| Tiago Amorim |

Argan, O Renegado – Capítulo 4

Capítulo 4

~Imposto Cancelado~

Argan só foi conseguir dormir quando os raios de sol já começavam a despontar no horizonte. As perguntas de sua mente não o permitiam descansar. Acordou então com batidas em sua porta e uma voz que ele reconheceu ser de Melisa chamando-o para o café da manhã, por cortesia da casa.

Advertisement

– Estou indo, obrigado. – disse ele, sentando-se na beirada da cama.

Antes de vestir sua roupa novamente – o calor era insuportável e ele começou a perceber um cheiro estranho se desprendendo de suas vestes – ele deixou seus olhos pousados sobre o símbolo da Ordem. Procurou pelo quarto alguma agulha e linha, mas não encontrou. Caminhou até a porta, vestido apenas com a calça preta e chamou por Melisa, que novamente veio atendê-lo. Por um momento ela ficou sem reação alguma ao ver o belo rapaz à sua frente – de cabelo castanho revolto e olhos da mesma cor, mas bem mais escuros e profundos -, porém desceu para procurar a agulha e a linha que ele tanto precisava.

Uma hora depois, não havia mais símbolo algum em sua camiseta. Foi uma tarefa fácil, para quem estava acostumado a costurar a própria pele depois de uma batalha. O símbolo da Ordem estava agora grafado por dentro da blusa, deixando um espaço preto em seu peito do lado de fora.

Pronto e mais tranquilo, Argan desceu as escadas ao encontro de todos. Tom, Melisa e Lyandra estavam sentados todos na mesma mesa. Haviam pães feitos na hora, café, leite e frutas variadas e suculentas. O Anokin olhou para os presentes e notou alguém ao fundo. O mesmo barbado que na noite passada estava dormindo, agora massageava as têmporas em frente a um copo de café.

– Oh, viajante! – gritou Tom, parecendo não ter dor alguma. Ao seu lado havia uma muleta de madeira e sua perna esquerda estava enfaixada com uma tala. – Que bom que chegou. Há alguns minutos cansamos de esperá-lo e começamos a comer, se não se importa.

– Não me importo, imagine. Estou em sua casa, e tive que fazer algumas coisas antes de descer. – respondeu o Anokin, ainda em pé do lado da escada.

– Compreendo. – um momento de silêncio e então: – Por que está parado aí? Vamos, sente-se conosco e faça seu desjejum.

– Muito grato. – respondeu Argan, se juntando aos estalajadeiros.

Assim que estava na presença deles, o Anokin notou a cara sombria e preocupada de Lyandra, que se agarrava ao colar, enquanto sua mente mesmo não parecia estar naquela mesa junto ao seu corpo.

– Lyandra, querida. Você está bem? – perguntou Melisa, tocando o braço da garota.

Naquele momento, a menina se sobressaltou como se tivesse acordado de um sonho tenebroso e estranho. Suas mãos logo se soltaram do colar e ela o cobriu com sua blusa. Argan continuou a observá-la, tenso e preocupado. Lyandra olhou para a mãe e abriu um sorriso forçado, logo depois dizendo:

– Sim, mamãe. Por que não estaria?

– Estava tão desligada… – disse Melisa, em tom preocupado.

Argan, no entanto, pegou um pão e passou-lhe manteiga. Enquanto o fazia, perguntou como quem não quisesse nada:

– Pelo visto você realmente gostou do colar. Não o tirou por um único momento…

Aquilo pareceu atingir a garota em seu âmago. Ela se arrumou na cadeira, estreitou os olhos e sua voz tornou-se de doce para uma completamente enraivecida.

– Você não tem nada a ver com a minha vida, viajante! – em seguida se levantou e subiu as escadas.

Até mesmo o barbado no fundo do bar olhou por cima da xícara de café para entender o que estava acontecendo. Tom e Melisa ficaram desconcertados, mas Argan mesmo já esperava aquela reação. Algo naquele colar a impedia de tirá-lo. Por quê? Decidiu que uma hora descobriria. No entanto, ficou sentado à mesa, sem-graça.

– Eu disse algo que a ofendeu? – perguntou.

– Não, não. Peço que desculpe a atitude intolerante de nossa filha, não se zangue com ela. – disse Tom abalado, olhando para o alto da escada.

