19 anos de Battle Royale e o conflito entre gerações | Análise (Sem spoilers)

Battle Royale é um filme japonês lançado no ano 2000, dirigido por Kinji Fukasaku, adaptado de um livro de 1999 por Koushun Takami. Um dos mais marcantes e chocantes longas japoneses deste milênio, o influente filme completou, no dia 16 deste mês, 19 anos do seu lançamento. Para celebrar essa data tão, especial, traremos uma análise sem spoilers desta excelente produção.

Caso você não conheça ou tenha apenas ouvido falar, convido você a conhecer um pouco mais sobre este filme e entender um pouco a sua importância e profundidade dos seus temas. Não será um review, não deixaremos uma nota no final. Mas desde já, ressalto que é um filme fortemente recomendado para fãs de ação.

O que é Battle Royale?

Battle Royale conta a história de um Japão distópico, onde após uma grave recessão, a juventude japonesa se torna rebelde e os adultos perdem o controle dos adolescentes. Isso leva o governo japonês a aprovar o “Ato BR”, ou “Ato Battle Royale” para tentar controlar a juventude desregrada.

Essa lei requer que a cada ano, uma turma de nono ano seja levada a uma ilha deserta, onde eles terão três dias para lutar até a morte e só um pode sobreviver. Essa é a premissa de um dos menos tradicionais, mas um dos melhores filmes de adolescentes.

Esse filme, muito devido aos seus temas pesados e violência gráfica, foi pouco distribuído fora do Japão e acabou se tornando um cult classic, apesar do sucesso em seu país de origem. É notável também, apesar de pouco conhecido pelo público geral, a influência que esse filme teve na cultura popular no mundo.

Battle Royale e sua influência na cultura pop

Até hoje, o nome Battle Royale é usado para designar as narrativas fictícias ou jogos onde existe uma luta pela sobrevivência de um só. Como exemplos no cenário recente, podemos citar a série Jogos Vorazes e mais recentemente jogos como Fortnite e PUBG, que popularizaram mais ainda esse gênero.

No Japão, podem ser citadas diversas obras de ficção com essas características, entre elas o mangá Battle Royale (2000), Basilisk (2003), Bokurano (2003), a franquia Fate/stay night (2004), Mirai Nikki (2006), Deadman Wonderland (2007), a franquia Danganronpa (2010), entre diversas outras.

Uma curiosidade interessante, no que diz respeito ao alcance cultural do filme é que a atriz Chiaki Kuriyama, que protagoniza uma das cenas mais chocantes em Battle Royale, viria a ser elencada pelo diretor Quentin Tarantino no filme Kill Bill. Perguntado a esse respeito, o diretor discorreu sobre como Battle Royale é um de seus filmes favoritos de todos os tempos e que influenciou muito seu estilo, chegando a dizer que esse é o único filme lançado desde que ele começou a dirigir que ele gostaria de ter feito.

Chiaki Kuriyama em Battle Royale

É uma pena que poucas pessoas tenham tido acesso a esse filme aqui no Brasil, especialmente na época de seu lançamento. Apesar das diferenças culturais entre nosso país e o Japão, esse filme aborda temas muito interessantes para serem discutidos. A história é baseada numa crítica política, algo que poderia ser facilmente traduzido para nossa realidade, mas o filme trata também de outro aspecto, que é o que vamos abordar neste artigo especial: o choque de gerações.

Embate entre gerações

Battle Royale é, do começo ao fim, um conto de choque entre gerações em conflito. O respeito pelos mais velhos é importante em culturas ao redor do mundo, mas no Japão especialmente é um princípio muito respeitado.

A história começa apresentando o contexto que levou à aprovação da lei em questão. O filme nos apresenta brevemente o estado das escolas, onde a maior parte dos alunos não assiste mais as aulas e chega a mostrar o professor Kitano, interpretado pelo brilhante e homônimo Takeshi Kitano, sendo agredido. 

A Lei Battle Royale aparece como uma forma de controlar a juventude, mas também como uma forma de vingança e satisfação para os adultos transtornados. A matança, transmitida pela TV, servia como alívio e entretenimento para os adultos que sofriam tanto com a recessão econômica quanto com as rebeldias dos jovens.

No filme, a turma 3-B de uma escola de ensino fundamental abandonou as aulas durante o período letivo. Somente uma aluna, Noriko Nakagawa continua indo a escola ver as aulas do professor Kitano. As cenas de abertura mostram o professor sendo esfaqueado por um aluno e abandonando seu cargo na escola.

Ao final do ano, os alunos dessa classe são chamados para uma viagem escolar. Atraídos pela perspectiva de diversão, mesmo os alunos que abandonaram as aulas compareceram a viagem. Eles são então levados para uma ilha deserta, onde os adultos, representados pelo professor Kitano, obrigam os mesmos a lutarem até a morte.

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Professor Kitano (Takeshi Kitano) e os alunos na ilha

Esse é o ponto onde a história realmente começa. A audiência é jogada junto com os alunos, com o pouco contexto que foi dado anteriormente, em um ambiente de violência brutal e muitas vezes aparentemente gratuita, onde não se sabe em quem você pode confiar. Onde não existe segurança real e onde confiar em alguém fácil demais pode levar a seu fim.

