. Ele carregava duas tigelas, uma em cada mão, e caminhava em minha direção.

– Tome – E estendeu a mão esquerda em frente ao meu rosto, me oferecendo a tigela de uma espécie de sopa grossa amarelada que fedia a galinha velha e ovo podre.

Fitei-o por alguns segundos, me perguntando se era confiável, e mesmo sem chegar a nenhuma conclusão, segurei a tigela.

– A que devo a gentileza? – Perguntei a ele enquanto observava-o sentar a alguns metros de mim em uma cadeira solitária. O sujeito parecia não muito ligar para mim e deu uma colherada no ensopado, mastigando no máximo duas vezes e engolindo a seco. Eu conseguia ouvir o som da musculatura empurrando a comida com brutalidade para o esôfago, e finalmente me respondeu.

– Você é novo, não parece ser como eles. Como se chama?

Respondi com um nome qualquer que jamais irei recordar, algo com “j”, talvez Jason ou James. O certo é que eu nunca contaria meu nome para uma pessoa que eu acabara de conhecer, principalmente alguém como ele.

– O que fez para estar aqui? – Ele continuava comendo rapidamente a sua comida, e eu mal havia olhado para a minha.

– Matei – Pensei que uma resposta curta e grossa serviria para suprir sua curiosidade.

– Bom, todos nós cometemos alguns pecados às vezes, e estamos aqui para pagar por eles, graças ao nosso Deus piedoso – Ele também não havia mais virado os olhos para longe da comida.

– Não quero parecer desrespeitoso, mas seu Deus piedoso – Essa última palavra fiz questão de entoar exageradamente irônico – jamais irá olhar por nós, assassinos – Enfiei a colher no ensopado e mexi, sem coragem para colocar aquilo sequer perto de minhas narinas.

Nesse momento o homem realmente olhou-me com seriedade – Você deveria ter cuidado com as palavras que escolhe aqui dentro, amigo, pois você pode estar falando com alguém que guarda algum desafeto por pessoas incrédulas – A colher ficou apoiada em sua mão, apontada em minha direção, e algum pedaço de carne de galinha caiu no chão, atraindo olhares dos outros presos imundos.

– Com licença – Eu disse, jogando minha tigela cheia aos pés do primeiro criminoso que vi, fazendo-o gritar em júbilo, exageradamente feliz pela comida nojenta que serviam. Levantei-me e andei em direção à minha cela. Assim que passei ao lado do brutamontes, ouvi-o dizer uma última coisa.

– Nos vemos mais tarde, Paladino.

Juninho Knoll

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Capítulo 01

Capítulo 02

Post Scriptum: Yo! Finalmente voltei a escrever, estive envolvido em algumas coisas por aqui e não consegui postar, mas relaxa que agora voltei e farei textos com mais frequência. Como tenho pouco tempo, os textos serão mais rápidos, como esse. Espero que gostem (se não gostarem eu volto a escrever no formato anterior). Abraços!

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