Melisa estava com a mão na boca, também espantada com a atitude anormal de sua filha. O silêncio na mesa veio como um vento e derrubou a voz de todos ali. Não havia mais nada do que falar. Não era a ideia mais certa que Argan tinha de um desjejum. Comeu apenas a metade do pão e sorveu o leite rapidamente.

Durante a tarde, a garota nem sequer apareceu, continuou trancada no quarto e não aceitou a visita de seu pai e muito menos de sua mãe. Gritava sempre para que fossem embora e não respondia com firmeza se perguntassem a ela se estava bem. Havia uma hesitação cada vez mais crescente em sua voz, e isso não passava despercebido por ninguém.

Achando que seu tempo ali já havia acabado e que o colar não era mais de seu entendimento, Argan foi para o seu quarto quando o crepúsculo já começava, para se preparar e partir. Tinha um longo caminho a percorrer e não queria problemas com aquelas boas pessoas. Guardou as duas espadas nas bainhas das costas e a aljava também, ainda com 32 flechas. Em seguida, pendurou o arco sobre um dos ombros. Quando estava pronto para sair, mais precisamente quando colocou novamente o capuz sobre a cabeça, ouviu uma batida na porta. Em seguida, Tom entrou mancando com sua muleta. Olhou para Argan e colocou as mãos nos bolsos da calça de algodão escuro.

– Já vai? – perguntou tímido.

– Sim. – respondeu o Anokin.

Parado à sua frente daquela maneira, Tom se parecia com um camponês muito sofrido e que solicitava de ajuda tanto quanto precisava de ar. Era impossível não se sentir comovido com aquela imagem.

– Entendo… Bem, boa sorte em sua viagem, então. – disse ele, abaixando a cabeça.

– Existe algo a mais que queira me dizer, não?

Os olhos de Tom brilharam assim que ele encarou Argan. Sua boca balbuciou alguma coisa, porém nenhum som foi emitido. Ele abaixou novamente a cabeça e falou, enfim, o que o torturava por dentro.

– Sim, tem algo a mais. Precisamos de sua ajuda. Ontem, quando o encontrei na estrada, normalmente não teria parado para falar com você. Normalmente teria seguido meu caminho e o deixado para trás. Mas estes não são tempos normais, como você pode perceber. Amanhã à tarde, os ladrões que mencionei virão para cobrar os impostos que devemos a eles. Acho que está na hora de dizer basta, porém um velho como eu não teria muita chance contra eles, concorda? – a pergunta certamente foi retórica, mas Argan concordou com a cabeça. – Entendo que não queira expor a sua identidade, muito menos sua idade, e compreendo mais ainda que andar com um capuz na cabeça não é questão estilista. E reparei também, embora sem dar nenhum alarde, no símbolo em sua roupa e no modo como ficou preocupado em cobri-lo com as mãos quando mencionei a notícia do reino vizinho.

Argan não demonstrou, mas estava surpreso com aquilo. O velho parecia saber muito mais do que aparentava, disso ele tinha certeza.

– Vai me entregar para o reino? – perguntou ele.

– E por que o faria? Deixo com o reino os problemas do reino. Minha estalagem, no entanto, abriga todo aquele a caminho da redenção.

Argan deu um passo à frente, tentando parecer ameaçador. Tom, no entanto, nem mesmo piscou, nem quando a voz baixa do Anokin soou em seus ouvidos:

– Não busco redenção.

Ao contrário do que ele esperava, o velho riu.

– Você não busca redenção? Então por que não me matou? Por que se deu ao trabalho de me salvar naquela montanha?

Argan novamente se surpreendeu. Não teve resposta para aquilo, portanto se manteve em silêncio.

– Viu só? Todos nós buscamos redenção por alguma coisa. Mas não estou querendo usar dos artifícios das chantagens. Quero que me ajude, quero que faça os bandidos malditos pagarem. – novamente a feição de um homem desesperado voltou para Tom.

Argan abaixou a cabeça, pensando em tudo aquilo que lhe fora dito. Poderia ajudar Tom e depois ir embora, porém não poderia garantir a segurança dele depois daquilo. A Guilda dos Ladrões voltaria e poderia, no mínimo, queimar a estalagem. Sobreviver com o sentimento de culpa sobre os ombros, mais do que os que já lhe pesavam, seria demais para ele. No entanto, aquela família necessitava daquilo agora. Depois, ele veria o que poderia ser feito.

– Tudo bem. – disse por fim. Largou novamente os seus equipamentos sobre a sua cama. – Mas preciso que alguém lave minha roupa, ela está com um cheiro horrível.

