Operação Red Sparrow não é tão sexy quanto parece | Review

A femme fatale é um arquétipo muito comum no cinema, de La Femme Nikita, a Sharon Stone em Instinto Selvagem, a Mulher Gato, até a marca que Angelina Jolie construiu a sua volta, elas são sensuais e glamourosas enquanto ao mesmo tempo são fortes e não levam desaforo para casa. Qualquer um com o conhecimento mais básico possível de filmes de espionagem sabe que uma femme fatale é quase que um essencial do gênero, então ver Jennifer Lawrence estampando posters de um sexy +18 filme de espionagem vem como surpresa para absolutamente ninguém, a queridinha de Hollywood é uma escolha bastante óbvia para ser transformada em uma dessas perigosas mulheres na telona. Para quem está cansado do arquétipo, aqui não há muito espaço para se divertir como em Atômica (2017), que o questionou sujando de sangue e dando tendências alcoólatras a espiã supostamente femme fatale interpretada por Charlize Theron, ainda que Operação Red Sparrow tente de certa forma desconstruir o arquétipo também. A sujeira de como uma mulher de verdade é transformada em fatal está toda aqui, mas eu temo que haja um pouco de prazer demais na sujeira e talvez deixar o arquétipo para trás fosse uma melhor pedida.

Jennifer Lawrence interpreta Dominika Egorova, uma bailarina de Bolshoi que vê sua carreira toda perdida em uma fração de segundos por conta de uma fratura no joelho, de repente com seu sonho de infância arrancado de suas mãos e sem uma maneira de se sustentar e cuidar de sua mãe doente, ela é arrastada para um mundo de segredos e imoralidade financiados pelo governo russo. Lawrence faz um bom trabalho tanto em expressar a raiva e tristeza de uma mulher presa a um destino escrito por outros, quanto na estoica e calculadora espiã. O trabalho de câmera foca muito no seu rosto, o que favorece a performance da atriz, apesar de nem sempre ser a melhor escolha narrativamente falando.

Algumas pessoas enxergam a transformação da sexualidade feminina em arma como um forte instrumento de empoderamento, certamente é como muitas das personagens femininas consideradas fortes no cinema são construídas. Operação Red Sparrow, porém, faz perguntas profundamente perturbadoras ao pôr nessa posição uma mulher que possui absolutamente nenhum poder de escolha. O quão empoderador pode ser usar sua sexualidade como uma arma de manipulação e morte quando a pessoa na situação não escolheu ser sexualizada? E se a mulher só quisesse dançar e cuidar da sua mãe, mas como a grande maioria das mulheres do mundo real, não tivesse poder de escolha ao se tornar um objeto sexual aos olhos do mundo? Ao levantar essas questões e levá-las ao extremo, o filme é absolutamente brutal e desconfortável de assistir, e passa muito tempo com personagens femininas sendo coagidas e forçadas a performarem atos sexuais ao ponto de acabarem no chão chorando. O problema é com quanta habilidade a narrativa desenvolve todos esses elementos complexos e profundos que foram armados na sua primeira metade.

Em muitos momentos o longa funciona como uma interessante história de uma mulher tentando tomar sua vida de volta e se fortalecer quando ela não foi dada o poder de escolha, mas quando essa linha narrativa entra em choque com a trama de espionagem, o filme acaba por fazer escolhas pouco criativas e amornar todos os seus polêmicos temas. Há algumas viradas de roteiro e revelações na trama relativamente interessantes, o espectador realmente se entretêm ao tentar descobrir de que lado a protagonista está e tentando enxergar através das camadas de espiã dupla e tripla em que Dominika se coloca. Mas em geral os temas mais fortes do filme são esquecidos, a sexualidade nem é tão presente na trama e o treinamento intenso pelo qual a protagonista passa mal parece ser utilizado na missão principal da história.

O elenco é absolutamente estelar, Joel Edgerton entrega uma performance empática e seu personagem é fácil de se afeiçoar, ainda que haja certa fraqueza mal explorada e ele e Lawrence não tenham muita química, o que joga para o ar a realização com algum êxito do clichê casal que não deveria se apaixonar mas se apaixona no filme de espião. Matthias Schoenaerts captura a atenção do público de forma brilhante e é o único no elenco cujo sotaque russo não é um distrativo. Além dos terríveis sotaques forçados de personagens russos falando inglês, realmente não há uma única performance fraca no filme, todo o elenco cumpre bem seus papéis e prendem o espectador.

Há algumas inconsistências, como elogiarem o russo de um personagem em determinado momento quando os personagens russos na Rússia não falam russo por sequer um minuto. Ou como é impossível determinar em que época o filme se passa já que a tecnologia é completamente inconsistente, indo desde TVs de plasma ultrafinas e notebooks até a — pasmem — disquetes. E apesar de o filme já ser bem longo, se beneficiaria bastante de passar mais tempo com Dominika como bailarina e feliz, para que a dor da sua perda pudesse ser mais substancial ao invés de apenas frustrante. A verdade é que a protagonista passa o filme inteiro em profundo sofrimento e, por conta de como a trama se desenvolve, não há o sentimento de resolução verdadeira ou sequer parece servir a narrativa que seu sofrimento necessariamente fosse mostrado de forma tão gráfica.

Operação Red Sparrow tem temas interessantes e performances boas o suficiente para manter o espectador interessado e entretido, mas não é um filme de espionagem particularmente inovador ou criativo e não apresenta muita coisa que já não tenha sido feita antes de forma melhor. Se ele faz alguma coisa bem, é começar conversas pertinentes, mas não se pode dizer que ele fecha nenhuma dessas conversas com muita competência.