Capítulo 1

 

Coruscant, Cidade-Baixa.

O Rancor Bêbado era um lugar terrivelmente barulhento. Nem mesmo a música chegava a ser tão alta contra os gritos dos ébrios frequentadores, o pior tipo de gente que Coruscant já viu. Ali, as raças se misturavam tal como a cerveja barata e a Vodka de Dagobah se uniam numa mistura homogênea e nojenta, com um cheiro repulsivo e sabor igual, mas que enlouquecia no primeiro trago. Forte como o diabo, era o que diziam.

Danny Orsen decidiu que aquela bebida não seria boa para os negócios daquela noite. Não. Estava prestes a fechar uma boa quantia com um misterioso babaca, daqueles que usavam um capuz para esconder o rosto. Típico de Jedi, como ele já sabia. Só torcia para que seu empregador não fosse um deles. Porcaria, os Jedi eram péssimos para fecharem negócios. E sempre, sem exceção alguma, utilizavam daquela magia deles, “A Força” para realmente forçar numa negociação. Mas não com ele. O grande Danny era bom demais em truques mentais para se deixar cair em qualquer babaquice espiritual transcendental daqueles monges malucos.

Malucos sim, mas os sabres de luz eram legais. Para ele, um contrabandista apenas à procura de um emprego que permitisse que ele encerrasse sua carreira, uma arma daquelas seria de grande serventia. O mercado negro estava repleto das réplicas, que os mercadores juravam ser reais. Não foram poucos os casos de usuários que apertaram o botão e a luz falhou. Então apontaram para sua própria cara e descobriram, tarde demais, que o acionamento sofria de um delay de trinta segundos. Imbecis.

Mas Danny estava cansado daquele ambiente. Para dizer a verdade, estava cansado daquela vida. Ele era do tipo de ladrão que pensava que um dia terminaria sua vida em um planeta desconhecido, com uma praia bonita, algumas mulheres e quem sabe uma casa imensa. Longe de toda aquela loucura de República e Separatistas. Afastado das guerras, apenas tomando seus drinques e fazendo amor com uma garota diferente por dia, sete vezes na semana. Ah, essa vida seria boa…

Mas para conseguir este sonho, ele precisava aceitar todo o tipo de trabalho. As despesas da nave eram caras e alguns serviços acabavam em complicações. Então, se o empregador fosse um Jedi metido a sabichão, qual o problema?

– Esperando alguém, Orsen? – perguntou Inava, uma Mirialan de pele esverdeada que partilhava daquele mesmo bar… E algumas vezes da cama de Danny também.

– Sempre estou, docinho. Sempre. – ele respondeu. Fingiu bebericar sua bebida, mas devolveu-a intacta à mesa. Inava sorriu para ele e se sentou. Usava uma camiseta branca e decotada e óculos de piloto sobre a cabeça. Sua maneira, apesar de haver sensualidade, era também bem robusta, do tipo que desconvidava alguém a se aproximar e tentar uma cantada barata.

Talvez o blaster em sua cintura também ajudasse nisso.

– Vocês machos humanos são sempre tão patéticos assim?

– Qual é, Inava? Tem funcionado, sabia? – disse o contrabandista, com tom ofendido.

A Mirialan riu novamente. Pegou a bebida de Danny sem pedir e tomou um longo gole. Embora fosse forte, ela nem sequer tossiu.

– Você já bebeu coisa mais forte.

Desta vez, quem riu foi Danny. De braços cruzados, observando a movimentação do bar e esperando ver o seu contratante, ele perguntou:

– O que você quer, afinal?

– Temos assuntos inacabados, esqueceu?

Danny franziu o cenho e olhou para ela.

– Inacabados? Olha, que eu me lembre, em nosso último assunto, nós estávamos bem acabados.

O movimento de Inava foi bem rápido. Danny não conseguiu pará-la. Antes que seu cérebro pudesse processar, uma adaga afiada estava apontada para a sua virilha e o rosto da caçadora de recompensas colado ao seu ouvido.

– Você ainda está me devendo, lindinho. – disse ela, lentamente. Parecia saborear cada palavra.

Danny olhou para baixo e engoliu em seco. Inúmeras cenas se desenrolaram em sua imaginação, mas nenhuma delas era boa o suficiente. Esta era uma das raras ocasiões em que o contrabandista não sabia mais o que dizer.

– Acho que me lembrei.

Inava soltou um risinho e pressionou levemente a adaga.

– E quando vou ver meu dinheiro?

– Inava, meu amor, assim você me ofende. Quer dizer que eu sou apenas um gigolô à sua disposição? – perguntou ele, tentando ganhar tempo. Tinha uma ideia e esperava que sua virilha sobrevivesse por enquanto.

– Eu não pagaria por um serviço tão medíocre, amor. Agora me responda. – vociferou a Mirialan, ainda que sua voz quase não se sobressaísse diante de tanta barulheira no bar.

Inava estava tão próxima de Danny que não o viu deslizar a mão direita para seu coldre, onde sua arma reserva estava guardada. Também não viu quando ele colocou a arma atrás de suas costas e mirou nela.

