Oscar 2019 | A Importância de "Infiltrado na Klan"

ATENÇÃO: Crítica com Spoliers

Desde o movimento #OscarSoWhite em 2016, é notório que a Academia de Ciências Cinematográficas e a própria indústria hollywoodiana começaram a dar mais foco e atenção à filmes não majoritariamente brancos, aumentando a representatividade que deve existir na cultura popular. Obviamente, não estamos ainda numa realidade ideal. Entretanto, vitórias e indicações mais recentes de filmes e artistas não brancos mostram que o caminho já começou a ser trilhado.

No Oscar 2019 podemos ver resultado desse percurso, já que dentre os 8 indicados a melhor filme, 4 são filmes estrelados por representantes de minorias. Dentre eles, “Infiltrado na Klan” que é o filme da temporada que fala diretamente, sem filtros, sobre as questões sociais e políticas dos Estados Unidos.

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O filme de Spike Lee que já é conhecido por suas obras de cunho político, é baseado em uma história real sobre Ron Stalloworth (John David Washington) um policial negro que no final dos anos 70 conseguiu se infiltrar no grupo supremacista branco Klu Klux Klan através de telefonemas e cartas e nos eventos em qual era necessário sua presença, contava com a ajuda do policial judeu Flip Zimmerman (Adam Driver) que se passava por ele. A trama também possui Patrice (Laura Harrier) que é uma militante ativista dos direitos civis negros e que porventura, torna-se interesse amoroso do protagonista, mesmo que esse seja de longe o foco principal do filme.

A comédia dramática policial, é sem dúvidas importante demais para os dias atuais e soa como um balde de água fria no telespectador. Mas nem por isso, é um filme que não deixa de ter seus defeitos. Talvez, o maior problema da obra é que mesmo tendo uma roupagem social é díficil de você se importar e ter empatia pelos personagens, pelo menos no começo até uma certa parte do filme. A sensação que eu tive foi de pouco me importar com os personagens. Não me preocupava com o que iria acontecer com os mesmos, até nas situações de perigo. Mas, graças a geniosidade de Spike Lee isso tudo muda, felizmente.

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Existe um determinado momento em que há dois grandes eventos acontecendo simultaneamente. E é nesse dualismo, que a concepção do filme muda totalmente. Enquanto está acontecendo um ritual de entrada de Flip a Ku Klux Klan, do outro lado há um encontro dos ativistas negros com Jerome Turner (Harry Belafonte) que conta a trágica história de Jesse Washington. A partir daí, devido a toda sensibilidade e contraste entre os lados mostrado pelo filme, entra um turbilhão de emoções na mente e coração de qualquer um que assiste. Sendo o primeiro, tapa na cara do telespectador que não imagina ainda que pode receber algo mais forte.

Outra versatilidade presente no longa é entre os personagens que estão do “mesmo lado”, neste caso, apresentado pelo relacionamento de Ron e Patrice. O que serve como uma crítica às divisões que ocorrem dentro do mesmo grupo político, na maioria das vezes por orgulho ou hipocrisia de achar que só uma maneira de lutar por uma causa é válida. Quando na verdade, todas as maneiras são. Além de mostrar que os conflitos internos podem ofuscar o verdadeiro inimigo e seus problemas.

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Para melhorar a experiência do filme, após o encerramento da história. Spike Lee mostra a todos o porque desse filme ser tão importante e especial para os dias atuais. Já que infelizmente, o extremismo está presente e em constante crescimento na sociedade do século XXI com seus grupos e líderes políticos. Isso é dado através de um compilado de vídeos que expõem movimentos extremistas contemporâneos como a manifestação neonazista na cidade de Charlottesville (EUA), e pronunciamentos extremamente preocupantes e infelizes como de Donald Trump, atual presidente americano. É um tapa na cara – muito bem dado, por sinal – que qualquer pessoa da nossa sociedade (literalmente) precisa hoje em dia.

“Infiltrado na Klan” cumpre perfeitamente seu papel como obra política. Cheio de críticas, realismo, visão ácida e com uma mensagem que nos diz que, nós enquanto sociedade temos muito a evoluir. É sem dúvidas, um dos melhores filmes dessa temporada, que confirma a declaração do diretor. roteirista e produtor, Spike Lee assim que soube das indicações ao Oscar: “O filme está do lado certo da História”.
E honestamente, ainda bem que ele está.