Explorando The Expanse (Parte 1) – Leviatã Desperta

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Esse texto não vai ser um review. Pense nele mais como uma longa lista de motivos para convencer você a assistir The Expanse, uma série de ficção científica que foi exibida no canal SyFy durante as três primeiras temporadas e foi posteriormente adquirida pela Amazon. Como a quarta temporada de The Expanse será lançada no dia 13 de dezembro através do serviço de streaming Amazon Prime Video, eu (o fanboy residente aqui no 1 Real a Hora) fiquei encarregado de fazer uma retrospectiva em três partes, a serem postadas no dia 13 de cada mês, analisando as três temporadas anteriores.

Ok, agora que as explicações já foram dadas, bora começar?

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Alex Kamal (Cas Anvar): piloto, cozinheiro e o melhor personagem dessa série.

As Origens de The Expanse

The Expanse é baseada na saga homônima de ficção científica escrita por James S. A. Corey (pseudônimo da dupla de autores Daniel Abraham e Ty Franck) e iniciada em 2011 com o romance “Leviatã Desperta” (que até agora é o único volume da saga que foi lançado no Brasil, pela Editora Aleph).

Até o presente momento, ela é composta por oito romances (com o último volume previsto para lançar em 2020, consolidando uma “trilogia de trilogias” cujo significado vou explicar daqui uns dois meses) situados em um futuro distante onde a humanidade se expandiu para outros planetas, além sete histórias curtas que desenvolvem melhor a backstory do universo e de alguns personagens secundários.

Desde a época que foi originalmente lançada, a saga The Expanse vem sendo aclamada como uma das melhores obras de ficção científica dessa década, sendo indicada em 2017 ao Hugo Award na categoria “melhor série literária”. Tendo em vista essa influência que a space opera angariou, o canal SyFy anunciou em 2014 um compromisso de adaptá-la para uma série de televisão que prometia ser a produção mais ambiciosa do canal até então.

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Daniel Abraham (à esquerda) e Ty Franck (à direita), os dois autores conjuntamente conhecidos como James S. A. Corey.

O compromisso do canal SyFy se estendeu por mais duas temporadas até que a série fosse cancelada devido ao orçamento exigido e à baixa audiência. Quase que instantaneamente, houve uma comoção em massa dos fãs da série (que incluem nomes ilustres como Jeff Bezos e o próprio George R. R. Martin) que culminou na compra dos direitos da série pela Amazon, que agora está encarregada de produzir as temporadas seguintes.

Os showrunners escalados para a adaptação de The Expanse foram a dupla Mark Fergus e Hawk Ostby (indicados ao Oscar de Melhor Roteiro Original pelo filme “Filhos da Esperança”, dirigido por Alfonso Cuarón), e a série também conta com um envolvimento bem próximo dos autores originais, que assumem o papel de supervisores para que a adaptação não desvie tanto da essência almejada pelos livros.

A primeira temporada dessa série frequentemente chamada de “Game of Thrones no espaço” foi lançada em 2015 e consiste em 10 episódios que adaptam parte de “Leviatã Desperta”, além do conto “The Butcher of Anderson Station” e de algumas adições originais para a versão televisiva que, ao contrário de outras séries que tentaram adicionar elementos originais a uma trama pré-existente, foram fundamentais para tornar o épico de Abraham e Franck ainda mais rica. E é dessa temporada que falaremos neste texto.

