Anuncio Publicitário

Através da Jornada – Parte 1

| Tiago Amorim |
Anuncio Publicitário

Por Tiago Amorim

            Quando a noite invadia a cidade de Berek, as tavernas costumavam lotar de soldados, mercenários, menestréis, magos e pessoas de todos os tipos de ofício que ficavam bebendo, cantando e relaxando após um longo dia de trabalho. Os centros urbanos estavam começando a ganhar uma rotina muito mais intensa após inúmeras guerras que redesenharam o mapa do continente. Poucos habitantes permaneciam fora das zonas urbanas, pois os perigos que se encontravam no exterior do aglomerado das cidades eram demasiados preocupantes; Criaturas abissais, cavaleiros negros, bruxos praticantes de magia negra e ladrões de todos os tipos viviam causando problemas a quem vivia afastado das regiões mais povoadas.

            Mas todos esses problemas estavam além das fronteiras da grande cidade de Berek, com seus guerreiros de renome e de grandes conquistas, amados e temidos até mesmo por pessoas de diferentes raças e reinos longínquos, a cidade permanecia segura. É devido a toda essa segurança, proveniente do resultado das últimas guerras que as pessoas agora podem ter um momento de lazer ao final do dia. Numa dessas tavernas, uma das mais afastadas do centro urbano e não muito bem frequentada pela elite, podia-se observar os mais variados tipos de mercenários que peregrinavam pelo mundo.

Anuncio Publicitário

            Bárbaros vindos do norte com roupas feitas de peles de animais – boatos diziam que a pele poderia também ser de seus inimigos derrotados –, magos independentes que não prestavam juramento a nenhum senhor ou sequer seguiam alguma doutrina das leis naturais, cavaleiros livres e sem bandeira e muitos ladrões ardilosos. Em suma, era a nata do submundo de Berek.

            Especificamente na Taverna do Gnoll Azul, encontrava-se Iri, aprendiz de mago e servo por juramento do elemento fogo, além de peregrino, ladrão e sem muito código de honra. Bebia seu vinho tinto ao mesmo tempo em que treinava alguns feitiços ao estalar seus dedos e produzia um fogo ardente e vermelho que tomava diversas formas na palma de sua mão. Ora uma cabeça de dragão, ora um pássaro alçando voo, o mago era bastante criativo e chamava facilmente a atenção das mulheres. Seus cabelos eram pretos, desalinhados e com uma leve franja e seus olhos vermelhos cor-de-fogo – dizia para quem quisesse ouvir ou acreditar que era resultado do juramente ao elemento.

            Vestia um longo manto roxo com inúmeros detalhes em vermelho e dourado, dando-lhe um ar mais imponente. Muitos o achavam bastante poderoso, embora ninguém daquelas redondezas sequer vira Iri em ação, mas pela sua habilidade em produzir os mais diversos tipos de fogo ao simples estalar de dedos, desconfiavam de que ele sabia se defender. Deste modo, nenhuma pessoa mexia com ele, ainda que ocorressem muitas brigas por motivos banais naquele lugar.

Anuncio Publicitário

            O mago estava despreocupado com tudo o que se passava ao seu redor, concentrando-se apenas em sua técnica. Tão distraído, nem notou que o local havia ficado cada vez mais cheio e sem muitos lugares para sentar. O sol ainda não se pôs por completo, mas o movimento forte na taverna já havia começado. Iri estava numa mesa bem no meio do salão, totalmente avulso e desprevenido enquanto fazia suas chamas ganharem forma de um mago qualquer. O resultado surpreendeu-lhe, ficou observando a imagem criada quando uma figura gigante sentou-se logo à sua frente fazendo-o arquear rapidamente as sobrancelhas.

            Tratava-se de um homem descomunalmente forte, com cabelos longos e vestindo apenas trajes simplórios de batalha, típicos dos bárbaros que rondavam aquela região. Trazia ainda uma ombreira prateada de algum metal maleável – provavelmente roubado ou tirado do verdadeiro dono – e uma espada embainhada que logo fora deixada no chão. O bárbaro desconhecido não parecia estar muito interessado no mago, mas imediatamente Iri desfez sua magia e ficou encarando a figura sem educação do homem que jazia à sua frente sem o menor sinal de cordialidade.

            – Você seria…? – indagou, com uma expressão de falso interesse.

Anuncio Publicitário

            – Meu nome é Gâsh. – o estranho respondeu sem notar o desdenho do mago.

            – Armm… você está sentado na minha mesa, amigo. Está reservada – Pigarreou e foi direto ao assunto.

            O homem finalmente encarou Iri e sem demais preocupações colocou seus braços na mesa e deu uma olhada panorâmica ao redor deles. Não tem mais outro lugar para sentar aqui. A resposta não pareceu agradar o mago, que lançou um olhar prepotente enquanto fazia seus olhos brilharem em vermelho e arregaçava as mangas, simulando que iria tomar alguma atitude.

Anuncio Publicitário

            – O homenzinho de vestido vai querer brigar pelo lugar?

            – O quê? – Iri enfureceu-se de imediato.

            – Perguntei se quer brigar!

Anuncio Publicitário

            – Você me chamou de homenzinho de vestido? Estou a trajar uma túnica caríssima, vale mais do que estes trapos que vestes ai!

