É uma tradição que todo ano um episódio especial de Natal de Doctor Who seja lançando, e ainda que uma tradição divertida para fãs que sabem que podem esperar um presente extra de Natal de sua série favorita, esses episódios sempre foram mais desconexos e simples, com temas natalinos e na maior parte do tempo sem ser considerados parte das temporadas da série. Porém, de uns anos para cá as coisas vinham mudando e os especiais de Natal vinham sendo cada vez mais importantes, especialmente com Doutores regenerando neles.

Fãs esperam cada vez mais dos especiais de Natal, ainda mais esse ano em que o Primeiro Doutor faria uma aparição e o episódio seria o último tanto de Peter Capaldi, o adorado Décimo Segundo Doutor, quanto de Steven Moffat, o bem sucedido showrunner da série. Twice Upon A Time, o episódio de Natal desse ano, é uma lembrança de que os especiais de Natal não são ideais para se colocar muita expectativa, ao menos não muito além de terminar de assistir ao episódio com o coração quentinho, envolvido pelo amor pela gentileza que Doctor Who nunca cansa de oferecer.

Doctor Who carrega consigo essa sensação de legado, afinal são 54 anos de série, trazer o Primeiro Doutor de volta paras telas dá um enorme peso para o episódio. David Bradley, com a ajuda da direção de Rachel Talalay, recriam o Doutor original com maestria e muita reverência. Talalay recria várias cenas de The Tenth Planet, arco em que o Doutor regenerou pela primeira vez, mas ela não simplesmente copia frame por frame, mas acrescenta nova perspectiva às cenas, mantendo o visual e a sensação dos anos 60, mas sendo criativa e adicionando sua personalidade a esses momentos tão icônicos da série. David Bradley captura o Primeiro Doutor com tamanha sensibilidade que é fácil se esquecer de repente que aquele Doutor clássico em cores e em HD não tem William Hartnell por trás.

O que ficou à encargo de Steven Moffat, porém, não é tão bem executado. Os problemas que sempre estiveram em suas narrativas e pareciam ter melhorado nas últimas duas temporadas, gritam em seu episódio de despedida. Ele cria personagens interessantes, o doce Capitão, interpretado por Mark Gatiss, e a Mulher de Vidro que é a aparente antagonista fazem pouco de instigante no episódio e deixam a impressão de que não foram desenvolvidos muito além do conceito inicialmente imaginado por Moffat.

Mas o pior de tudo, na realidade, é que ele não parece saber o que está fazendo com o Primeiro Doutor. A primeira regeneração da história da série acontecer cronologicamente praticamente junto a do Décimo Segundo Doutor é um presente de despedida enorme para Capaldi, mas parece que Moffat ficou muito animado com a ideia de unir o Primeiro e o Décimo Segundo e se esqueceu de que papel o Primeiro deveria ter na história. No fim das contas o impacto que o Décimo Segundo tem no arco de personagem do Primeiro é muito maior que o contrário, o que se não fosse pelo incrível trabalho de Talalay e Bradley, tiraria tanto do peso que o personagem tem em tela. O humor do choque entre gerações que já é esperado de qualquer interação entre Doutores passa um pouco dos limites e torna o Primeiro Doutor ligeiramente inconsistente. Uma hora ele uma tem brilhante conclusão sobre imagens geradas por computação, outra ele está confuso com o uso de gírias e práticas homossexuais. Na maior parte do tempo ele é escrito como um senhorzinho dos anos 60, o que por um lado deixa a claro o quanto o personagem cresceu até se tornar o Décimo Segundo, mas por outro descaracteriza o personagem e o faz deixa de parecer o alienígena viajante que roubou a Tardis e fugiu de Gallifrey.

Ainda que aos tropeços, as homenagens ao grande legado de Doctor Who são lindíssimas e efetivas, não só na brilhante captura que David Bradley faz do Primeiro Doutor, mas a outras regenerações entre ele e o Décimo Segundo. Moffat termina sua carreira em Doctor Who tendo aprendido algo com seus erros, aqui não há mais tanto dos grandiosos conceitos e mensagens que ele não tinha a menor ideia de como desenvolver de forma compreensível para o público na era do Décimo Primeiro Doutor. Em Twice Upon A Time a mensagem é um simples e pequenino conceito baseado na bondade que existe em qualquer ser nesse universo, então ainda que Moffat tenha dificuldade em preencher o meio, quando chega o terceiro ato ele é brilhante e compreendemos rapidamente porque os Doutores decidem regenerar.

Episódios especiais de Natal as vezes acabam tendo muito pouco de natalino neles, especialmente nos últimos tempos em que os roteiristas e os fãs querem tratar esses especiais como episódios tão importantes quanto qualquer outro. Esse especial parece ser um desses que não tem muito de natalino, até que percebemos em que Natal ele se passa. O Natal de 1914, em que meio a tanto sofrimento ninguém foi mau e houve paz. Os dois Doutores decidem viver não porque eles são uma fonte de bondade, mas porque há bondade acontecendo por todos os cantos do universo. Não é um episódio perfeito, não é o especial de Natal mais natalino de toda a história de Doctor Who, mas é bonito e enche o coração do fã com a mais pura e sincera das despedidas de um Doutor.

Nathália Gonçalves

Nathália Gonçalves

Estudante de cinema e desistente de jornalismo, carioca estressada de 21 anos de idade. Uma vida definida por analisar mídia e questionar padrões.
Nathália Gonçalves