O Espaço… A fronteira fi- pera, errei a franquia

Uma Space Opera Realista

O episódio-piloto “Dulcinéia” abre com um texto que nos apresenta ao cenário onde a trama de The Expanse se passará, além de nos preparar para o conflito iminente:

“No século XXIV, os seres humanos colonizaram o Sistema Solar.
A ONU controla a Terra.
Marte é uma potência militar independente.
Os planetas internos dependem dos recursos do cinturão de asteroides. “Belters” vivem e trabalham no espaço.
No Cinturão, ar e água são mais preciosos que ouro.
Durante décadas, tensões vêm escalando – Terra, Marte e o Cinturão agora estão à beira de uma guerra.
Basta apenas uma fagulha…”

Esse texto de abertura traz a premissa de um dos universos de hard science fiction mais bem-bolados que eu já vi na minha vida. Se na Terra, mesmo nessa era pós-globalização, já temos uma incrível diversidade de culturas baseadas em ambientes e histórias diferentes, você consegue imaginar como a humanidade se desenvolveria cerca de 300 anos após se espalhar ao longo de vários mundos? Daniel Abraham e Ty Frank conseguiram, e tudo se inicia com uma questão: gravidade.

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Uma área residencial na colônia de Ceres.

A gravidade no universo de The Expanse exerce uma grande influência tanto na tecnologia quanto na fisionomia das pessoas dependendo de onde elas habitam, assim como no mundo real. Na ambientação da série, é prontamente estabelecido que tanto os “Belters” – habitantes do Cinturão – nascidos em algum asteroide quanto os marcianos possuem severas dificuldades em suportar a gravidade terrestre, graças à baixa densidade óssea que seus corpos possuem devido ao ambiente no qual cresceram. Alguns dos Belters, apelidados de “skinnies” na série devido aos seus ossos finos e alongados, sofrem ainda mais com isso por serem fruto de gerações que cresceram em gravidade artificial.

Sobre essa gravidade artificial, vale ressaltar que não é uma tecnologia mágica que faz com que o piso de uma nave se torne idêntico ao solo terrestre, mas algo rigorosamente desenvolvido com base em leis da física existentes. Nas estações espaciais e nas naves, a gravidade é artificialmente criada através de força centrífuga (algo semelhante ao que vemos na estação espacial de 2001: Uma Odisseia no Espaço) e aceleração, respectivamente.

A simulação de gravidade nas naves é a parte mais interessante, pois é atrelada ao sistema de aceleração mais fodástico (e plausível) na ficção científica: o Epstein Drive.

As naves em The Expanse são verticais, com o piso posicionado de forma perpendicular aos motores, e têm a aceleração medida em Gs (sendo 1G equivalente a 9.81 m/s²). Na metade do trajeto, como não existem freios no espaço, a nave precisa dar uma guinada de 180º e seguir o restante do percurso de ré. Para viagens mais urgentes (que exigem uma aceleração maior), todos os tripulantes da nave devem se deitar e injetar um soro para evitar que seus órgãos sejam esmagados pela gravidade resultante da aceleração.

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A Donnager, uma nave marciana.

Além dos desdobramentos biológicos e científicos desse novo horizonte alcançado pela humanidade, a estrutura cultural e política também foi bastante abalada. No momento que a série se inicia, há três grandes facções que movimentam o cenário geopolítico do sistema solar no século XXIV:

  • Terra: após a colonização de Marte, o dano ao ecossistema terrestre atingiu níveis críticos e a humanidade finalmente teve noção da própria insignificância frente à nova fronteira espacial. Assim, os Estados Nacionais foram dissolvidos e a ONU (Organização das Nações Unidas), originalmente criada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial, evoluiu para se tornar o governo unificado do planeta. Utilizando a Lua como seu principal pólo industrial, a ONU concentrou seus esforços em restaurar o equilíbrio ecológico e aprimorar a viagem espacial;
  • Marte: originalmente uma colônia de povoamento das Nações Unidas durante três gerações, Marte conquistou sua autonomia após um longo período de tensões diplomáticas, ao negociar a troca do conhecimento necessário para produzir o Epstein Drive (inventado por um marciano) em troca da própria independência. Atualmente o planeta é governado pela Martian Congressional Republic, um regime parlamentar com uma estrutura de comando fortemente militarizada, e tanto seu exército quanto sua frota espacial compensam o menor número com tecnologia extremamente avançada em relação aos terráqueos;
  • Cinturão: um imenso anel de asteroides, localizado entre as órbitas de Marte e Júpiter, que é utilizado como colônia de extração das duas superpotências humanas. Os Belters, mais do que qualquer um dos grupos humanos que cresceram sob a gravidade dos planetas internos, se distinguem dos demais devido às suas mutações biológicas e aos traços culturais desenvolvidos a partir de costumes adotados pelos mineradores que originalmente colonizaram o Cinturão. Pouco antes dos eventos da série, a população Belter, cansada de ser explorada e oprimida pelos planetas internos, deu luz à Outer Planets Alliance (OPA), um movimento que busca independência do Cinturão e é frequentemente rotulado como terrorista devido aos seus métodos.
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Um militante da OPA, que busca unir o povo de Ceres contra a opressão dos “internos”.

