• Início
  • Cinema
  • Bohemian Rhapsody relembra um ícone, mas não se aprofunda | Review

Bohemian Rhapsody relembra um ícone, mas não se aprofunda | Review

| Nathália Gonçalves | ,

O Queen é uma das bandas mais icônicas da história, independente de se você entende de rock ou é interessado por música, você certamente conhece suas músicas. E mais ainda do que a banda, seu vocalista, Freddie Mercury, é uma figura que ficou imortalizada como um ícone não só da música como também da cultura pop. Bohemian Rhapsody preenche uma necessidade óbvia de uma cinebiografia para a banda e para Mercury, criando um panorama de onde eles vieram e para onde eles foram, claramente direcionada a uma geração que não pôde ser testemunha, mas com ainda alguma validade para os fãs que desejam relembrar.

O filme parece muito ciente de quais são seus trunfos ou sequer os motivos por que ele teve a chance de ser feito: a música e Freddie. Construir o filme estruturalmente como um musical e ter Freddie Mercury como protagonista são decisões sábias e, naturalmente, esses são os elementos que o sustentam. A música do Queen é absolutamente incrível e nos divertimos cantando junto, Freddie Mercury é um personagem complexo e interessantíssimo e Rami Malek sabe exatamente o que está fazendo.

A verdade é que a performance de Rami Malek é o que o filme tem para oferecer de mais notável. Ele não se preocupa em imitar Mercury, mas sua energia está visivelmente lá. Quando ele está no palco, os trejeitos e a linguagem corporal tão conhecidos por fãs são meticulosamente emulados. Já em momentos mais íntimos, ao lado de quem o personagem conhece e confia, Malek constrói um complexo e profundo retrato, que muitas vezes é mais competente do que o roteiro em dizer algo sobre o que fazia de Freddie especial e o que fazia dele complicado. O sotaque articulado e sofisticado mas com um quê de indiano, de imigrante, por trás. A postura sempre perfeita e a personalidade cheia do que falar, contraposta por trejeitos que tentam esconder um rosto que o incomoda. A forma como ele olha pros pais e o quanto significa quando ele toma decisões sem lhes dirigir o olhar. É um trabalho primoroso e se alguém nessa obra entende Mercury, esse alguém é Rami Malek. No fim das contas é triste ver essa performance dentro desse filme, porque se ela estivesse cercada de um roteiro ou uma direção mais inspirada, provavelmente estaria sendo falada no contexto de indicações ao Oscar e outras premiações.

Em um momento que eu considero emblemático dos maiores problemas do filme, um produtor musical interpretado por Mike Meyers critica Bohemian Rhapsody e questiona sua letra, ele pergunta quem é “ismillah”, ao que Freddie o corrige, dizendo que é “bismillah”, mas sem explicar o que é isso também. O filme tem diversos momentos assim, em que elementos que se aprofundados poderiam ter muito a dizer são jogados tão rapidamente que podem passar despercebidos pelo público. A bagagem cultural de Mercury e a fé de seus pais citados como fatos curiosos, que nunca de fato influenciam sua construção de personagem. Sua construção como alguém claramente excepcional, mas sem nunca explorar todos os elementos que proporcionaram seus talentos. “Bismillah” é a primeira palavra do alcorão, o livro sagrado muçulmano, e significa “em nome de Alá”. Mas o mundo conhece Mercury como um ícone britânico, do rock n’ roll branco e ateu, então ainda que os elementos estejam lá, o filme não se preocupa em desconstruir essa imagem para revelar toda a complexidade que de fato constituiu o Farrokh Bulsara por trás de Freddie Mercury.

Para não dizer que Rami Malek é o único elemento excepcional do filme, eu preciso elogiar sua interessante fotografia. Há muito de interessante nos ângulos de câmera escolhidos para retratar Mercury, em especial quando ele adota o visual mais conhecido, com o bigode e os óculos escuros. Esses óculos espelhados, aliás, criam uma imagem que eu diria que será a que ficará no imaginário coletivo quando lembrarmos deste filme. Os grandes espelhos que eles criam, escondendo os olhos que anteriormente eram destacados pela câmera como um grande elemento da performance de Malek, cobrindo boa parte de seu rosto, contrapõe brilhantemente a imagem icônica com algo quase desumano. E quando, em uma cena mais íntima, no hospital, os óculos clareiam e voltam a mostrar os olhos de Mercury, é uma imagem incrivelmente efetiva e dramática.

Bohemian Rhapsody é uma cinebiografia rasa e para toda a família sobre um personagem historicamente complexo e nem um pouco family friendly, então não há como não haver certo estranhamento. Para quem é fã de Queen, há muito com o que se divertir, especialmente em um cinema cheio e com uma platéia entusiasmada. Mas infelizmente não há muito mais aqui do que uma boa performance central e a recriação de grandes momentos da história da música.

Ultimas Notícias

1 Real a Hora

Encontre Sua Trilha No Mundo Nerd!
1 Real a Hora - 2020 | Desenvolvido por Vedrak | Mantido online e operante em parceria com a Nixem Cloud