Aniquilem o Ministério da Magia

| Tiago Amorim |

Você gostaria de viver no mundo de Harry Potter? Muitos leitores gostariam de poder, magicamente, teletransportar-se para Hogwarts ou para o Beco Diagonal, entretanto, apesar de toda a magia, o mundo ficcional de J. K. Rowling não é simplesmente tão bom quanto o nosso. Prova disso é a vida no mundo real de hoje ser mais segura, próspera e confortável do que jamais foi. Por que alguém preferiria o mundo bruxo do progresso frustrado e da autoridade arbitrária?

Por que restringir a livre troca entre o mundo mágico e o mundo trouxa?

A série Harry Potter é brilhante e épica, inobstante, não podemos ser cegados pelo nosso amor por ela. Bruxas e bruxos estão presos, afinal, à tecnologia medieval. Eles raramente podem fazer uso de equipamentos do mundo trouxa, bem como não podem unir o melhor dos dois mundos, porque os regulamentos do Ministério da Magia proíbe-os de fazê-lo.

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Mesmo antes da ascensão de Lord Voldemort, o Ministério da Magia já debilitava o mundo mágico, preservando a pobreza e impedindo o progresso.

Considere o diálogo a seguir entre o jovem Harry e Hagrid, o gigante gentil que o introduziu ao mundo bruxo:

“Mas o que um Ministério da Magia faz?”

“Bem, seu trabalho principal é manter em segredo  que existem bruxos e bruxas de cima a baixo no país.”

“Por quê?”

“Por quê?! Caramba, Harry, todos esperariam soluções mágicas para os seus problemas. Nah, nós estamos melhor deixados em paz.”

Alguns libertários defendem Harry como um dos seus, porém perceba que Harry nunca questionou a existência do Estatuto Internacional de Sigilo da Magia, o qual ainda continuava em vigor muito tempo depois de os trouxas pararem de perseguir bruxas.

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É um grave erro do Ministério da Magia não ver a magia como um serviço. Os bruxos sabem que há uma demanda trouxa por magia, a qual não é uma “torta fixa” – uma premissa que vê a torta de recursos como fixa e nos leva a interpretar situações mais competitivas como puramente ganha-perde.

Imagine se os Weasleys, que sofriam financeiramente, pudessem fazer mágica por dinheiro. Eles poderiam sair da pobreza ao mesmo tempo que tornavam a vida dos trouxas mais fácil.

O Ministério, no entanto, não só proíbe tais trocas voluntárias; ainda proíbe o uso mágico da tecnologia trouxa. Desculpem: há carros voadores permitidos. Note que, contudo, o governo bruxo exime-se de tais restrições, como, por exemplo, o fato de os carros ministeriais poderem magicamente saltar à frente no tráfego.

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Os protagonistas da saga lutam pelos direitos de várias criaturas, não obstante eles continuavam “amorosamente” desprezando os trouxas. A palavra trouxa é usada até mesmo por personagens simpaticamente como um palavrão. O livre comércio com os trouxas, em que ambas as partes poderiam revelar quem cada qual realmente é, criaria tolerância, bem como, sobretudo, cada lado poderia fornecer entre si bens e serviços úteis. O que temos, em vez disso, é um embargo econômico que os trouxas nem sequer conhecem. Em nosso mundo, embargos são projetados para isolar e punir um inimigo. Aparentemente, Voldemort e seus asseclas não são os únicos que veem trouxas como os inimigos dos bruxos.

Enquanto isso, Hogwarts ainda usa tochas para iluminação, e por motivos escolares não há acesso à Internet nem a telefones celulares, porque, alega-se, a força da magia interfere no funcionamento da tecnologia trouxa. Será incrível que os engenheiros trouxas e os professores de magia, trabalhando em conjunto, não seriam capazes de encontrar uma solução para esse problema?

Um sistema econômico livre e funcional exige o Estado de Direito, algo que falta ao mundo mágico. Além disso, não há separação de poderes, nenhuma constituição, tampouco supervisão civil, transparência e nenhum sinal de eleições. O devido processo legal é, aparentemente, um privilégio, porque o Ministro da Magia pode aparecer uma noite na sua porta e, quer queira quer, não jogá-lo na cadeia indefinidamente.

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Talvez o mundo ficcional de Rowling seja um comentário satírico sobre sua experiência britânica. Se sim, por que seu herói junta-se ao Ministério que mantém a comunidade mágica tão empobrecida e vulnerável? É possível que ela não entenda nossa economia política bem o suficiente para imaginar uma melhor alternativa mágica?

Apesar de sua deficiência política e econômica, Rowling claramente quis promover a tolerância entre seus leitores, e isso ela conseguiu com grande sucesso. Retratando o livre mercado ela teria criado melhores circunstâncias para superar os preconceitos em suas novelas. Por outro lado, ainda é evidente que, por meio de Harry Potter e seus amigos, os leitores são encorajados a se levantarem contra as principais injustiças e ver com ceticismo o que os políticos e os meios de comunicação dizem.

Quando Voldemort retornou, a postura dos protagonistas tornou-se consistentemente mais inclinada em direção à liberdade. Rowling magistral e corretamente, pelo menos, representou um fenômeno político: como resposta à ameaça externa de Voldemort, o Ministério aumentou seus já imensos poderes e respondeu ao temor do autoritarismo com medidas autoritárias. As pessoas ao lado de Harry lutaram não só contra o bruxo das trevas, mas também contra seu próprio Ministério.

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É aí que reside uma importante lição: não sejam espectadores. Poucos bruxos estavam dispostos a rebelarem quer para o Ministério da Magia, que contra Voldemort. Mesmo o Ministro da Magia estava relutante em admitir que o senhor das trevas havia retornado, porquanto isso teria perturbado seu estilo de vida confortável. Ademais, aqueles que fizeram vista grossa, afinal, não menos foram afetados pelo retorno de Voldemort.

A mensagem de Rowling é poderosa: atrevem-se a dar o primeiro passo e ajam antes que seja tarde demais.

No final, Harry Potter derrota Voldemort, apesar dos esforços do governo mágico para impedi-lo. Harry e seus amigos começaram um movimento de base, que cresceu em influência e conseguiu conquistar as forças do mal. Os alunos podem mudar o mundo – e não só na ficção. 

Após a derrota de Voldemort, o Ministério provavelmente retornou ao status quo ante, dando um passo no caminho do progresso e da prosperidade através de regulamentos inúteis. Sem embargo, se há estudantes mais ativos que, encorajados pelo exemplo de Harry Potter, atrevem-se a elevar suas vozes pelo livre mercado, bruxos e bruxas poderiam viver em harmonia com os trouxas como iguais, e ambos se beneficiariam do intercâmbio voluntário entre os seus mundos.

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Quaisquer que sejam as desvantagens do universo potteriano, milhões de fãs de Rowling continuarão fantasiando sobre compartilhá-lo com Harry e seus amigos. Eu, no entanto, sinto-me muito mais confortável no meu quarto eletricamente iluminado, teclando no meu laptop e ouvindo música pela Internet.

Harry Potter é um mundo mágico, mas se podemos aprender com seus erros, o nosso pode ser mais ainda.

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¹ FOUNDATION FOR ECONOMIC EDUCATION (FEE). Abolish the Ministry of Magic. Disponível em: <https://fee.org/articles/abolish-the-ministry-of-magic/?utm_source=newsletter>. Acesso em: 18 jul. 2016.

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