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El Camino – O Que Vem Depois Do Fim? | Review

Pessoalmente, acho que não existe discussão quanto ao fato de que Breaking Bad é a melhor série dramática já produzida para a televisão. Exibida entre 2008 e 2013, a série de Vince Gilligan narra uma saga quase homérica de ascensão e queda ao longo de cinco temporadas que mantiveram um altíssimo patamar de qualidade do início ao fim. 

Sendo uma obra tão querida e admirada tanto pelo público quanto pela crítica especializada, naturalmente houve apreensão quando a Netflix anunciou a produção de um filme dando continuidade à história, com o próprio Vince Gilligan assumindo os postos de diretor, roteirista e produtor.

A primeira coisa que pensei (e aposto que vocês também pensaram) foi: Ora, mas a trama principal já estava encerrada, como assim vão fazer um filme que corre o risco de manchar o legado da série?

A última cena de Jesse Pinkman (Aaron Paul) em Breaking Bad – e o ponto inicial para a trama do filme El Camino.

Mas aí me veio à cabeça o seguinte: Breaking Bad não é sobre tramas, mas sim sobre os personagens que as compõem. Se bastasse simplesmente fechar a trama principal da série, teríamos acabado na quarta temporada, mas Gilligan preferiu dar continuidade ao arco de Walter White (Bryan Cranston) por mais uma temporada. O que recebemos com isso foi uma verdadeira obra-prima televisiva, comparável às grandes tragédias narradas pela literatura e dramaturgia da antiguidade.

Da mesma forma que a quinta temporada é um epílogo para Walter (assim como seu alter-ego Heisenberg) e a série Better Call Saul amarra as pontas soltas do personagem Saul Goodman (Bob Odenkirk), o longa-metragem El Camino: A Breaking Bad Movie, lançado ontem (11 de outubro) através do serviço de streaming Netflix, nos dá um fechamento para a história de Jesse Pinkman (Aaron Paul). 

Os minutos iniciais do filme já dão uma ideia clara de que isso não é uma jogada barata pra capitalizar na nostalgia dos fãs de Breaking Bad, mas sim uma obra feita com muito carinho por todos os envolvidos em sua realização. 

A primeira cena, através de uma paleta de cores apagada e da completa ausência de uma trilha sonora de fundo, logo de cara estabelece o clima sério e introspectivo que irá permear o filme como um todo. O diálogo entre Jesse e Mike (Jonathan Banks) nessa cena – um flashback para eventos ocorridos no espaço de tempo entre a quarta e a quinta temporada da série – também deixa claro qual será o tema central da narrativa de El Camino: ficar em paz com o próprio passado, já que “consertá-lo” é a única coisa que não se pode fazer.

Aaron Paul volta ao papel que marcou sua carreira, e está melhor do que nunca.

A narrativa que se segue começa literalmente onde vimos Jesse pela última vez em Breaking Bad, fugindo no carro logo após Walter resgatá-lo no último episódio da série. Com a polícia no seu encalço e nada a perder, a única escolha dele é sair do país e recomeçar do zero.

Assim, a narrativa vai seguindo exclusivamente o ponto de vista de Jesse e divide espaço com flashbacks para o período durante o “time-skip” da quinta temporada no qual ele estava sendo feito prisioneiro por um grupo de neonazistas, entre os quais apenas Todd Alquist (Jesse Plemons) aparece em El Camino.

O Jesse Pinkman que vemos aqui é um homem mais maduro e assombrado pelo próprio passado, tanto pelos meses no cativeiro quanto pelas diversas perdas que sofreu ao longo da série. O trauma e os eventos vivenciados pelo protagonista têm seu efeito sentido durante toda a duração do filme, e moldam a forma como Jesse se porta frente às várias situações que ele precisa enfrentar no caminho para seu objetivo.

Não espere uma história onde Jesse passará por grandes mudanças, pois essas mudanças já aconteceram. No entanto, as pessoas ainda o enxergam como aquele marginal que ele costumava ser e desconhecem completamente o sofrimento pelo qual ele passou em consequência dos próprios erros, sem falar que já é tarde demais para Jesse voltar atrás e convencer a todos que ele mudou.

Da esquerda para a direita: Badger (Matt Jones) e Skinny Pete (Charles Baker).

Assim, o grande conflito do protagonista acaba sendo a busca por um lugar onde ele possa viver essa mudança e, eventualmente, deixar o passado para trás.

A abordagem minimalista de Gilligan na direção e roteiro de El Camino funcionam bastante para comunicar a mensagem do filme, que estruturalmente não ficaria deslocado em meio ao movimento dos westerns revisionistas.

A trama não tem revelações grandiosas e o elenco de apoio é composto por apenas um punhado de personagens: o supracitado Todd Alquist; os amigos de Jesse, Badger (Matt Jones) e Skinny Pete (Charles Baker); além de Ed Galbraith (interpretado por Robert Forster, que faleceu ontem).

Esse minimalismo funciona em benefício do filme, pois dá a Gilligan a oportunidade de fazer com que cada elemento em sua narrativa tenha um propósito bem claro e nada é desperdiçado. Desta forma, El Camino é uma obra que exige a atenção indivisa do público com os detalhes de cada cena para maximizar o impacto quando a trama eventualmente chega em seu clímax.

Robert Forster como Ed Galbraith em El Camino.

Mas é necessário ficar atento a uma coisa: esse filme não é pra qualquer um. Gilligan fez El Camino pensando nos fãs de Breaking Bad, e o entendimento da narrativa que ele constrói aqui é completamente dependente do conhecimento prévio acerca dos eventos da série. Mesmo com um resuminho proporcionado pela Netflix antes do filme começar, a experiência só estará completa se você tiver assistido a totalidade das cinco temporadas de Breaking Bad.

Por fim, me resta dizer que El Camino é um filme que superou muito minhas expectativas (como todas as adições inesperada ao universo criado por Gilligan têm feito até o momento), servindo como uma despedida perfeita para o personagem Jesse Pinkman através de uma história minimalista e introspectiva com uma carga emocional gigantesca que certamente irá cativar todos os fãs de Breaking Bad.