O sorriso de Tom parecia querer fugir de seu rosto, de tão radiante e feliz.

– Imediatamente, viajante. Eu…

– Argan. Meu nome é Argan. – interrompeu o Anokin.

– Argan. – repetiu o velho, assentindo positivamente.

O Anokin retirou sua roupa e a entregou para o velho. Em troca, recebeu uma camisa folgada de linho branco e uma calça de algodão esfiapada. Seus sapatos de caça, no entanto, continuavam em seu pé. Imaginando o que poderia fazer até lá, ele viu que suas espadas precisavam de afiação. Retirou de seus equipamentos jogados uma pedra de amolar e começou a fazer o seu trabalho. As lâminas eram brilhantes e afiadas demais. Porém, para Argan, que exigia sempre golpes precisos e rápidos, afiadas demais nunca era o suficiente. E fazer aquilo lhe ajudava a passar o tempo e pensar na vida… Embora pensar na vida não fosse a coisa que ele mais queria no momento.

Pensou nas palavras de Tom, sobre a redenção que todos buscavam pelos seus crimes. No início não conseguia aceitar que estivesse numa estrada para abdicar de seus feitos. Só queria, na verdade, encontrar um lugar seguro para ficar e ali passar o resto de sua vida. Porém ele mesmo sabia que isso era impossível com os fantasmas do passado sempre o surpreendendo durante a noite. Os rostos em dor, as chamas, tudo coagindo em lampejos e flashes que lembrá-lo-iam sempre de que ele era o culpado por tudo e que merecia pagar.

Seu espírito jamais teria a paz que procurava, não até mostrar que todos estavam errados em seus julgamentos pretenciosos. Achou difícil obter a redenção apenas por ajudar aquela família, mas não o fazia por que lhe interessava, mas sim porque eles precisavam e ele, em seu tempo na Ordem de Santo Efígio, treinara sua vida inteira para proteger os mais fracos.

Já havia acabado de afiar suas lâminas quando as sombras da noite caíram sobre o mundo. A lua era cheia, jogando seu brilho branco pela janela do quarto do Anokin. Ele andou até ela e contemplou o céu. Respirou seu último momento de paz ali, deixando a brisa noturna lhe atingir.

– Que os Deuses me ajudem, pois sabem que não sou mal. – disse ele, abaixando a cabeça, olhos fechados em prece.

Batidas à porta.

– Entre. – disse ele, virando-se para ver quem o interrompia. Era Lyandra, com o rosto corado.

Sem jeito com as palavras, ela pediu que ele descesse para o jantar. Rapidamente, sumiu e seus passos no corredor foram ouvidos. Argan deu um meio-sorriso e desceu logo atrás. A estalagem estava cheia naquela noite. O velho bardo havia voltado, mas ainda se arrumava para começar a tocar. Lyandra estava atrás do balcão, onde atendia a maioria da clientela. Não havia sinal daquele casal estranho que havia dado o colar ainda mais estranho para a menina.

Melisa corria de mesa em mesa anotando os pedidos. Tom estava sentado numa mesa conversando animadamente com outros senhores. Quando o velho avistou-o, parou imediatamente de rir e fez uma mesura com a cabeça. Argan retribuiu e se sentou ao balcão. Lyandra precisou olhá-lo um punhado de vezes para que finalmente tivesse coragem de lhe atender.

O prato do dia era um guisado de carne de porco com batata cozida. Para acompanhar a comida, um copo de vinho com mais gosto de uva do que o álcool que possuía. No entanto, o Anokin se alimentou bem. Não saberia dizer quando voltaria a ter aquelas regalias novamente. Quando terminou de comer, olhou para a garota e viu que o colar estava ainda oculto por uma blusa de gola alta. Lyandra, embora fizesse de tudo para ser discreta, evitava com todas as forças o olhar de Argan.

– Está melhor? – ele perguntou. Lyandra se virou para ele, surpresa.

– Sim. Desculpe-me pela minha atitude mais cedo. Não queria ter gritado daquela maneira com você. – disse ela, se aproximando e olhando para cima, como se o simples fato de encará-lo era demais para sua vergonha.

Argan soltou um pequeno riso e respondeu:

– Não precisa se desculpar. Sente-se segura para me contar o que aconteceu? – sua voz agora era baixa e ele inclinou a cabeça para frente em sinal de que aquela conversa não sairia dali.

