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Phillip olhou pela janela da cabine do capitão, não pela primeira e nem pela última vez. Aquela chuva era a pior que ele já tinha presenciado em muito tempo e ele não podia deixar de sentir um medo cada vez mais constante que se aproximava como um monstro, subindo pela sua espinha como unhas frias e mortiças. À estibordo era impossível notar alguma coisa além da névoa espessa e da cortina d’água. À bombordo, a mesma paisagem amedrontadora, apavorante e hipnótica.

– Se as ondas não nos virarem, racharemos ao meio. – disse Abraham, o contramestre. Era um velho carcomido pela guerra, cheio de manias e tiques e um senso de humor inabalavelmente horrível. Seu sotaque britânico era arrastado, o que tornava o exercício de compreendê-lo uma tarefa árdua, conquistada apenas por aqueles que por mais tempo velejaram ao seu lado.

Aquele navio não pertencia a Phillip antes. Ele nem mesmo o comprou. Nos horrores pós-guerra, não era difícil encontrar embarcações abandonadas nos mares, como mausoléus ambulantes à deriva na vastidão azul. Encontrou aquele navio de transporte de contêineres ao horizonte em Bournemouth. Teria achado aquilo muito normal se um tiro de sinalizador não houvesse sido disparado no momento. Com uma pequena escuna, este sim sendo um barco comprado por ele, Phillip velejou até lá com maestria. Mal aportou e uma escada desceu até ele. Subiu à bordo, interessado pelo pedido de ajuda e encontrou Abraham, na época um homem um pouco mais jovem, mas bem magricela e queimado pelo sol. Estava com fome e dizia coisas ininteligíveis. Falava sobre sua tripulação toda ter sido transportada para um lugar terrível, embora ele mesmo tivesse sobrevivido, em meados de 1919, um ano antes. Falava sobre o terror dos mares, enquanto os olhos vazios focavam na praia. Era óbvia a vontade dele de voltar para a terra, e foi o que Phillip fez. Não muito tempo depois, Abraham insistiu que fossem para a última localização de sua tripulação. Disse que o navio devia ser conduzido por alguém mais capacitado e que daria um jeito de fazer um bom pagamento. Acreditando fielmente que o velho tinha enlouquecido e que a tripulação inteira poderia estar morta por escorbuto, Phillip aceitou com a condição de que, se os antigos tripulantes não fossem encontrados, o navio cargueiro seria sua propriedade e Abraham seguiria ao seu lado.

Esta história completaria 10 anos em poucos meses. Isso se, é claro, o navio não afundasse antes. Cinco anos antes, em 1925, Abraham desistiu de sua loucura e disse que, o que quer que tenha levado sua tripulação, agora estava adormecido. Ainda assim, havia apenas uma certeza para ele. Em 1919, ele avistou uma cidade e uma voz atraíra sua tripulação para fora. Ele estava no banheiro, como relatou. Quando saiu, não havia mais ninguém. O navio ia em direção contrária de ruínas que pareciam torres negras.

Agora, o vento rugia como um animal gigantesco. Os relâmpagos cortavam os céus, clareando a visão por alguns segundos daqueles que ainda buscavam manter a embarcação, então chamada de Amante Noturna, virada para cima, enquanto as ondas batiam com violência em seu casco.

– Vire todo o leme para a esquerda, em direção àquela onda. – disse Phillip à James, um rapaz de não mais que vinte anos de idade. Um novato em meio aos velhos, inexperiente, mas cheio de vontade de aprender. Talvez isto explicasse o motivo dos olhos do garoto estarem esbugalhados e suas axilas cheias de suor. Estava morrendo de medo em sua primeira tempestade. E o capitão também estava, mas não podia transparecer.