No início, muitos alunos relutam em matar seus companheiros de classe, mas logo se vêem sem opção em meio ao caos e a desconfiança, quando as antigas rixas começam a aflorar e quando novas desconfianças começam a dar fruto. 

Em meio a esse ambiente de violência, os adolescentes estão a mercê da crueldade dos adultos. De certa forma, a trilha sonora desse filme representa isso. Inteiramente composta de peças clássicas ocidentais, as músicas que tocam na ilha simbolizam a superposição daquilo que é “antigo”, clássico, sobre aquilo que é novo. Essas crianças vivem, agora, uma violência que não era conhecida pela maioria delas, mas que era bem conhecida pelos adultos, especialmente aqueles políticos responsáveis pela lei: os horrores da guerra.

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Shota (Tatsuya Fujiwara) e Noriko (Aki Maeda), os personagens principais do filme

O diretor do filme, Kinji Fukusaku, viveu pessoalmente a Segunda Guerra Mundial, que segundo ele próprio influenciou a forma como ele retrata a violência em seus filmes e o fez entender os limites da amizade. Em um trecho de uma entrevista, ele conta uma história ocorrida em 1945, vivida por ele mesmo, que segundo o próprio, o levou a desenvolver um ódio fulminante por políticos e adultos, que se manteve por um longo tempo.

Na época, sua classe foi obrigada a trabalhar numa fábrica de munições. Em Julho daquele ano, a fábrica sofreu fogo de uma artilharia inimiga. As crianças não puderam escapar, e tiveram que usar os corpos de seus amigos mortos como escudo para as balas inimigas. Os sobreviventes tiveram que se livrar dos corpos depois. Fukusaku conta que percebeu aí que o governo japonês mentia sobre a situação do país na Guerra.

Talvez esse seja o maior ponto de choque entre as gerações no Japão no momento retratado pelo filme. Os adultos, especialmente os políticos, apesar de serem figuras menos presentes nas cenas de ação do filme, são figura importante para a trama chegar ao ponto em que acompanhamos. E estes viram, em alguma parte, a brutalidade da guerra. Essa é uma realidade que os jovens não presenciaram.

Para esses adultos, toda a rebeldia e violência dos jovens japoneses não passa de mero capricho. Os seus problemas, que para o jovens são muito mais reais e presentes, são uma amostra que não chega nem próximo dos horrores vividos por eles mesmos, e a ilha é uma forma de ensinar essa lição.

Além disso, mesmo o pós-Guerra no Japão não foi um momento de descanso e paz após o conflito. A década de 90 é conhecida no país como a década perdida, na qual devido a uma grave crise econômica, muitos ficaram desempregados e houveram sérias consequências, que são sentidas até hoje. É nesse contexto que o mundo de Battle Royale se encontra. Não num futuro pós-apocalíptico, mas um presente alternativo. No início do filme nos é dito que a situação se tornou caótica como é apresentada não por um conflito terrível, mas sim por um período prolongado de crise econômica e desemprego que ocorreu na vida real.

Conclusão

Um artigo do New Yorker descreve muito bem como Battle Royale tem sua própria maneira de sugerir como realmente é o mundo dos adultos, representado pelo que os alunos passam na ilha. Começa com um período de incerteza e saudades, onde você gostaria, inutilmente, que as coisas fossem diferentes. Passando por traições e compromissos de partir o coração, que culminam em uma lenta, dolorosa e humilhante morte. No final do filme, uma fala oferece um conselho sincero para os adolescentes no público: “Não importa o quão longe, corra por sua vida. Corra!”

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Essa é a visão, e esse é o conselho do diretor, Kinji Fukusaku, que tinha 71 anos quando produziu esse filme para a nova geração. Mesmo com a idade, Fukusaku foi capaz de traduzir na grande tela o mais adolescente dos sentimentos: o receio.

É verdadeiramente mágico como alguém de uma geração completamente distinta do principal público tanto do livro quanto do filme foi capaz de criar um cenário distópico e absurdo, mas com o qual nós somos capazes de nos identificar. Os adultos que assistem podem se identificar com estar cansado de “delinquentes juvenis”, que não entendem a sua perspectiva e experiência e os jovens podem se identificar com o sentimento de prisão, de estar em um mundo comandado por adultos.

Battle Royale não é um filme que oferece uma perspectiva particularmente otimista. É um filme que é bem sucedido em traduzir os sentimentos típicos do nosso processo de amadurecimento. Receio do futuro, a esperança de perspectivas melhores, a paixão para fazer o impossível por alguém importante, a decepção da traição e o sentimento de que nada disso jamais tem fim. É um filme capaz de nos fazer refletir, e lembrar, que apesar das circunstâncias, nós somos capazes de influenciar nosso próprio futuro e correr. Correr por nossas vidas. Um filme extremamente subestimado que vale muito a pena assistir.

É, com justiça, um clássico. E agora, completando 19 anos de seu lançamento, é um filme até mais importante do que jamais foi.


E você, o que acha da trama de Battle Royale? Já assistiu o filme? Deixe sua opinião a respeito do mesmo ou de nossa análise nos comentários ou em nosso grupo! Se tiver gostado na análise, não deixe de comentar e compartilhar com seus amigos, para que possamos trazer mais posts como esse no futuro.

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