Lyandra pensou por um momento e assentiu em silêncio. Em seguida, abaixou-se para falar com ele também, ao pé de seu ouvido:

– É o colar. Eu acho que…

Mas o que quer que fosse que ela achasse não seria dito naquele momento, nem tão cedo. A porta foi escancarada com violência e um homem gordo e calvo, suado e com a expressão assustada apareceu. Balbuciou alguma coisa, mas no final não dissera nada. Era evidente que estava nervoso. Tom tentou se levantar, mas sua perna explodiu em dor e ele voltou a se sentar.

– O que foi, Bill? – perguntou ele, dali mesmo, a menos de quatro metros de distância do homem.

– L-l-ladrões! Eles estão chegando! – gritou. O pânico foi total. Duas crianças, que até então Argan não havia reparado, estavam agora gritando enquanto seus pais colocavam-nas no colo. Alguns até mesmo já depositavam seus sacos de moedas quase vazios em cima da mesa. O Anokin, no entanto, se levantou e pediu baixinho para Lyandra que pegasse a sua roupa.

A menina no início não entendeu o que ele queria, mas quando ele exclamou um “RÁPIDO!”, ela entendeu que era muito importante. Em menos de um minuto, ela voltava com as peças ainda úmidas. Argan nem sequer agradeceu, subiu correndo as escadas, deixando todos ali à mercê dos ladrões.

Entrou rapidamente em seu quarto e começou a se despir, trocando de roupa num piscar de olhos. As peças ainda estavam molhadas, e o simples contato delas com o corpo seco de Argan e a brisa noturna o fazia ter calafrios. Lá em baixo, ele ouvira a porta ser arrombada, sendo seguido de gritos e choros infantis. Ouviu a voz de Tom – cheia de dor, o que indicava que ele novamente estava tentando ficar em pé – mas não entendia o que ele dizia. Ouviu risadas e o raspar de uma lâmina na bainha. Colocou o capuz, prendeu as espadas às costas enquanto ouvia mais alguém gritar. Copos foram ao chão, mesas e cadeiras jogadas. Agora ele colocava a aljava. Mais um grito que ele pensou se tratar duma mulher dizendo “Meu bebê!”. Pegou o arco.

Parou na ponta da escada, nas sombras para analisar a situação. Aqueles homens não eram nada comparados a ele, mas isso não significava que não podia morrer se tentasse algo desesperado.

Eram dez homens com roupas de couro e um tipo de touca em suas cabeças. Estavam todos formando um arco em frente à porta. O que estava no meio e parecia ser o chefe pelo modo como agia estava com uma criança de não mais que dez anos de idade presa em seu braço esquerdo, no outro ele segurava uma espada curta com a ponta da lâmina tocando a cabeça dela. A menininha chorava.

Tom estava em pé. Ao seu lado estavam Lyandra e Melisa. Aquilo comoveu Argan, mostrando a ele a importância de uma família. “Juntos até o fim, como deve ser” pensou ele.

– Amanhã é o dia da cobrança! – gritou Tom.

Os bandidos riram.

– O dia da cobrança é o dia que o chefe quiser, entendeu? – disse o do meio, ele apertou um pouco mais a lâmina na fronte da menina e esta chorou copiosamente. A mulher que parecia ser sua mãe gritou e tentou avançar, mas seu marido a segurou pelo braço. Ambos se ajoelharam e imploraram para não machucar a criança.

– Por favor, não machuque ninguém aqui. Daremos o que quiserem, sem resistência. – agora foi a vez de Melisa falar, soluçando, estendendo a mão como se pudesse agarrar a criança com a força do pensamento.

– Tom, meu velho, manda a vadia da sua esposa calar a boca, antes que eu faça um furo na barriga dela. – disse o chefe do bando.

E então aconteceu.

O povo ouviu um zunido como algo pontudo cortando o ar e logo em seguida o chefe caiu no chão, largando a menina que correu para o braço dos pais. O bandido estava com uma flecha cravada na cabeça, morto e vertendo sangue. As pessoas olharam para a origem da seta, inclusive os ladrões, e o que viram foi um símbolo de esperança para uns, e um agouro de morte para outros.

Parado, com a corda do arco tensionado e uma flecha a postos, estava uma figura encapuzada preta, com os olhos cobertos por uma massa negra de escuridão.

– Saiam pelos fundos, todos vocês. – disse Argan. Os bandidos não ousaram se mexer. As pessoas saíram chorando aliviadas. Tom foi carregado por Melisa e Lyandra, e os três fizeram um aceno com a cabeça ao passarem.