– Te pagarei assim que receber do meu próximo serviço. – ele respondeu.

– Você está brincando com a sorte, lindinho. – a adaga se aproximou ainda mais, tocando em partes de Danny que ele não gostaria.

– Eu faço minha própria sorte. Agora se puder se afastar um pouco…

O rosto de Inava se contorceu em uma expressão de incredulidade, mas ao ouvir o som da arma sendo destravada, ela entendeu. Ficou alguns segundos fitando Danny até que finalmente sorriu e retirou sua adaga. Não era uma boa disputar velocidade com aquele contrabandista, ela bem sabia.

– Este serviço vai ser dos grandes, te garanto. Acho que posso receber o suficiente para te pagar até com juros.

– Vai me pagar os juros? – ela perguntou, sem acreditar.

– É claro que não. Mas eu poderia. Ainda assim, posso te levar em algum lugar bem legal e pagar a sua conta, o que acha?

Inava ficou um instante em silêncio, fitando Danny, como quem avalia se valia a pena iniciar um combate ali dentro. Logo em seguida, sorriu e tomou mais um gole da bebida do contrabandista. Então puxou-o pelo cavanhaque e deixou um beijo em sua boca.

– Ficarei aqui e acompanharei a negociação. – falou.

– Creio que não vá ser possível. Eu disse para eles que estaria sozinho. Você não confia em mim?

– Não. E eu vou ficar.

Desta vez foi Danny quem ficou em silêncio olhando para Inava. Tentou achar nela qualquer resquício de que estivesse brincando e que tudo aquilo não passava de uma besteira dela. Não havia nada em seus olhos que indicassem isso. Nada que pudesse acalmar o coração do contrabandista.

A porta do bar se abriu.

Duas figuras encapuzadas entraram e vieram em sua direção, como se já soubessem onde ele iria estar. “Merda, são Jedi”, pensou ele. Um deles era extremamente pequeno, o que contrastava com o seu parceiro, que era ainda um pouco maior que o contrabandista. Inava não pareceu se abalar. Ficou ao lado de Danny em silêncio, como se fosse realmente uma parceira dele.

Nervoso, Danny se ajeitou na poltrona e arrumou sua roupa. As figuras se aproximaram o suficiente para que suas vozes fossem ouvidas. Era impossível ver seus rostos, imersos na mais completa escuridão do robe.

– Você disse que estaria sozinho. – falou o mais alto. Sua voz era severa, recriminatória.

– Eu sou a parceira dele. – falou Inava, sentindo seu ego inflar, procurando mostrar que aquela era a sua área. Ela comandava.

– Não, ela não é. – desmentiu Danny, recebendo um olhar de incredulidade e desprezo da Mirialan. – Já mandei que ela fosse embora, a propósito.

O menor dos encapuzados ergueu uma das mãos e disse:

– Embora você irá. – sua voz era fina e um tanto estranha. O sotaque era desconhecido para Danny, que se orgulhava de ter conhecido quase todos os povos que podiam ser conhecidos. Mas aquele, no entanto, lhe despertou a curiosidade. E a maneira como foi dita… Tinha algo impresso naquele tom.

Os olhos de Inara se tornaram baços e ela o encarou. Então disse, se levantando:

– Vou embora.

– E repensar sobre sua vida você vai. – completou o baixinho.

– E vou repensar sobre a minha vida.

Então foi embora.

Danny Olsen engoliu em seco. Sabia que sua mente era forte o suficiente para os truques Jedi, mas temia o caminho daquela religião maluca deles. A Força era como um livro que o contrabandista viu e deixou quieto, nem se atreveu a ler a contracapa. Porém ele não tinha escapatória. Por isso ficou sentando e fez um aceno com uma das mãos para que os Jedi se juntassem a ele.

– Em que posso ajudá-los? – perguntou, tentando manter o tom descontraído, enquanto ambos se sentavam. O menor deu um pequeno pulo e se ajeitou.

– Precisamos que leve um dos nossos para coordenadas que ainda lhe daremos. Ficamos sabendo que foi um dos poucos que viajou para a Orla Exterior, procede? – Danny respondeu com um aceno de mão, como se não quisesse se gabar. O Jedi continuou: – Você não deve fazer perguntas e não deve alterar o seu caminho em nenhum momento. Qualquer indício de que você compartilhou estas informações e você será tratado então como um inimigo da República. Será preso e condenado. Estamos entendidos?

– Vocês querem que eu balance a cabeça dizendo que aceito os termos? Isso não vai acontecer até eu saber o meu pagamento. – Olsen falou sério. Seus olhos se estreitaram e seu cenho franziu.

– Seremos generosos.

– O quão generosos?

– O suficiente para que leve a dama que estava aqui para qualquer lugar e pague a conta dela. – respondeu o Jedi.

Danny não teve tempo de processar a resposta. Os Jedi se colocaram de pé e viraram as costas logo em seguida. Mas antes de partir, o menor disse:

– Preparada sua nave deve estar em dois dias. Não mais, não menos, hmm?

Danny não respondeu. Estava procurando a escuta que haviam colocado nele.

Dois dias. É, ele tinha escutado bem.

Como ele odiava os Jedi…

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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