            – Um homem não deveria se orgulhar de ficar vestindo roupas de mulher

            – … e essas vão ser suas últimas palavras, forasteiro imundo!

Anuncio Publicitário

            Subitamente, Iri levantou-se da cadeira e a empurrou para trás com a violência do impulso. E, sem medir consequências, mirou a palma da sua mão na direção do peito do homenzarrão, lançando-lhe uma poderosa explosão, jogando para trás o bárbaro alguns metros e lhe fazendo perder o equilíbrio, mas seu peitoral de couro de Mantícora o havia salvado a pele.

            – Vou cortar suas mãos, homenzinho de vestido!

            Com uma velocidade nada proporcional ao seu tamanho, o Gâsh lançou-se sob a mesa e agarrou sua espada, desembainhando a lâmina cintilante que ali escondia. Era uma espada típica de piratas, curva, lisa, e aparentemente afiada. O tamanho da arma não pareceu assustar Iri, que já estava preparando outra magia enquanto seu oponente corria em sua direção. As mãos hábeis do mago miraram no cabo da espada, esquentando sua temperatura a ponto de fazê-lo soltá-la em menos de um segundo. Achando que havia demonstrando seu poderio e vencido o bárbaro, Iri ficou com a guarda baixa e recebeu um soco na barriga que o fez cair no chão, desorientado e vomitando vinho pelo chão do lugar. Os espectadores da briga começaram a rir da cena.

Anuncio Publicitário

            Como se não bastasse a humilhação de ser visto vomitando no bar por todas as pessoas que conhecia, Iri ainda levou um chute certeiro em seu tronco, a força fora tamanha a ponto de jogá-lo contra a parede da taverna. Remoendo-se de dor, porém consciente, Iri defendeu-se da única maneira que podia. Várias chamas irromperam de seu corpo, assustando todo mundo e deixando o bárbaro receoso de realizar outro ataque.

            Nenhuma provocação fora trocada até o final do embate. Assim que Iri conseguiu se levantar, começou a disparar labaredas na direção de seu oponente, fazendo-o recuar e fugir do bar. Ainda que tivesse conseguido vencer a peleja, o mago não se deu por satisfeito e foi correndo atrás do bárbaro, na tentativa de falar algumas palavras de lição de moral e sair triunfante e com mais carisma com os frequentadores da taverna.

            Para seu azar, assim que saiu pela porta principal, o bárbaro o estava esperando, segurando uma enorme cocheira de madeira cheia d´água. Parecia que a cocheira não pesava quase nada para o brutamonte, pois despejou bruscamente toda a água em cima do mago, apagando suas chamas e deixando-o todo ensopado e sem reação. Novamente, os risos voltaram. Tanto o pessoal que começava a sair da taverna quanto quem estava passando pela rua não conseguia conter o deboche. O bárbaro não tinha de fazer mais nada para machuca-lo, julgou ter sido lição suficiente para o mago folgado. Iri nunca havia sofrido tanta humilhação, entrementes, nada podia fazer para reverter a situação; A água era sua maior fraqueza, se ainda tivesse uma parte do seu corpo seca, talvez pudesse invocar seu elemento para secar o resto, mas estava completamente encharcado.

Anuncio Publicitário

            Ora não bastasse um combate humilhante para o jovem mago, passava pela rua um velho conhecido e rival de Iri no ramo da magia elemental: Lyrh, um homem loiro e de feições parecidas com o mago do fogo prostrou-se de fronte a Iri e mostrou-lhe um sorriso maldoso.

            – Que vergonha. Fomos treinados pelo mesmo mestre e ainda assim você continua a ser ridicularizado por todos.

            – O que você está fazendo aqui? – Iri encarou seu rival com espanto.

Anuncio Publicitário

            – Que tom de voz mais desnecessário. Meus negócios aqui não lhe dizem respeito, mas eu só queria te ajudar a se levantar – respondeu Lyrh, estendendo sua mão vagarosamente na direção de Iri – Mas acho melhor secar você antes, não é mesmo?

            Sem tempo de qualquer reação, um clarão se formou das mãos de Lyrh e uma rajada de energia tomou o corpo de Iri por completo, eletrocutando-o ao mesmo tempo em que se podia sentir o cheiro de queimado das roupas pela intensidade da corrente elétrica. Quem estava longe ouviu apenas um estrondo, mas para quem presenciou a cena pôde ver que havia mais um mago controlador de elemento na cidade, um mais habilidoso e imponente que o de fogo. Diferente de Iri, Lyrh possuía uma postura mais convincente sobre o que era capaz de fazer. Entretanto, para Iri, a imagem que seu rival estava começando a passar para as pessoas não fora percebida, pois se encontrava desmaiado em frente a taverna. Abandonado por todos, ficou ali por horas, desfalecido, até que um dos funcionários do bar o arrastou sem a menor gentileza para uma viela onde gatos faziam a festa comendo restos de lixo jogados por ali. E ficaria ali por mais tempo, se uma figura na noite não tivesse aparecido.

Ultimas Notícias

Anuncio Publicitário

1 Real a Hora

Encontre Sua Trilha No Mundo Nerd!
1 Real a Hora - 2020 | Desenvolvido por Vedrak | Mantido online e operante em parceria com a Nixem Cloud