Studio Ghibli – Conheça a origem do aclamado estúdio

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É difícil introduzir um texto sobre o Estúdio Ghibli. No ocidente e no oriente, um dos elementos mais universalmente reconhecidos da cultura japonesa são suas animações, chamadas genericamente de anime.

Dentre essas animações, podem se destacar vários sucessos de massa como Pokémon e Dragon Ball Z, que movem legiões de fãs até hoje. Apesar disso, é curioso notar como as obras mais universalmente aclamadas dentre esse vasto universo de animes vêm consistentemente do mesmo estúdio e, curiosamente, podem ser atribuídos a um homem só. Hayao Miyazaki, diretor de animações e cofundador do Estúdio Ghibli.

STUDIO GHIBLI

Em meio a esse fato, não podemos deixar de nos perguntar: como surgiu o Estúdio Ghibli e o que explica o seu sucesso quase universal? O que motivou Miyazaki a lidar com os temas que costuma lidar em seus filmes? Vamos tentar elucidar todas essas questões nesse artigo, onde discorreremos sobre a história de um dos maiores estúdios da história da animação japonesa e um dos principais responsáveis por isso.

Guerra, doença e animes: A história de Hayao Miyazaki

Hayao Miyazaki nasceu no ano de 1941 na cidade de Akebono-cho, em Tóquio. O seu pai, Katsuji Miyazaki era dona da fabricante de arenovas Miyazaki Aviões, que fabricava peças para aviões durante a Segunda Guerra Mundial. Esse negócio, essencial durante esse período de guerra, ajudou bastante no sustento da família de Hayao, mas a guerra teve suas consequências sobre ele.

Em 1944, quando ele tinha apenas 3 anos de idade, Miyazaki e sua faília evacuaram para Utsunomiya. Em julho de 1945, quando ele tinha apenas 4 anos, essa cidade foi bombardeada e sua família fugiu para Kanuma. O bombardeio causou uma impressão duradoura em Hayao, como o próprio explicou em uma matéria para a revista japonesa Kinema Jumpo.

De 1947 a 1955, sua mãe, uma dona de casa, sofreu com uma tuberculose. Passou os primeiros anos no hospital, mas pôde retornar para sua casa e continuar o tratamento. Sua mãe era uma mulher intelectual e rígida, que frequentemente contestava as “normas aceitas pela sociedade”.

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Logo de cara, é possível notar que a infância de Miyazaki foi marcada por temas que são frequentemente abordados em seus filmes produzidos pelo Estúdio Ghibli. Desde o tema da guerra, presente em filmes como O Castelo Animado e Nausicaä do Vale do Vento, como a “doença da alma”, como a tuberculose era chamada, abordada em Vidas ao Vento. Não é de se estranhar a grande carga emocional e ética dos filmes da Ghibli dirigidos por Hayao.

Durante a infância e adolescência, Hayao queria se tornar um mangaka. Ele tinha muita dificuldade para desenhar pessoas e passava muito tempo desenhando aviões, tanques e navios de batalha por diversos anos. Miyazaki cita como suas principais influências nessa época os artistas Tetsuji Fukushima, Soji Yamakawa e Osamu Tezuka. Ele acabou destruindo boa parte do seu trabalho inicial por achar parecido demais com o estilo de Tezuka, julgando que aquilo prejudicava seu crescimento como artista.

Durante o terceiro ano do ensino médio, o interesse de Miyazaki em animação foi despertado quando ele assistiu A Lenda da Serpente Branca, um grande clássico da animação japonesa. Miyazaki se apaixonou pela heroína principal e afirma que ela deixou uma impressão muito marcante nele.

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Na universidade, Miyazaki frequentou um clube de pesquisas em literatura infantil e, em seu tempo livre, ele visitava seu professor de artes da escola e desenhava em seu estúdio, onde os dois bebiam e conversavam sobre política e a vida em geral. Miyazaki se formou na universidade em 1963, como bacharel em Ciências Políticas e Economia.

A obra de Hayao Miyazaki e a Fundação do Estúdio Ghibli

Após sua formatura, Miyazaki trabalhou por algum tempo em diversos estúdios de animação, como a Toei Animation, considerado por muitos um dos mais importantes da história da animação japonesa e responsável por clássicos como Dragon Ball Z, Sailor Moon, Digimon e One Piece. Foi na Toei Animation em que Miyazaki conheceu sua futura esposa, Akemi Ota e não menos importante, onde conheceu Isao Takahata, que viria a ser seu grande amigo e cofundador dos Estúdios Ghibli.

Enquanto ele trabalhava na Telecom Animatin Film ele lançou um mangá que viria a ser um de seus maiores sucessos, Nausicaä do Vale do Vento. O mangá foi lançado entre os anos de 1982, quando ele saiu do estúdio Telecom até 1944.

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Em 1984, Miyazaki fundou seu próprio estúdio pessoal, chamado Nibaraki. Com o sucesso de Nausicaä do Vale do Vento, Yasuyoshi Tokuma, o fundador da Tokuma Shoten, encorajou Miyazaki a adaptá-lo para os cinemas. Hayao concordou com a condição de que ele seria o diretor do filme.

Miyazaki trabalhou com Isao Takahata na produção do filme que acabou se tornando o primeiro projeto do que viria a ser o Estúdio Ghibli. O filme foi produzido no estúdio Topcraft e foi lançado em março de 1984, se tornando um sucesso de público e crítica. Para muitos, esse é um momento crucial na carreira de Hayao Miyazaki e a fundação de sua reputação como animador e diretor.