Agora, restavam apenas ele e os bandidos. Lentamente, Argan desceu as escadas, o arco ainda tensionado, a flecha apontando ora para um, ora para outro. Sempre que fazia esta transição, ele podia ver o pânico irradiar nos olhos dos inimigos.

O silêncio era mortuário, ninguém ousava se mexer ou até mesmo falar alguma coisa. As espadas ainda estavam em riste, mas nenhum deles tentou sequer balança-la.

– Você só tem mais uma flecha no arco, como acha que vai nos matar ao mesmo tempo? – perguntou um bandido mirrado e com a face ainda de um jovem. Argan lamentou por isso.

– Não vou. – respondeu. Em seguida, a seta viajou até encontrar o peito do rapaz.

Os outros não esperaram outra oportunidade. Avançaram com rapidez, brandindo as espadas e gritando. Argan lançou um último olhar ao garoto caído e em seguida largou seu arco, puxando as espadas.

Um bandido já estava próximo o suficiente para desferir um golpe que não tardou a chegar por cima da cabeça do Anokin. Argan esquivou-se para o lado e com suas duas espadas, cortou a garganta do atacante. Sangue espirrou em suas vestes e banhou o chão da estalagem. Mais um corpo no chão.

Em menos de dez segundos, havia outro. Um idiota tentara pular a mesa para alcançar o Anokin, mas Argan a empurrou com a perna, fazendo com que o bandido perdesse o equilíbrio e caísse com um forte estrondo no chão. Ele nem mesmo teve a chance de levantar a cabeça e ver sua morte, pois a espada do Anokin desceu como uma guilhotina, separando os nervos que prendiam a cabeça do maldito. Mais sangue se espalhou, formando uma poça aos pés dele.

Um ataque veio por trás, mirando sua coluna vertebral. Argan deu um passo para o lado, vendo a lâmina passando a centímetros de suas costelas do lado direito e em seguida chutou o bandido nas pernas, fazendo com que ele também caísse. Novamente a espada desceu como uma guilhotina, mas não precisa o suficiente para acertar o pescoço. A lâmina se travou no tórax do bandido e Argan teve de abandoná-la antes que fosse morto pela outra espada que vinha em direção ao seu pescoço.

Abaixou-se, esquivando por um triz da lâmina, e em seguida levantou-se trazendo consigo a sua espada curta, que atingiu o cocuruto do rapaz. Argan viu os olhos do bandido se transformarem em suas órbitas brancas, logo em seguida os braços se largaram ao lado do corpo e a boca desceu, montando uma aparência apavorante.

Os quatro combatentes restantes eram o medo físico. Não sabiam se avançavam ou fugiam. Argan não deu tempo a estes. Sem as duas espadas as quais normalmente teria feito seus inimigos perecerem, as adagas fizeram bem o seu serviço.

Duas escorregaram pelas vestes de Argan e enquanto estas estavam no ar em direção aos seus alvos, outras duas já estavam prontas para serem lançadas. Em menos de três segundos, os quatro já haviam caído também. No centro da estalagem, restava apenas um Anokin cheio de sangue, respirando profundamente e olhando para a chacina que havia cometido ali dentro. Mas ele não teve tempo para descanso. Pelo silêncio ali dentro ser grande, o grito que varou a noite foi facilmente audível. E vinha da parte de trás da estalagem.

Sem pensar duas vezes, nem mesmo recolher suas armas, Argan correu. Mais alguém corria perigo, e desta vez a culpa era dele. Abriu a porta dos fundos com extrema violência e viu a cena que se desenrolava à sua frente em câmera lenta, avaliando tudo. Havia mais três bandidos com reféns. As espadas agora estavam ameaçadoramente tocando o pescoço de duas mulheres e um homem.

– QUEM É VOCÊ?! – perguntou um que estava logo à sua frente. Os três ocupavam a sua linha de visão. Argan não levantou o capuz, não queria que vissem a insegurança que o invadia naquele momento. Levara aquelas três pessoas para uma armadilha e não podia permitir que elas morressem.

– ELE TE FEZ UMA PERGUNTA, SEU MERDA! – gritou o outro.

Argan nem mesmo respondeu. Em seu peito ainda havia duas adagas extras. Seria rápido o suficiente para acabar com os dois ao seu lado e livrar uma moça e o rapaz. Mas e a terceira refém?

