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‘Eu sei que sempre peço pela lua’: Fruits Basket e a maldição da família

Recentemente, foi divulgado o trailer da segunda temporada da nova adaptação animada do mangá Fruits Basket – a data de lançamento está previsa para o dia 6 de abril deste ano.

O trailer começa seguindo a continuidade da aparente leveza romântica da primeira temporada. Tohru continua sendo a garota sorridente e gentil (e, pessoalmente falando, rasa como personagem, o que é uma pena em meio a um elenco tão profundo e complexo como ao qual ela faz parte) que é e tem sido desde o primeiro momento em que a conhecemos. As brigas entre Yuki e Kyo estão presentes, como o estão os novos componentes do Zodíaco da família Sohma que surgiram para compor o enredo.

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Os dilemas que nos foram apresentados nos últimos 24 episódios são reiterados; Kyo continua sendo excluído do círculo da família por ser possuído pelo espírito do gato, Tohru continua carregando em si o luto e a necessidade de acreditar nas pessoas que lhe foi ensinada pela mãe que perdeu, e o mistério do que exatamente constitui a maldição dos zodíacos perpetua.

É tudo aparentemente leve e casual, como o próprio Fruits Basket em si se mostra inicialmente. O mangá foi criado em 1999, e foi uma das primeiras obras shoujo a incorporar muitos dos conceitos que são repetidos e utilizados até hoje no gênero, mais de 20 anos depois.

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O triângulo amoroso, com um personagem estereotipicamente cavalheiresco e um denominado como um tsundere, sendo um dos exemplos mais pertinentes de aspectos originais da obra que influenciaram toda uma série de enredos nas duas décadas que se seguiram desde então.

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No entanto, há algo de especial em Fruits Basket – algo que, apesar de eu ser uma pessoa que não tem qualquer amor pelo gênero, conseguiu me prender. Algo que está presente em momentos da primeira temporada, em alguns episódios, de maneira mais evidente ou menos; algo que, no trailer da segunda temporada, é retratado de maneira brilhante.

Na primeira metade do trailer, temos cenas rápidas de momentos da vida dos personagens com Tohru – de maneira peculiar e tocante, temos um monólogo interno de Yuki. Yuki, o príncipe do triângulo amoroso da obra e o garoto possuído pelo espírito do rato, talvez seja uma das pessoas mais misteriosas do enredo; apesar de termos contato com ele desde o começo, não sabemos de nada sobre seu passado, ou sobre o trauma que parece carregar consigo.

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O trailer nos dá a representação de um sonho de Yuki, afirmando que, enquanto estava naquele quarto escuro, sonhava com pessoas calorosas, com uma vida brilhante. Isto sobreposto a frames dos personagens brincando e se divertindo, e uma música crescendo ao fundo, até que –

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Tela negra. Música cortada. Apenas uma voz, cortante e sádica, dizendo, em japonês: たのしい そだ ね?

Parece que estão se divertindo, não é?

A partir daí, há a reintrodução do personagem que eu considero o núcleo real e verdadeiro do que faz Fruits Basket ser especial: o antagonista Sohma Akito, o patriarca da família.

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Ouvimos falar sobre Akito durante boa parte da primeira temporada antes de sua introdução oficial. Além das cenas misteriosas em que ele e Shigure interagem, que são raras e peculiares e promovem mais perguntas do que qualquer tipo de resposta, conhecemos ele de ouvir falar, como o chefe dos Zodíacos. Mais notadamente, como aquele que, em uma de suas explosões de raiva, deixou Hatori cego de um olho, e depois mandou que apagasse as memórias da mulher que o amava e com quem queria se casar. Como aquele ao qual todos devem obediência.

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Objetivamente, sabemos muito pouco sobre ele, além do fato de ter disposição frágil e propensa a adoecer, e, por isso, passar muito tempo dentro da casa principal da família Sohma; sabemos que tem um temperamento difícil e explosões de raiva e ciúme que chegam à violência; sabemos que é extremamente possessivo com aqueles que considera que pertencem a ele.

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Sua primeira aparição com a protagonista é súbita e inesperada, por um mero capricho dele, e até mesmo Tohru se assusta ao conhecê-lo, por achá-lo muito jovem, muito bonito, e aparentemente muito gentil. Ele parece amigável para com ela; introduz-se de maneira formal, comenta que a achou muito feminina e doce, e pede que cuide de Yuki e dos outros.

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Em paralelo, temos a reação de Yuki à notícia de que Akito está aqui, dada por Momiji, o garoto possuído pelo espírito do coelho.

A reação de Yuki é a mais clássica e perfeita representação do que a psiquiatria e a psicologia definem como um gatilho. (Gatilho sendo, neste caso, evento ou circunstância externa que pode produzir sintomas emocionais ou psiquiátricos muito desconfortáveis, como ansiedade, pânico, desânimo, desespero ou diálogo interno negativo.) A mera menção da presença de Akito o faz entrar em pânico; ele corre, desesperado, para encontrá-lo, para saber se Tohru está a salvo – aterrorizado, ele pergunta, “O que você fez com ela?