Tanto o filme como o mangá trazem a tona os diversos elementos de inspiração de Hayao Miyazaki. O tema da guerra é fortemente abordado nesse filme e Miyazaki afirmou ter se inspirado no envenenamento de mercúrio na baía de Minamata e em como a natureza respondeu e se adaptou a um ambiente envenenado para criar o mundo poluído do filme.

O filme também foi extremamente elogiado pela forma positiva de retratar a protagonista feminina, algo que certamente reflete as influências de Hayao. Muitos críticos disseram que Nausicaä do Vale do Vento possui temas anti-guerra e feministas, mas o próprio Hayao afirma que seu único interesse é entreter.

Após o sucesso do filme, Miyazaki, Takahata, Tokuma e Toshio Suzuki fundaram os Estúdios Ghibli em 1985, com financiamento da Tokuma Shoten. O primeiro filme do estúdio, O Castelo no Céu (1986), foi criado com a mesma equipe de Nausicaä. Quando do lançamento do filme, ele se tornou o filme mais lucrativo do ano nos cinemas japoneses.

O castelo no céu – Um verdadeiro conto de fadas

O nome do estúdio, Ghibli, faz referência a ondas de vento no deserto do Saara que possuem o mesmo nome. A ideia dos fundadores do estúdio era, como uma forte onda de vento, trazer novos ares para a indústria da animação.

Após o sucesso inicial de Castelo no Céu, Miyazaki e Takahata começaram a dirigir diversos filmes lado a lado, o que inicialmente criou uma certa confusão no estúdio. Em 1988, Miyazaki começou a produzir Meu Vizinho Totoro, enquanto Takahata produzia Túmulo dos Vagalumes. A produção simultânea foi caótica para os artistas do estúdio, uma vez que eles trocavam de projeto constantemente.

Meu Amigo Totoro (1988) - Miguel Serpa - Medium

Apesar da dedicação, nenhum dos dois filmes foi um sucesso comercial. Apesar disso, Totoro acabou se tornando o mascote da empresa e foi um sucesso de merchandising, com pelúcias e outros produtos que vendem muito bem até hoje. O filme é considerado um clássico e até hoje é muito bem visto pela crítica.

Em 1987, o Estúdio Ghibli adquiriu os direitos para produzir uma adaptação cinematográfica do livro “O Serviço de Entregas da Kiki”, de Eiko Kadono. nesse momento, Miyazaki estava trabalhando em Totoro, o que o impediu de trabalhar como diretor. Sunao Katabuchi e Nobuyuki Isshiki foram escolhidos para produzir o filme, mas Miyazaki não estava satisfeito com o primeiro projeto e acabou se tornando o diretor do filme.

The 'good witch' who wrote Japanese classic Kiki's Delivery ...

A produção de O Serviço de Entregas da Kiki não foi tão simples. Kadono não estava feliz com as diferenças entre o livro e o roteiro para o filme. Miyazaki e Suzuki visitaram Kadono e convidaram-na para visitar o estúdio, onde ela acabou permitindo que o projeto continuasse.

O filme era para ser originalmente um especial de 60 minutos, mas a entrada de Miyazaki no projeto acabou expandindo-o e ele foi transformado em uma longa-metragem. O filme chegou aos cinemas em 1989 e foi o filme mais bem-sucedido comercialmente no Japão aquele ano, consolidando o Estúdio Ghibli como um sucesso comercial.

A Cultura de Trabalho no Estúdio Ghibli

Os filmes de Hayao Miyazaki são normalmente produzidos sem um script. Ele começa a produção com uma ideia geral da história que quer contar e cria storyboards com ilustrações que ele mesmo faz a partir disso. Isso significa que qualquer mudança precisaria de uma repetição desse processo.

O processo de produção das animações do Estúdio Ghibli é altamente arriscado. Uma mudança no projeto requer uma grande quantidade de retrabalho e o processo acaba se tornando lento e meticuloso, mas o sucesso do estúdio ao longo dos anos e a consistência com que eles lançam clássicos mostra que sim, vale a pena.

Ao longo do tempo, a técnica de trabalho nunca foi questionada e é fácil ver que toda a liberdade criativa de Miyazaki compensou. Por anos, o Estúdio Ghibli lançou diversos clássicos e isso tem muito a ver com a maneira como Hayao encara o trabalho criativo.

Studio Ghibli and the representation of work – Democracy To Come

Em um documentário, numa cena onde Miyazaki fala com funcionários do estúdio, ele afirma que o objetivo principal do estúdio nunca foi o sucesso comercial e sim fazer o que gostam. Ele não pode garantir a ninguém um emprego estável ou riqueza, mas pode garantir que no estúdio eles podem criar filmes interessantes e dar margem a sua criatividade. Se alguém não estivesse gostando de trabalhar no Estúdio Ghibli, era melhor sair. Porque segundo ele mesmo, é isso que ele faria.

O mais irônico é que, não buscando o sucesso comercial, foi como o estúdio se tornou o que é hoje. Fazendo o que gosta e com o objetivo de sempre criar bons filmes antes de trazer prosperidade para a companhia, foi como Hayao Miyazaki foi reconhecido como o gênio artístico que é, e como o Estúdio Ghibli se tornou a “fábrica de clássicos” que é hoje em dia.

Esperamos que esse artigo tenha sido informativo e interessante. Há muito mais a falar sobre o Estúdio Ghibli e isso poderá ser tratado no futuro. Caso você tenha se interessado pelo estúdio, todos os filmes estão disponíveis na Netflix. Nessa lista, nós recomendamos alguns filmes para conhecer bem o estúdio.

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