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Shounen e a representação de trauma | Análise

Um dos aspectos mais peculiares do mundo dos animes é a sua imensa diversidade.

Existem gêneros dos mais variados, e é possível encontrar títulos absolutamente opostos dentro de um mesmo mundo.

Dentre esses inúmeros gêneros, dois dos mais comentados e amados são os denominados shounen e shoujo – e, de maneira peculiar, são também dois dos mais polarizados, por aparentemente não possuírem nenhuma semelhança entre si.

Observa-se isso nos próprios nomes: shounen (少年) significando garoto, shoujo (少女) significando garota.

Essencialmente falando, no entanto, a maior diferença presente quando se compara os animes e mangás de cada um desses gêneros encontra-se na maneira como cada um retrata emoções. 

Admito que sou culpada de não ser extrema conhecedora de shoujo – meu interesse sempre foi voltado para shounen e seinen, e a maior experiência que possuía até ano passado no gênero se limitava ao clássico e brilhante Kimi no na wa.

No entanto, recentemente me foi recomendada a adaptação em anime de 2019 do mangá Fruits Basket, originalmente publicado em 1999 pela mangaká Natsuki Takaya – e o que me chamou a atenção nessa obra foi, além de seus personagens cativantes e carismáticos, a maneira como a autora retrata trauma e experiências traumáticas. 

Shoujo é, acima de tudo, um gênero sobre emoções humanas e como as pessoas interagem entre si, tanto seus aspectos bons quanto ruins – ao contrário de shounen, onde o foco encontra-se em ações e arcos.

Em Fruits Basket, devido a seu enredo complexo e profundo, tem-se a constante representação de cenas perturbadoras, mas não apenas disso – tem-se, ainda, e mais notadamente, o retrato de como essas situações interferem na vida dos personagens posteriormente a um fato ocorrido.

Em um quadro pequeno, porém marcante, o personagem Yuki Sohma é mostrado imóvel e tremendo após ser forçado a confrontar a pessoa responsável por seu maior trauma de infância. 

trauma

Assumidamente, Fruits Basket é uma obra particular no mundo do gênero shoujo, visto não se prender a um típico enredo escolar romântico e à quantidade de situações estressantes enfrentadas pelos seus personagens. 

O trailer da segunda temporada, anunciada para este ano, demonstra bem o lado perturbador da história da família Sohma.

Então, o que acontece se analisarmos a representação de trauma em um gênero essencialmente centrado em situações estressantes? 

A verdade é que animes e mangás shounen, na sua grande maioria, pecam no que diz respeito às emoções.

Apesar disso, existem obras que mantêm sua intensidade e seus enredos marcantes e vívidos (como é característico do gênero) e conseguem, ao mesmo tempo, dar a seus personagens o devido espaço para sentir e reagir a situações obviamente traumáticas.

Essas obras, não coincidentemente, tendem a ser as obras mais louvadas e amadas pelos fãs da cultura japonesa em geral – e acredito que isso se deva ao fato de que, como seres humanos, somos cativados por representações brilhantes de emoções e sentimentos. Em especial, gostaria de comentar sobre algumas obras em específico. 

One Piece é o maior shounen de todos os tempos e, eu diria, uma das maiores obras da história humana, estando no mesmo nível de monstros da literatura como Fiódor Dostoiévski e Gabriel García Marquez.

Isso se deve a uma série de motivos, desde à genialidade artística de Eiichiro Oda até ao fato de que o enredo nos atrai em uma das coisas mais inerentes à natureza humana: o desejo profundo de explorar o desconhecido.

Um desses motivos, no entanto, é a capacidade de Oda de dar o devido peso emocional a situações traumáticas. É possível citar várias, mas nessa análise darei foco a uma das mais comentadas e marcantes dentre os 971 capítulos. 

A morte de Portgas D. Ace. 

Todo o arco da Batalha de Marineford é épico por si só – e, entretanto, a cena mais lembrada e mais impactante de todas é a morte de Ace, nos braços de Luffy, após suas últimas palavras: “Obrigado por me amarem”.

Não só temos uma declaração extremamente emocional e sentimental – suas últimas palavras sendo puramente de afeição e amor – como temos a reação de Luffy logo em seguida.

Ao contrário do que acontece na grande maioria dos animes e mangás shounen, em One Piece, Luffy não passa por uma explosão de fúria e poder quando perde seu irmão. Ele não se torna mais forte.

Ele desaba completamente. 

A situação da morte de Ace, depois de todo o arco da fuga de Impel Down, depois de descobrirmos toda a história que conecta os irmãos e o segredo sobre a infância de Ace, é tão traumática para Luffy que ele se vê incapaz de mesmo se mover – ele precisa ser carregado por todo o campo de batalha de Marineford e entregue, catatônico e à beira da morte ele próprio, aos braços de Trafalgar Law.

Incapaz de se defender, de lutar, ou de reagir, ele é retratado completamente devastado pela perda de uma das pessoas mais importantes do mundo para ele. 

Eiichiro Oda é genial no que diz respeito a representações de emoção, e isso se extende a todos os seus personagens – Nami chorando e pedindo ajuda para Luffy quando se vê impotente, Sanji fumando embaixo da chuva após ver seu amor renegado. 

one piece
one piece

One Piece é, sim, genial; e um exemplo do que é contar uma história, do que é permitir que personagens sofram e reajam de maneira humana a experiências traumáticas. Luffy sente dor, e sentimos dor com ele também – a reação do leitor é imediatamente correlacionada à do personagem com quem ele se identifica, e nós fomos traumatizados também pela morte de Ace. 