A introdução oficial de Akito marca o momento em que todos os aspectos mais obscuros de Fruits Basket são trazidos à tona.

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A primeira metade do anime traz a leveza romântica que se espera de um shoujo – no entanto, a presença de Akito nos relembra daquilo que Yuki sempre temia; de que essa leveza e felicidade são temporárias.

Tudo o que Tohru, Yuki e Kyo construíram para si no início de Fruits Basket nada mais é do que um conjunto de sonhos, ilusões passageiras que desaparecem assim que Shigure deliberadamente, e por nenhum motivo aparente, chama a atenção do patriarca para o que tem acontecido em sua própria casa, no local em que Tohru construiu para si o começo daquilo que poderia ser sua verdadeira felicidade, na casa em que Yuki e Kyo sempre se sentiram seguros e distantes daquilo que tanto os oprime na família à qual fazem parte.

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(Vejam, portanto, meu uso da palavra antagonista para definir Akito – pois, como aprendi ao ler o mangá, o verdadeiro vilão do enredo de Fruits Basket pode ser algo totalmente diferente, algo que não suspeitamos por estarmos frequentemente horrorizados com as ações violentas e psicóticas de Akito, e que só nos é revelado mais tarde.)

Assim que Akito genuinamente percebe a existência de Tohru como alguém que pode ameaçar sua autoridade e controle absolutos, assim que ele fala, “Por que não ensinar-lhes uma lição?”

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Isto retoma o questionamento que existe desde o início, e que é, por vezes e de maneira proposital no enredo, deixado de lado, para nos dar uma falsa sensação de segurança. Como se, por não prestarmos atenção a ele, ele irá desaparecer. O que exatamente é a maldição da família Sohma?

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E, além disso, como a própria Tohru pergunta ao final do trailer: Quem é Akito?

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Inconsciente ou conscientemente, ao longo da história começamos a fazer como a protagonista: sabemos o conto dos animais do Zodíaco, sabemos quem são e quantos são, e começamos a ticar na lista aqueles que nos são introduzidos. Conhecemos o coelho, e o cachorro, e o gato e o rato, e o tigre e a ovelha, entre outros – e em nossa mente contamos para ver quantos faltam, quem nos falta conhecer.

Quem, dentre estes, é Akito? Por que ele é especial? Por que os outros lhe devem uma obediência que parece ir além do senso natural e do livre-arbítrio que deveriam possuir como seres humanos?

Yuki diz, em um momento, “escuta-se sempre sobre a lei do mais forte. Mas até aqueles do Zodíaco são humanos, e não animais.”

A coisa que seja, talvez, especial sobre Tohru em Fruits Basket é que ela é uma força externa aos Zodíacos. Ela não faz parte do clã dos Sohma – ela não tem nenhum papel pré-definido a seguir em uma história e um ciclo que se repetem há séculos, e que estruturam, até certo ponto, a verdadeira essência de todos os outros personagens.

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Ela não conhece os detalhes da maldição, da conexão que mantém todos juntos, que estabelece a maneira como eles interagem entre si. É por conta dos Sohma que Kyo não é convidado para os jantares de Ano-Novo, que são a maior celebração da família; é por conta dos Sohma que ele é tratado como um forasteiro e exilado.

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É por conta da maldição que Hatsuharu é humilhado pelos outros e guarda rancor de Yuki até conhecê-lo, e por conta dela que Momiji é obrigado a viver longe dos pais e da irmã, que não lembra nem mesmo de sua existência.

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É possível (e até provável, em minha análise) que Fruits Basket seja muito mais sobre os Sohma como família e como isso afeta cada um dos Zodíacos do que sobre Tohru e seu envolvimento romântico com os outros dois terços do triângulo amoroso. A maldição da família é o verdadeiro cerne do enredo, e a partir dela se desenrolam as diversas histórias que transformam cada um dos personagens em personalidades complexas e cativantes, e, frequentemente, muito mais profundas e melancólicas do que parecem a princípio.

Ainda assim, por ser inerentemente boa, por querer o bem daqueles com quem se importa, e talvez por possuir uma ingenuidade que não a permite ter noção da complexidade da situação em que todos se encontram, ela decide tomar para si a responsabilidade de quebrar a maldição, o que quer que ela seja, o que quer que ela signifique.

E, no oposto, o antagonista, aquele que age contra as intenções de Tohru – Akito, que ama a todos eles, e sabe que sempre pede pela lua, e não está disposto a deixar que um único deles deixe o seu lado. E que está disposto a fazer qualquer coisa para manter todos do Zodíaco, que considera seus por direito e lei, consigo.

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Custe o que custar.