Além dessas figuras centrais, o sistema solar em The Expanse também abriga gangues de piratas espaciais e a igreja Mórmon, que está investindo todos os seus recursos em uma gigantesca nave-colônia para embarcar em uma jornada de 100 anos rumo a um novo sistema solar. E a primeira temporada está apenas arranhando a superfície do épico no qual a série eventualmente se transforma.

Sobre o Enredo

A história de The Expanse começa, assim como em Game of Thrones, apresentando um mistério a ser solucionado.

Uma garota flutua em gravidade zero em um pequeno aposento – possivelmente em uma nave espacial –, gritando por ajuda enquanto um alarme soa anunciando o início de uma batalha. Vestindo um traje espacial com os nomes JULIE e SCOPULI escritos nos rótulos, a garota, que pouco depois é revelada como Julie Mao, arromba a porta da sala após várias tentativas e se depara com um corredor deserto.

Ativando suas botas magnéticas para se manter firme no ambiente sem gravidade, Julie Mao vaga pelos corredores em busca de qualquer sinal de vida. Onde antes ouvira uma agitação resultante do alarme, agora só via manchas de sangue próximas a uma comporta de ar, e um tímido sinal de S.O.S. vindo dos aposentos da engenharia. A garota se assusta com um traje vazio que flutua pelo corredor, incerta se alguma pessoa viva estivera usando aquele traje logo antes, enquanto se dirige à baia de engenharia para atender ao chamado de socorro.

Quando chega na baia de engenharia, um enorme aposento que abriga um gerador igualmente gigantesco, ela se depara com uma visão aterradora: uma massa sem forma definida envolve o gerador como um parasita, emanando um brilho instável de coloração azulada. A misteriosa entidade também envolve um homem (possivelmente tripulante da nave), que desesperadamente luta por sua vida enquanto é sugado para dentro do vórtice luminoso e disforme.

A garota, confrontada com essa perturbadora manifestação do desconhecido, consegue fazer apenas uma coisa: gritar.

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Julie Mao (Florence Faivre), a McGuffin da primeira temporada.

E esse é o pontapé inicial para a história de intrigas e mistérios que The Expanse nos apresenta em sua primeira temporada. A trama é desenvolvida sob múltiplas perspectivas que exploram desdobramentos desse mesmo incidente, e as consequências dos eventos apresentados em um ponto de vista reverberam de forma perfeita nos outros, mesmo que os protagonistas não interajam diretamente entre si até o finalzinho da temporada. Nesses primeiros 10 episódios, acompanhamos três protagonistas, aqui listados na ordem em que são introduzidas no primeiro episódio:

