Toda criatura nesse planeta morre, seja sozinha ou ao lado de quem ama, repentinamente e na juventude ou devagarzinho na velhice. Algum dia eu, você e todas as pessoas que já nos conheceram vão deixar de existir. Isso é um fato, mas um que deixa as pessoas assustadas, encarar a morte pode ser difícil e isolador. Então, ver um filme lidar com o fim da vida de forma tão honesta, mas sem perder o bom humor, é incrivelmente inovador e surpreendente.

Lucky segue a vida do protagonista de mesmo nome, um senhorzinho ateu de 90 anos que mora sozinho no deserto e fumou, bebeu e viveu mais do que qualquer um de seus conterrâneos. No meio de sua rotina diária de fazer as mesmas coisas, frequentar os mesmos lugares e interagir com as mesmas pessoas da cidadezinha no deserto, Lucky de repente se depara tendo que encarar sua idade e passa a tentar realizar uma última coisa em sua vida: encontrar uma luz através do auto conhecimento.

John Carroll Lynch, conhecido por seu trabalho como ator, é extremamente competente em sua estreia na direção e já se mostra um diretor de personalidade. Com a ajuda da profundidade da performance de Harry Dean Stanton, a excelente e aconchegante fotografia de Tim Suhrstedt e um primoroso trabalho de design de som, Lynch constrói um quieto e poético retrato de um momento da vida em que muitos sonham em chegar mas pouco se fala sobre.

Harry Dean Stanton é sortudo. Ou o Lucky, com L maiúsculo, o personagem. É incrivelmente poético ler essas palavras abrirem o filme, enquanto o lendário ator encara o sol com seu chapéu de cawboy. Depois de uma carreira estelar com trabalhos como Twin Peaks, Alien, Paris Texas e muitos outros títulos icônicos, esse filme é a calma e pensativa despedida que só uma lenda da sétima arte poderia merecer. E se há alguma dúvida que Stanton merece, esse filme é prova do talento do ator. É impossível não se tocar com seus monólogos ao telefone, ou compreender completamente os sentimentos do personagem ao vê-lo absorver todas as palavras de seus parceiros de cena, que aliás estão todos excelentes também. Desde Beth Grant e Tom Skerritt, até David Lynch, todos se unem de forma comovente para celebrar o amigo Lucky, e o amigo Harry Dean Stanton.

De acordo com John Carroll Lynch, o roteiro escrito por Logan Sparks e Drago Samonja foi baseado nas histórias que Stanton havia os contado através dos anos, numa tentativa de capturar a essência do que o veterano das telonas acreditava sobre o mundo. O resultado é uma profunda lição de vida para deixar o espectador pensando por muito tempo, que parece propositalmente uma carta de despedida que Stanton recita pessoalmente para você.

Há tanto cuidado em todos os aspectos do filme. A fotografia repleta de cores quentes e confortantes, que tem momentos neons quando o estado de espírito do protagonista pede. A trilha sonora com momentos de Johnny Cash que preenchem perfeitamente os ouvidos dos espectadores de significado diretamente alinhados com as imagens na tela. O design de som perfeitamente construído em sincronia aos movimentos em tela, com destaque para a cena em que Lucky cai. Absolutamente tudo nesse filme funciona em perfeita harmonia para transmitir a luz no fim da vida que Lucky descobre.

Em meio a questionamentos sobre o valor da vida, choque cultural entre diferentes gerações, a solidão do fim da vida e muitos outros assuntos, Lucky dá oportunidade para rir e para chorar e não aparenta esforço ao transitar entre as diferentes emoções. Lucky não oferece o conforto de uma família reunida em volta da cama de um velhinho, ou da possibilidade de uma vida depois da que temos aqui. Mas não há como não sair do cinema com um sorriso no rosto ao, junto de Lucky, compreendermos que a vida é muito maior do que os nossos pequenos passos inseguros por essa Terra. Se era nisso em que Stanton acreditava, não há como se sentir mais grato por ele ter vivido.

Nathália Gonçalves

Estudante de cinema e desistente de jornalismo, carioca estressada de 20 anos de idade. Uma vida definida por analisar mídia e questionar padrões.

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