Mas existem maneiras mais sutis de retratar traumas e gatilhos, e, agora, voltemos nosso foco para Berserk

Berserk é considerado um dos melhores mangás de todos os tempos, e com razão. Kentaro Miura é um narrador absolutamente brilhante, e sua arte e seus retratos são fenomenais. É impossível passar pela experiência do Eclipse e não carregar aquilo consigo pelo resto da vida – é uma obra épica. Mas eu não vou falar sobre o Eclipse. Vamos analisar uma cena bem menor. 

Nessa cena, Guts está retornando de sua viagem – e Erica fala sobre um visitante que chegou, e que diz que conhece Guts. A descrição que ela faz é peculiar: “tão bonito que eu mal pude perceber que era um homem” – e, mais peculiar que isso, é este pequeno quadro da reação de Guts à fala dela.

Em apenas um quadro, podemos sentir o pânico, o gatilho, a maneira como Guts é imediatamente transportado de volta a todo o trauma que viveu com apenas uma única frase.

A reação dele não é de raiva imediata, como seria esperado considerando toda a sua jornada em busca justamente de vingança contra o homem que lhe roubou tudo; é medo. Medo porque ele está traumatizado, medo porque ele passou por coisas inimagináveis e elas ficaram na sua mente. O instinto humano de trauma. Ele lembra de Griffith, e é bombardeado de emoções, e todas elas estão retratadas nesse pequeno desenho de Miura. 

Outras obras possuem essa habilidade de serem imbuídas de sentimento juntamente com a intensidade e as batalhas e competições e arcos fortes característicos do gênero shounen ou seinen.

Neon Genesis Evangelion faz isso de maneira inesquecível devido à incrível atuação de voz de Megumi Ogata no papel de Ikari Shinji, de tal forma que seus gritos traumatizados ficam na mente daquele que assiste todas as situações que o personagem é forçado a enfrentar.

evangelion

Mais notadamente, a cena em que Gendou utiliza a unidade EVA-01 para matar um amigo do filho enquanto este é obrigado a assistir, impotente, tendo suas próprias mãos usadas para cometer um assassinato.

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Ainda, tem-se a cena da morte de Kaworu Nagisa – frequentemente criticada e considerada fruto de baixo orçamento e criatividade, mas que eu considero genial de forma quase inesperada, por se estender em um dos silêncios mais longos e perturbadores da história dos animes, enquanto somos obrigados a imaginar o que deve estar se passando na cabeça de Shinji quando se vê obrigado a matar a única pessoa que já o amou de verdade. 

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Muitas outras cenas em outras obras podem ser comentadas. Vi comentários de fãs de Kimetsu no Yaiba justamente pela falha da autora em retratar a maneira como Kamado Tanjiro deveria ter reagido à morte de sua família, visto que não é dado ao personagem tempo para expressar qualquer tipo de luto (como é observado, por exemplo, em One Piece, quando Luffy acorda de seu coma e passa por um surto intenso ao perceber que Ace está realmente morto) – ainda assim, Gotouge repara o seu erro ao mostrar cenas extremamente marcantes de personagens lidando com emoções traumáticas no decorrer do mangá, especialmente quando as baixas na luta dos pilares contra Kibutsuji Muzan e as luas demoníacas começam a atingir proporções devastadoras. 

Hunter x Hunter, de Yoshihiro Togashi, talvez seja a obra que melhor demonstra a maneira como seus personagens reagem a situações traumáticas.

Como uma estratégia narrativa excelente, temos os olhos de Kurapika tornando-se escarlates toda vez que ouve-se uma menção ao que aconteceu com seu clã ou à existência da Trupe Fantasma – uma cena marcante sendo a que ele é forçado a se controlar quando vê os olhos de um Kurta assassinado sendo postos a leilão. 

Observa-se, aqui, uma coincidência evidente: as melhores obras, as obras mais marcantes da história do gênero shounen, são, também, aquelas em que o artista consegue retratar emoções humanas de maneira vívida e genuína.

A cena em que o bando do Chapéu de Palha precisa se despedir do navio Going Merry só se torna tocante porque os personagens reagem a ela, e, paralelamente, também o leitor reage. Somos seres humanos com empatia, e nossa empatia se estende a esses personagens que, ao longo de capítulos e episódios, vieram a significar muito para nós. 

A pessoa que me recomendou Fruits Basket disse: “A questão com obras do gênero shoujo é que elas são sobre emoções, então tudo nos toca mais profundamente.” A conclusão que cheguei é que é preciso que o gênero shounen se permita sentir.

shounen

Sentir verdadeiramente, permitir que emoções sejam absorvidas e expresssadas. É preciso que a dor de Luffy ao perder o irmão seja sentida. É preciso que sintamos o sofrimento de Killua ao dizer “Não há mais nada que eu possa fazer!”, ao perceber que Gon está fora do seu alcance no arco das Formigas Quimera.

Shounen é tao importante para tantas pessoas por ser intenso, por ser divertido, mas também por permitir que observemos o que seres humanos são capazes de fazer em momentos que mudam suas vidas.

E as melhores obras são aquelas que compreendem isso, e que retratam isso, e que passam isso ao leitor, das maneiras mais sutis ou mais bombásticas. 

É por isso que obras desse tipo são importantes.