  • Josephus “Joe” Miller (Thomas Jane):          um detetive Belter que trabalha para a firma de segurança terráquea Star Helix em Ceres, sendo considerado pelos demais Belters como um traidor do próprio povo. A história protagonizada por Miller envolve uma busca por Julie Mao (Florence Faivre), a garota que apareceu no prólogo, e remete ao film noir e às histórias de detetive hard-boiled (minha mãe inclusive falou que ele é tipo o Dick Tracy, só que mais sombrio). O Joe Miller que conhecemos no início da série é cínico e corrupto, mas isso muda conforme ele vai se envolvendo na investigação e redescobrindo seu próprio senso de dever.
  • Chrisjen Avasarala (Shohreh Aghdashloo):  uma inescrupulosa mestra do jogo político, essa personagem provavelmente vai fazer os fãs de Game of Thrones se sentirem em casa. Através de uma manipulação cuidadosa de todos ao seu redor, Chrisjen alcançou o cargo de Subsecretária Adjunta das Nações Unidas sem precisar ser eleita e, devido à história de sua família, ela nutre uma grande desconfiança dos marcianos e dos Belters. Em seu arco, Chrisjen descobre que alguém está ativamente trabalhando para iniciar uma guerra entre as grandes facções humanas, e precisa utilizar as habilidades e relações que cultivou ao longo de sua carreira política para descobrir a identidade do responsável;
  • James “Jim” Holden (Steven Strait):            nascido de uma combinação genética entre oito pais diferentes, Jim é um ex fuzileiro da marinha terráquea que trabalha na traineira de gelo Canterbury no início da série, até que sua vida pacífica é completamente abalada após eles atenderem um chamado de socorro suspeito. A história protagonizada por Holden é a que mais se assemelha a uma space opera tradicional, pois é uma aventura que passa por vários locais diferentes e envolve algumas das melhores batalhas da série, circunscrevendo um arco onde Jim, inicialmente esquivando-se de grandes responsabilidades e conflitos, é forçado a amadurecer tardiamente e, eventualmente, assumir um papel de liderança (assim como um outro “Jim” famoso na ficção).
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Os três protagonistas, da esquerda pra direita: Miller (Jane), Avasarala (Aghdashloo) e Holden (Strait).

Nenhum dos protagonistas é essencialmente bom ou mau, e todos são heróis em suas próprias histórias. Cada personagem recebe apenas uma parte das pistas necessárias para solucionar o mistério central apresentado no prólogo, e interpreta essas pistas na luz dos próprios ideais. Isso propicia diversos momentos de ironia dramática, além de conflitos acalorados quando dois pontos de vista se convergem no clímax.

Além das perspectivas principais, conhecemos as histórias de alguns personagens secundários que virão a desempenhar um maior papel na série futuramente. Esses “interlúdios” são uma característica permanente da série e podem ter ou não relação direta com a trama principal, mas fornecem vislumbres tanto do passado quanto do futuro de The Expanse.

Finalizando

A primeira temporada de The Expanse não é perfeita. Como acontece com toda série de TV ambiciosa que tenta ser o próximo Game of Thrones, seus primeiros episódios ocasionalmente sofrem com ideias grandes demais e alguns elementos que não se conectam direito. Apesar desses defeitos, é um ponto de entrada para um universo de ficção científica incrivelmente denso e dotado de incomparável realismo na apresentação de seus conceitos.

Como eu falei antes, essa temporada apenas arranha a superfície do potencial que The Expanse viria a realizar posteriormente, e vou cobrir esses elementos com mais detalhes quando chegar a hora de analisar as temporadas 2 e 3 da série.

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Um esquadrão de fuzileiros marcianos (esses são os soldados rasos, você não viu nada ainda).

A propósito, por que não combinamos algo? Mês que vem, na minha análise da segunda temporada, serão necessários spoilers dos eventos retratados nessa primeira temporada para que a discussão faça algum sentido. Então vamos deixar combinado: Se você ainda não assistiu The Expanse, faça um favor a si mesmo(a) e assista antes de voltar para a próxima parte da retrospectiva.

As três temporadas lançadas até o momento encontram-se disponíveis na Amazon Prime Video, e provavelmente vão prender sua atenção instantaneamente se você for chegado em ótimas produções de ficção científica, pois consigo dizer com tranquilidade que essa é uma das melhores obras televisivas do gênero.