Carole & Tuesday: Sonhos e Ritmos em Sincronia | Review

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Parafraseando a introdução do meu review de Yesterday, existem OUTRAS duas coisas que eu amo e não tenho a menor vergonha de admitir: musicais e cyberpunk. Há alguns dias, me deparei com esse anime novo na Netflix chamado Carole & Tuesday. Como não tinha mais nada pra assistir se tratava de um anime musical que não adere à fórmula dos idol animes, optando por um estilo que remete aos filmes do John Carney (musicais onde os números são apresentados de forma diegética, como parte do ambiente fictício onde a história se passa, ao invés de levarem a trama para um universo paralelo onde todo mundo sabe dançar), e ainda por cima situado em um universo cyberpunk, fiquei bastante intrigado.

Ok, daí fui pesquisar no google sobre esse estranho achado e descobri que se trata de uma produção da Bones em comemoração ao aniversário de 20 anos do estúdio e dirigida em conjunto pelo mestre Shinichirō Watanabe (sim, AQUELE Shinichirō Watanabe) e por Motonobu Hori (mais conhecido por seu trabalho em “Beck” e na trilogia de filmes “Berserk: Ougon Jidai-hen”). 

Então é isso, pessoal. Tendo em vista essas informações, eu cheguei à conclusão sensata de que precisava urgentemente de assistir tudo de uma vez e logo em seguida escrever um textão pedante review sobre.

Da esquerda para a direita: Tuesday, Carole e o empresário Gus Goldman

A série ainda está sendo exibida no japão, então este review irá cobrir apenas os 12 primeiros episódios lançados na Netflix (a próxima metade será analisada assim que for disponibilizada).

Carole & Tuesday é situado no planeta Marte em um futuro distante, onde a indústria fonográfica é não muito diferente dos dias de hoje dependente de robôs para compôr e produzir músicas de sucesso. Da mesma forma que o jazz corre nas veias de Cowboy Bebop e Samurai Champloo emana a essência destilada do hip-hop, Carole & Tuesday é uma ode de Watanabe à música pop americana.

O aspecto mais interessante da ambientação, no entanto, é a forma como Watanabe e Hori constroem uma variação inusitada da estética cyberpunk, concentrando os questionamentos inerentes ao estilo (como as consequências de um domínio corporativo e a crescente dependência que os seres humanos vêm desenvolvendo pela tecnologia) no microcosmo da produção cultural de uma sociedade.

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A cidade de Alba, a distopia cyberpunk mais limpinha que você vai ver hoje

Dentro dessa distopia musical, Carole & Tuesday conta a história da amizade entre as duas personagens-título: Carole, uma garota que vive sozinha na metrópole marciana de Alba, pulando de emprego em emprego enquanto tenta segurar as pontas na cidade grande; e Tuesday, uma garota nascida em uma família rica que foge de casa rumo a Alba inspirando-se na história de vida da Cyndi Lauper. As duas protagonistas se encontram por acaso e imediatamente criam um vínculo graças ao sonho que ambas possuem: se tornar cantoras de sucesso.

Os primeiros sete episódios seguem uma estrutura bem episódica e slice-of-life, servindo para introduzir o sub-plot de Angela Carpenter, uma antiga atriz mirim que copiou o penteado do Spike está determinada a se reinventar como uma artista pop, e o elenco de apoio composto por personagens variados e interessantes como o empresário Gus Goldman e o engenheiro de som Roddy.

Neste primeiro momento, a narrativa possui um tom mais leve e acompanha as desventuras da dupla principal em suas diversas tentativas (muitas vezes frustradas) de atrair atenção para suas músicas e para si mesmas.

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Essa imagem nem precisa de legenda

A partir do oitavo episódio, a trama dá uma guinada mais serializada, com um arco envolvendo um show de talentos estilo “The Voice”, e assim as coisas vão seguindo até o último episódio desse lote. Angela, que inicialmente parecia uma intrusa na história da dupla de protagonistas, se torna uma personagem muito mais interessante e passa a assumir um papel como rival de Carole e Tuesday nessa etapa da série, e os episódios passam a abordar a sátira sob um ângulo mais sombrio em comparação com a leveza dos sete primeiros.

Essa história é toda contada com o auxílio da direção magistral de Hori e Watanabe, que já tem um histórico de adotar sensibilidades e técnicas ocidentais em seus trabalhos, além da animação do Studio Bones e das canções originais, todas compostas pelo músico canadense Mocky, que enriquecem a caracterização e os arcos dramáticos vividos pelos personagens assim como nos melhores musicais do cinema e do teatro. 

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Still de um dos belos números musicais da série

Em Carole & Tuesday você não vai ver uma predominância de longos diálogos ou cenas estáticas como de costume em animes produzidos para a televisão, pois uma esmagadora maioria das cenas é dotada dessa qualidade dinâmica e fluida graças um trabalho maravilhoso dos animadores, que empregam rotoscopia e CGI para engrandecer os excelentes números musicais e complementar o tema de que a cidade de Alba é um lugar vivo e pulsante onde sonhos residem e esperam para serem encontrados.

Concluindo, resta dizer que mal posso esperar para a Netflix lançar o próximo lote de episódios e que eu realmente desejo que Carole & Tuesday se torne tão influente na comunidade dos fãs de anime quanto as produções anteriores de Watanabe o foram, pois se trata de uma obra fenomenal em todos os aspectos, que facilmente entra no top 10 entre os animes de 2019 e merece ser apreciada como uma obra de arte ao longo dos anos que estão por vir.