Embora nenhuma adaptação cinematográfica seja exatamente fiel e idêntica às obras literárias, Assassinato no Expresso do Oriente é surpreendentemente instigante e capta a essência de Agatha Christie, autora do livro homônimo publicado em 1934.

No caso, o filme funciona assim como um suspense de Christie, no qual a parte do interrogatório necessário para a compreensão do crime se torna um pouco extensa, e talvez cansativa. Pelo desenvolvimento a passos lentos e vagarosos é comum que se queira prontamente a resolução do caso, levando à ansiedade.

Assassinato no Expresso do Oriente conta com um elenco excepcional e grandioso, com nomes como o próprio diretor Kenneth Branagh, Michelle Pfeiffer, Johnny Depp, e Daisy Ridley. A fotografia e o CGI são incríveis, assim como a ambientação muito bem feita tanto para jus aos países orientais retratados quanto para a moda e os hábitos do século passado. Além disso, uma cena que vale ressaltar é a em que todos os envolvidos na história estão reunidos, posicionados exatamente como o quadro da Santa Ceia.

Com doses de humor na medida certa, o mais irônico, e, portanto engraçado, é justamente a quebra de expectativa do modelo do star system que o espectador já está acostumado. De primeira, com a introdução de Johnny Depp, logo se associa o personagem dele ao antagonista principal do filme, mesmo que em certos momentos ele timidamente seja. Ou como se sente que Bouc, interpretado por Tom Bateman, seria o primeiro a morrer. Nenhuma das proposições são reais, demonstrando a sagacidade de Agatha Christie – e da produção de elenco – sobre o público.

Contudo, o longa traz à reflexão. O que seria, verdadeiramente, a justiça? É nesse ponto, também, que se é capaz de diferenciar o detetive de Christie, Hercules Poirot, do de Doyle, Sherlock Holmes. Os dois possuem características similares, como o TOC e a racionalidade superior aos outros. Porém, ao passo que Holmes investiga cada caso com a moralidade específica deles, Poirot sempre se põe ao lado da verdade e do politicamente correto. No assassinato no expresso do oriente, Holmes seguiria o seu caminho sem nenhum problema, satisfeito por si só pela resolução do crime. Mas Poirot teve a necessidade de contar algo à polícia, mesmo que isso o quebre internamente por ser pura mentira. Ao menos é interessante se deparar com o conflito interno do personagem sobre a mudança na percepção de que para tudo precisa ter um equilíbrio, como se fosse simplesmente preto ou branco.

Mostra, também, questões que eram socialmente aceitáveis, como o racismo, a segregação racial, e o nazifascismo (mesmo que no final se revela ser falso para fins dramáticos). O mais assustador, porém, é perceber como esses temas absurdos continuam presentes em pleno século XXI, ano 2017.

No mesmo gancho, o filme revela uma verdade sobre os espectadores mais novos: a impaciência perante estereótipos. Com um personagem de origem hispânica, e um negro a bordo, as suspeitas logo recaem sobre eles. Passam, em uma pequena escala, a ser desgostosas as cenas em que se pauta essas frágeis deduções, mesmo que se tenha ciência de que se trata de um suspense policial cujo objetivo é por tudo em dúvida. Entretanto, a satisfação tarda, mas chega com o final espetacular.

Faz pensar, igualmente, o furo próprio de Christie – ou seria meramente coincidência? – pela conveniência de uma súbita desistência que permite, então, a viagem do detetivo no expresso. Ou talvez seja só por esse mínimo detalhe que a história é capaz de funcionar, e não cabe ao espectador (e ao leitor) se perguntar muito sobre essas brechas. Mas ainda sim é interessante pensar como tudo seria diferente caso Poirot não conseguisse embarcar.

No fim, um novo horizonte e uma nova tendência no cinema são abertos, que é o da adaptação dos livros de Agatha Christie. Com a participação de Hercules Poirot em cerca de 40 publicações da escritora, parece ser rentável esse investimento. Isso demonstra como o cinema atual ainda se baseia no passado pela falta de originalidade para roteiros completamente extraordinários. Mas pelo menos os suspenses policiais são mais estimulantes que a fórmula pronta dos super-herois. Última chamada para os passageiros do trem partindo de Jerusalém, com conexão em Istanbul, e destinado ao Egito.

Larissa Esposito

Larissa Esposito

Cursando Comunicação Social - Jornalismo, tentando sobreviver nesse mar que é o editorial de entretenimento, e com uma lista gigantesca e sem fim de atores, atrizes, e filmes prediletos.
Larissa Esposito