Stranger Things 3 – A aclamada série da Netflix retorna em grande estilo | Review (Sem spoilers)

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Após um hiato de um ano e meio, eles estão de volta! A cativante turma de Hawkins, Indiana, retorna à Netflix após uma segunda temporada um tanto decepcionante. Apesar disso, e apesar de um receio pessoal de Stranger Things ter se tornado uma série formulaica e dependente de sentimentos nostálgicos, eu devo admitir que os Irmãos Duffer provaram ainda ter alguns truques na manga.

A série pode não ter mais o mesmo sentimento de mistério e surpresa da primeira temporada, mas a sutil mudança de clima e de referências óbvias a Stephen King e Steven Spielberg das duas primeiras temporadas para John Carpenter, George A. Romero, James Cameron, Robert Zemeckis, entre outros, deram um ar fresco a série, que se afastou das chatas sequências da viagem a Chicago da El (Millie Bobby Brown), com direito a cena de treinamento de super-herói, e nos trouxe mais das divertidas e envolventes aventuras e investigações dos personagens principais.

A temporada se passa em 1985, mais especificamente na semana do 4 de julho da estreia dos clássicos “De Volta Para o Futuro”, de Robert Zemeckis e “Dia dos Mortos”, de George A. Romero, e a vida em Hawkins mudou bastante desde a segunda temporada. Agora que a ameaça dos Demodogs foi superada e o “Upside Down” não é mais uma ameaça iminente, o motivo de conversa na cidade é o novo Shopping Center, o Starcourt Mall, o centro de gravidade da ação nessa temporada. 

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Eleven (Millie Bobby Brown), Max (Sadie Sink), Lucas (Caleb McLaughlin), Will (Noah Schnapp) e Mike (Finn Wolfhard)

Mike (Finn Wolfhard) e El continuam sendo o casal adolescente do fim da segunda temporada, embora com alguns problemas de comunicação, o que traz grandes problemas a Hopper (David Harbour), que tem grande dificuldade de lidar com os impulsos de sua filha e do namorado, tendo que recorrer constantemente a Joyce (Winona Ryder) para receber conselhos. Enquanto isso, Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) formam mais um casal, para o sofrimento de Will (Noah Schnapp) cansado de segurar vela e que só quer voltar aos velhos tempos de quando ele e os garotos jogavam D&D e se fantasiavam de Caça-Fantasmas. Dustin (Gaten Matarazzo), que estava em um acampamento de verão, retorna com histórias de uma nova namorada, apesar de ninguém acreditar. Billy (Dacre Montgomery) tem um novo emprego como salva-vidas na piscina, onde ele recebe olhares das mães da região. Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) trabalham no jornal local, onde Nancy tem que enfrentar os caricatos superiores sexistas que desacreditam de suas ideias e Steve (Joe Keery) tem que se contentar em servir sorvetes na loja do “Scoops Ahoy” no shopping center.

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Hopper (David Harbour) e Joyce (Winona Ryder) protagonizam uma dinâmica de casal caricata de séries dos anos 80 nessa temporada

As cenas iniciais da série podem quase nos fazer comprar a ideia de que não existe grande ameaça, não fosse por uma transmissão misteriosa captada por Dustin, por um fatídico encontro de Billy, pela semi-paranoia de Joyce e por uma ligação alarmante recebida por Nancy. Esses ganchos dão início a algumas tramas aparentemente separadas, com um vilão digno de Alien dividindo espaço com russos realizando operações secretas no coração da cidade, mas que convergem bem no fim. A série faz bem em separar os personagens em grupos diferentes, cada um com suas dinâmicas particulares. Enquanto acompanhamos um momento de ação em um grupo, outro pode estar em um momento menos interessante, o que ajudou muito a fazer com que a temporada não parecesse arrastada e “inchada” como a anterior, tornando os oito episódios muito mais agradáveis de ser maratonados. E a forma como os personagens se reúnem ao fim dá espaço a atuações brilhantes.

Millie Bobby Brown traz mais uma boa atuação nessa série, com uma performance madura, de certa forma já esperada da estrela das duas temporadas anteriores. Mas além disso, essa temporada traz mais surpresas agradáveis. O papel de Dacre Montgomery como Billy é brilhante, trazendo medo e simpatia a um personagem que na temporada anterior era bem uni-dimensional. As interações da dupla Dustin e Steve estão hilárias, dando ainda mais dimensão a essa improvável amizade, e a adição da novata Robin (Maya Hawke) como a contraparte irônica de Steven e a elevação do papel da irmã mais nova de Lucas, Erica (Priah Ferguson) de personagem secundária a lenda complementam perfeitamente o grupo, trazendo um sub-enredo cativante e que tem feito muitos fãs pedirem por um spin-off. David Harbour também merece destaque, trazendo sua melhor atuação na série, não só como um perfeito pai desajeitado dos anos 80, mas como um legítimo badass digno de ser comparado a um Rambo gordo.

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Robin (Maya Hawke), Steven (Joe Keery) e Dustin (Gaten Matarazzo) no “Scoops Ahoy!”

Dito isto, alguns atores acabam sem muito espaço e saindo prejudicados por falhas no roteiro, em especial Will, o personagem de Noah Schnapp. Noah, que demonstrou algumas atuações brilhantes na segunda temporada, sendo um dos poucos pontos fortes da mesma, acaba sendo delegado a um dispositivo de enredo quase inútil, especialmente do meio pro fim da série. É uma pena, especialmente considerando o potencial que o personagem de Will pode ter na trama e as capacidades de Noah como ator.

Senti também que em alguns momentos a série acaba abusando um pouco da suspensão de descrença de quem assiste. Tentando manter os spoilers ao mínimo, prefiro não dar detalhes, mas é difícil entender algumas motivações e difícil acreditar que os russos teriam a possibilidade de ter tanto poder dentro do território americano em plena Guerra Fria. É preciso que você desligue o cérebro em alguns desses momentos, mas como uma diversão boba, Stranger Things continua sendo uma grande fonte de entretenimento.

Os efeitos visuais dessa temporada estão especialmente chamativos. Obviamente, após o sucesso das temporadas anteriores houve um aumento do valor de produção e os diretores da série foram capazes de aproveitá-lo muito bem, seja nas cenas mais pacíficas, onde a iluminação e os cenários nos levam diretamente para a cidade de Hawkins, mas também nas cenas de ação, onde os efeitos tornam a ameaça muito mais real. Vale a pena também destacar o excelente uso da boa trilha sonora.

Stranger Things 3 é um sucesso, possivelmente a melhor temporada da série até agora. A escala que o show atingiu é impressionante e o final intenso, hilário e de partir o coração é o suficiente para manter qualquer um na ponta dos pés na espera da quarta temporada.