O navio virou subitamente, escorando-se em uma onda menor que vinha em direção à proa, atingindo-o como um calço, auxiliando a enorme embarcação a se sustentar na tempestade. A onda para a qual a frente do navio estava virada era imensa, mas Phillip sabia o que estava fazendo. Já tinha feito aquilo muitas vezes. Perfuraria a onda como uma espada. Olhou pela janela. O convés estava vazio. Os homens esperavam na parte de baixo o término da tempestade.

– Senhor, isso vai dar certo? – perguntou o garoto, os braços tremendo enquanto ele segurava o leme. Abraham aplicou um safanão em sua cabeça.

– Não questione as ordens de seu capitão, moleque! – então abaixou a voz quase completamente e sussurrou no ouvido de Phillip: – Isso vai dar certo?

Phillip sorriu nervosamente. A onda era muito maior do que ele esperava. Se não funcionasse, ele teria apenas alguns segundos no qual aproveitaria o movimento da onda e giraria para a esquerda, torcendo para que o embalo o mantivesse em pé novamente enquanto a água sacudia o casco.

– Sim. Vai dar. Preste atenção em cada palavra que eu disser e sairemos vivos dessa tempestade, meu garoto. – o encorajou enquanto bagunçava o cabelo de James. Com trinta e oito anos, ele se via naquele novato, quando ia à pescaria com o pai.

A onda se aproximava e o navio terminava de virar. Quando chegou ao exato ponto que queria, James reverteu todo o leme conforme lhe fora ensinado. Então, voltou-o para a posição central. E foi neste exato instante que a água aplacou toda a proa, inundando o convés inteiro. Por um momento Phillip prendeu a respiração, pensando se aquilo teria dado certo realmente.

O navio perfurou a onda, enervando-se aos poucos como uma criança saindo do ventre de sua progenitora. Atingiu a crista dela, ascendendo tal qual um náufrago lutando por um pouco de ar. O navio todo tremeu, ou talvez fossem apenas as pernas de Phillip. James soltou um murmúrio baixo, temerário. Abraham agarrou o ombro do capitão e apertou com força. A proa erguia-se, ameaçando virar a embarcação para trás.

– Gire todo o leme para estibordo! – gritou Phillip de imediato. O novato girou. Por sorte, as pás que movimentavam o navio estavam submersas. A ponta começou a ir para a esquerda. – Agora reverta! – ordenou. James acatou com rapidez. A embarcação foi para a direita, descendo em diagonal a onda, ameaçando virar para o lado. Agora vinha a pior parte.

Rezar e torcer para que desse certo.

O navio deslizou com os trovões ribombando do lado de fora. James fechou os olhos, novamente os braços tremendo, o pomo-de-adão subindo e descendo em um frenesi intenso. Phillip colocou a mão em seu ombro e apertou, acreditando que assim pudesse passar um pouco de confiança em seu subordinado.

James era sobrinho de Phillip. A irmã do capitão, Katelyn, requisitara que o filho tivesse instrução em alguma coisa e que o verniz do garoto fosse tirado. Phillip se prontificou imediatamente. Sempre gostou do garoto e este sentimento apenas aumentou quando James foi declarado como sendo seu afilhado. Uma grande honra naquela época. Então era o dever do capitão, acima de tudo, manter a vida daquele garoto em segurança, algo que até o momento ele estava falhando. Mas afinal de contas, a vida num convés sempre seria difícil e instável. O mar era traiçoeiro.

A viagem até aquele presente momento havia sido tranquila. O sol estava a pino todos os dias no primeiro mês, com apenas algumas nuvens esparsas no céu azul. De noite, o frio aumentava com a maresia. Golfinhos e baleias os acompanhavam, nadando lado a lado numa maravilhosa cena digna dos mais belos livros. Até então, levar os três contêineres contendo tecidos dos mais variados tipos estava sendo uma tarefa monótona e algumas vezes cansativa. Até, é claro, aquele momento.

Então, duas coisas aconteceram ao mesmo tempo.