– Argan, por favor! – disse Melisa, ao seu lado. Sua voz estava chorosa, e Argan não podia culpa-la. A situação era nervosa até mesmo para ele. Porém o Anokin precisava manter a calma e pensar muito bem antes de agir.

Em menos de um segundo, conseguiria acabar com os dois ao seu lado. E em apenas dois, a lâmina no pescoço da mulher à sua frente iria ceifar a vida dela. Portanto tinha um limite de dois segundos para executar o seu golpe. Olhou para baixo e encontrou a corda com a adaga na ponta.

– É MELHOR RESPONDER ANTES QUE EU CORTE A CABEÇA DESSA VADIA! – gritou o que estava ao seu lado esquerdo. Os outros assentiram positivamente, Argan pôde perceber com sua visão periférica.

– Acho que ele não se imp… – a frase foi interrompida pelo que estava à direita quando uma adaga pontiaguda perfurou sua testa. O esquerdo não teve nem tempo de piscar, pois outra adaga já o havia atingido no olho.

Logo em seguida, com extrema rapidez, Argan puxou a corda e lançou a adaga com a precisão de um falcão. A adaga penetrou o pescoço do bandido, prendendo-se a um osso, pois logo em seguida ele foi erguido no ar e trazido para perto do Anokin com apenas um puxão da corda. Quando tornou a atingir o chão, ele já estava morto.

As duas mulheres caíram em prantos, ajoelhando-se em meio à lama, cobrindo os rostos com as mãos. O homem, em choque, nem sequer conseguia piscar, olhava para frente com a expressão ainda apavorada. A ação toda não havia durado nem quatro segundos.

Lyandra correu para abraçar seu salvador, assim como Melisa também. Aquilo de fato pegou Argan de surpresa, que nunca recebeu gratificações por ter ajudado alguém. Novamente, como ele percebera ali, era o centro das atenções.

– Obrigada! – disse Lyandra, dando um beijo no rosto do Anokin. Ele olhou para ela e deu um sorriso sem jeito.

Um alaúde foi ouvido ao fundo do pequeno grupo ali reunido. Passando pelas pessoas, uma figura também encapuzada, pequena e de cabelos brancos que chegavam até os ombros, levantou o olhar e disse:

– Farei questão de que meu filho cante sobre esse dia. Ele terá mais riqueza em detalhes, e é de detalhes que este feito certamente precisa. – disse o velho bardo.

Argan fez uma mesura com a cabeça e acenou para Tom, que estava mais sorridente que nunca, para que ele o acompanhasse até a parte de dentro.

O velho veio mancando, mas a dor nem sequer parecia afligi-lo. Antes de chegarem à frente da estalagem, Argan o impediu e disse, em voz baixa:

– Com esta chacina, temo que haja retaliação. – sua voz não repartia da mesma alegria dos outros, mas sim da sensatez que ninguém ali parecia ter. Fizera aquilo, pois precisavam, mas as consequências seriam drásticas.

O bom senso de Tom pareceu voltar, pois no mesmo instante ele adotou um semblante mais sério e preocupado que antes. Abaixou a cabeça e o Anokin percebeu que ele estava pensando. O silêncio entre os dois era apenas quebrado pelas vivas nos fundos do estabelecimento.

– E o que pode ser feito? – ele perguntou, por fim.

Argan abanou a cabeça e respondeu:

– Não sei. – Tom arregalou os olhos e sua boca balbuciou. Por um momento, ele pareceu novamente apavorado. – Mas vou fazer alguma coisa, tenha certeza disso.

Tom sentiu as mãos pesadas de Argan postarem-se em seus ombros caídos. O Anokin sabia que agora ele estava desesperado, e deixara de pensar apenas no presente. O que aconteceria no futuro? Ele não sabia, mas tinha que se precaver.

Então, juntos, rumaram para frente da estalagem. O cheiro de morte e sangue em lugar fechado fez com que os olhos de ambos lacrimejassem. Embora Argan já estivesse acostumado com aquilo, o odor pungente ainda lhe era agressivo.

Olharam então para os corpos sem vida alguma no chão. E o Anokin sabia que aquelas seriam as primeiras das que estavam por vir.

1 Real a Hora

Encontre Sua Trilha No Mundo Nerd!
1 Real a Hora - 2020 | Desenvolvido por Vedrak | Mantido online e operante em parceria com a Nixem Cloud