Carnival Row | Review

Na última sexta-feira (30 de agosto), dois grandes serviços de streaming rivais (Netflix e Amazon) resolveram lançar simultaneamente duas séries de fantasia que abordam temas de crises institucionais e sociedades em colapso. No meio desse conflito, o pobre Márcio se comprometeu a abdicar a própria vida social para assistir ambas as séries freneticamente e escrever sobre elas assim que terminasse.

No meu review de O Cristal Encantado: Era da Resistência, confirmei que a aposta da Netflix nessa disputa, uma prequel para o filme clássico do Jim Henson, ficou simplesmente sensacional. Do outro lado, a Amazon resolveu investir em uma ideia totalmente original concebida por Travis Beacham (Pacific Rim) e René Echevarria (Star Trek: Deep Space Nine), e os resultados foram… bom, isso vai ser um pouco mais complicado.

Carnival Row é ambientada em um mundo onde seres humanos e fadas coexistem, cuja construção claramente buscou inspiração na peça “Sonho de uma Noite de Verão” de William Shakespeare e eu não me surpreenderia se os produtores em algum momento admitissem que foram influenciados pela saudosa Penny Dreadful (até hoje não superei o final horroroso mas ainda tenho boas lembranças daquela série).

No início do primeiro episódio, o palco é estabelecido: a nação das fadas está sendo vítima de constantes ataques por parte de uma facção inimiga, então há um constante fluxo de refugiados rumo ao Burgo, uma nação humana semelhante à Inglaterra do Século XIX. No Burgo, as fadas imigrantes sofrem com preconceito e intolerância por parte dos humanos, e a tensão entre as duas espécies vai crescendo à medida que uma série de assassinatos não-resolvidos vem à tona.

Carnival row | review

No centro da série estão os personagens Rycroft “Philo” Philostrate (Orlando Bloom), um detetive do Burgo encarregado de investigar esses assassinatos, e Vignette Stonemoss (Cara Delevigne), uma fada recém-chegada à cidade e um antigo interesse amoroso de Rycroft. Em consonância com a influência shakespeariana, o eixo emocional da série, em meio às questões políticas e mistérios sobrenaturais, é a história do amor proibido entre os dois personagens.

E isso me leva direto ao grande defeito dessa série: as perspectivas de Philo e Vignette, assim como a conexão entre os dois, normalmente seriam mais do que suficiente para sustentar todo o enredo, porém neste caso são sufocados por uma miríade de tramas que nem sempre se conectam de forma coesa.

O defeito supracitado, assim como todos os outros que acometem Carnival Row, é uma questão de ambição. Não se pode negar que Travis Beacham e René Echevarria são ambos mestres na construção de universos densos e verossímeis, e a distopia vitoriana do Burgo é um perfeito exemplo disso, com sua mitologia meticulosa e suas alegorias para questões geopolíticas contemporâneas. No entanto, a vontade obstinada de explorar tantas facetas diferentes deste mundo e comunicar o maior número possível de mensagens diferentes acaba danificando gravemente a história que eles pretendiam contar inicialmente. 

Os conflitos protagonizados por Philo e Vignette precisam dividir tempo, ao longo dos 8 episódios dessa temporada, com a rivalidade política entre duas famílias poderosas no parlamento da cidade e uma narrativa envolvendo um fauno que busca ingressar na alta sociedade, entre outras tramas menores. Não que essas histórias auxiliares sejam ruins, mas foi uma péssima decisão (por parte da amazon ou dos produtores) deixar todas espremidas dessa forma, sem espaço suficiente para se desenvolverem de forma orgânica.

Mesmo com essa confusão, Carnival Row merece crédito pelo fato de que o desenrolar de cada trama é surpreendentemente conciso e confia na inteligência do espectador para acompanhar cada nova revelação. Embora as transições entre as perspectivas tenham me incomodado bastante, não houve momento algum em que eu ficasse perdido quanto aos personagens ou suas motivações (com exceção de umas partes no final onde eu pensei estar assistindo a uma novela mexicana).

Com exceção de alguns momentos específicos (e um episódio que foi inteiramente dedicado a um flashback), a sensação no geral foi de que eu estivesse assistindo vários filmes distintos e alternando entre eles em pontos aleatórios. Sorte a minha que eram todos bons filmes, então não foi uma experiência tão cansativa quanto a descrição fez parecer.

No fim das contas, essa é uma série que eu tenho vontade de assistir novamente, mesmo tendo duras críticas ao seu desenvolvimento. A meticulosidade do storytelling visual e a qualidade lírica dos diálogos entre os personagens, que são todos peculiares à sua maneira, escondem detalhes interessantes quanto à backstory desse universo concebido por Beacham e Echevarria, assim como pistas para o futuro promissor de Carnival Row.

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