Quando tinha 6 anos de idade, Guillermo Del Toro assistiu o clássico O Monstro da Lagoa Negra, de 1954, na TV da sua casa. Ao ver o monstro nadar sob a mocinha do filme, ele tinha certeza de que os dois ficariam juntos e tudo ficaria bem para o monstro. O então jovem Del Toro estava errado, o monstro do filme é uma criatura que aterroriza a mocinha e acaba assassinado à tiros, mas de certa forma essa história de simpatia pelo monstro na infância do realizador é um momento perfeito para definir sua carreira. Então seu filme mais recente, A Forma da Água é um ponto perfeito para essa carreira culminar.

Girando em torno da vida de uma mulher muda, Eliza, que trabalha como zeladora em um laboratório durante a Guerra Fria, a forma com que o filme dá voz a vida interna dessa mulher é através do cinema clássico. Eliza assiste filmes antigos, especialmente musicais, diariamente com seu vizinho, Giles, e ela parece cheia de vida e música ao dançar no ritmo dos icônicos números musicais e sorrir para as grandes estrelas como Carmen Miranda e a pequena Shirley Temple na televisão. As referências são inúmeras, e ainda assim não importa se o espectador reconhece todas, porque elas não são o conteúdo mas sim os pingos nos I’s em formato de coração da grande carta de amor ao cinema que esse filme é. Esse amor é tão genuíno que Del Toro simplesmente assume que o espectador deve amar o cinema também e esse elemento da narrativa acaba sendo uma ferramenta para fazer com que Eliza seja mais viva e fácil de se identificar, permitindo que a audiência a ame mais rápido e a veja como completa assim como a criatura a vê.

As referências não são toda a composição de personagem da protagonista, é claro, Eliza já é extremamente bem construída e performada nos seus primeiros minutos em tela, que nos mostram sua rotina. O interessante de conhecermos sua rotina antes que o conflito do filme chegue é que ela é uma janela para quem a personagem é, doce e maravilhada com as pequenas coisas do mundo, mas ainda assim completamente humana, com desejos da carne e tarefas mundanas. Ela parece uma pessoa real, uma mulher real, ainda que encantadora. E, para completar, a interpretação de Sally Hawkins é de tirar o fôlego. Não há um segundo em que a fala faça falta, ela simplesmente expressa as emoções da personagem com o corpo inteiro e é imediatamente compreendida tanto pelos personagens a sua volta quanto pelo espectador.

A fotografia do filme é algo a se destacar, com movimentos de câmera bem fluídos e o uso de luz e cor repleto de significado. Há um constante de azuis e verdes, contrastados com amarelos e vermelhos. Verde é a cor do futuro imaginado por aqueles no poder, preenchendo o laboratório, os uniformes das zeladoras etc, enquanto o vermelho é fortemente ligado ao amor e à realização pessoal da protagonista e algo interessante é como seu figurino vai ficando progressivamente mais vermelho a partir do momento em que ela faz sexo com o Homem Anfíbio.

Um destaque também fica com os efeitos especiais do filme, que são tão sutis nesse conto de fadas adulto que é capaz do espectador repentinamente se esquecer que o Homem Anfíbio não é simplesmente uma criatura real do nosso mundo. A técnica de dry for wet para as cenas embaixo d’água convence que há de fato água ali e ao mesmo tempo permite movimentações e performances dos personagens embaixo d’água que compõe certa poesia que o filme possui. A criatura, claramente com inspiração retirada do tal Monstro da Lagoa Negra já citado anteriormente, é inteiramente efeitos práticos, exceto pelo movimento dos olhos, e vale a pena pela performance que permite ser entregue por Doug Jones e pela interação fortemente corpórea que ele tem com a protagonista. Qualquer um que conheça o trabalho de Doug Jones se impressiona, o ator especializado nessas performances de criaturas compostas por tanta maquiagem e figurino pesado é um verdadeiro camaleão. Quem o vê como Saru em Star Trek: Discovery, por exemplo, encontra um personagem completamente diferente do Homem Anfíbio de A Forma da Água. Aqui há uma inocência e doçura entregue pela linguagem corporal que torna fácil de se afeiçoar, que começa com potencial para bichinho de estimação mas lentamente impõe respeito e convence como figura divina quando necessário. E para um personagem tão visualmente inumano, é incrível como Doug Jones e Sally Hawkins vendem o romance brilhantemente para que, de repente, bestialidade nem passe mais pela cabeça da audiência ao ver os dois juntos.

Se há algo para reclamar é apenas no fato de que a qualidade da fotografia decaiu um pouco na transição dos filmes de Del Toro da película para o digital. A imagem é definitivamente mais chapada, ao comparar com seus filmes mais antigos é normal sentir a falta de certo contraste que dava vida e destaque em cena aos personagens e às criaturas dos mundos do realizador. Porém, com a ambientação na Guerra Fria, a falta de contraste de certa forma ajuda o filme, dando certa personalidade às cenas entre militares ou espiões russos. São imagens bem diferentes dos produtos audiovisuais criados na época, mas a lembrança meio pastel dos anos 60 e acinzentada dos espiões russos em seus cantos escuros com seus fedoras na cabeça são bem representadas.

A Forma da Água possui tudo de melhor que a filmografia de Guillermo Del Toro tem para oferecer. Sempre um fã de misturar gêneros literários e cinematográficos para extrair algo além, algo novo, o diretor traz aqui uma mistura de filme de guerra com conto de fadas que lembra ao que muitos consideram sua obra prima, O Labirinto do Fauno. Com um amor completamente sincero e sem medo do ridículo pela arte do audiovisual e os monstros clássicos, misturado a verdadeira empatia e entendimento de quem são os seres que o mundo tenta apontar como monstros, Del Toro compõe uma obra brilhantemente fantasiosa e sentimental da melhor forma possível.

Um conto de fadas adulto e uma história de amor sobre enxergar e amar o outro por quem ele é, ainda que o resto do mundo o odeie por exatamente o mesmo motivo, A Forma da Água é poesia e pintura em movimento e exatamente o que uma releitura moderna do Monstro da Lagoa Negra e tantos outros monstros do cinema clássico deveria ser. Conhecendo a história do pequeno Guillermo Del Toro de 6 anos de idade, é difícil não se perguntar o que ele teria pensado desse monstro aquático apaixonado por uma princesa muda.

 

 

Nathália Gonçalves

Nathália Gonçalves

Estudante de cinema e desistente de jornalismo, carioca estressada de 21 anos de idade. Uma vida definida por analisar mídia e questionar padrões.
Nathália Gonçalves