A primeira foi quando o navio tocou sua base completa no mar, esparramando água para todos os lados. James respirou aliviado e soltou um grito de comemoração. Phillip abraçou Abraham, também contente por não terem fenecido naquele mar revolto. Mas o respiro atenuado cessou subitamente, sendo cortado na garganta como um sopro preparado para um grito de horror e espanto.

Ao norte, o horizonte era vermelho. Recortado na penumbra mortal, as ruínas de uma cidadela erguiam-se impávidas e colossais. Não eram rochas, pois rochas não possuíam um formato tão perfeito como as torres que se destacavam. A chuva parou instantaneamente assim que passaram a se aproximar, boquiabertos. Phillip não dizia nada e nem olhava para os lados, hipnotizado pela figura estonteante daquela cidade no meio do mar.

– É ela, Phill. – falou Abraham ao seu lado. Estava com a voz embargada, seus olhos vertiam lágrimas nervosas. Sua boca tremia e seu coração batia descompassado. – É a cidade.

O mar acalmou subitamente. As ondas gigantes desapareceram, as nuvens negras sumiram. Os relâmpagos cessaram. O silêncio era irritante, uma presença viva que os lembrava de histórias antigas de ninar. Era como a criança que, ao deitar em sua cama na mais completa escuridão, lembrasse de repente da lenda do bicho-papão.

– É a cidade. – tornou a falar Abraham. O cheiro de urina invadiu a cabine. Do lado de fora, no convés, os marinheiros saíam do porão, prontos para voltarem aos seus postos, agora que a chuva havia cessado. – É a cidade.

Os homens no convés começaram a apontar e a gritar. Estavam todos assustados, apesar de que uma ilha não seria nada anormal. Ilhas eram descobertas o tempo todo. Mas a região propagava o medo. O modo como a chuva parou e o mar se calou era de dar calafrios. Algo sobrenatural acontecia ali, fazendo os nervos enregelarem e as pernas balançarem. Algo ali era responsável pelas pernas tremerem e as bexigas não se aguentarem. Era a encarnação do mau-agouro, era a visão do inferno redefinida em formas de uma cidade em ruínas no meio do mar. Era Atlântida descoberta. Era a certeza de que monstros marinhos eram capazes de existir, já que uma cidade flutuante no meio de um oceano revolto também era possível. Era a quebra de paradigmas, a destruição da barreira mental. Havia uma cidade ali, e o navio era parcialmente atraído para ela. E ninguém conseguia mover um músculo. Phillip não conseguia acreditar. Seus olhos não desprendiam daquela visão aterradora. Um som baixo, mais como uma frequência nunca antes sintonizada p
elo intelecto humano, ecoava daquelas paredes rochosas. Era um ruído chamativo, como o ronronar de uma fera gigante.

R’lyeh!

A palavra, se aquilo fosse mesmo uma palavra, ecoou pela mente de Phillip sem motivo algum. Ele olhou para os lados, achando que James ou Abraham o chamara. Bem, o garoto estava com os braços firmes e os nós dos dedos brancos com a força em que ele segurava o leme. Já Abraham continuava a balbuciar “É a cidade”. Ninguém pareceu ter ouvido o que ele escutou.

Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn!

A frase se montou completa na mente de Phillip, apesar de que ele nunca, jamais tivesse ouvido falar numa língua como aquela. Não sabia se aquilo era uma frase ou uma só palavra. Seja lá o que fosse, era dita sussurrante e etérea. Vinha de todos os lugares e ao mesmo tempo de nenhum. Era como o som de uma onda se quebrando em uma praia com a suavidade de uma gota d’água que pinga em um copo. As palavras eram sincopadas, denotadas gravemente num tom onírico. Era uma voz demoníaca. Era o próprio demônio que sussurrava suas falácias nos ouvidos de Phill. Infelizmente, ele não pôde pensar muito sobre o que estava acontecendo. Sem que esperasse, Abraham o empurrou em direção à parede. James se ergueu e o seguiu, gritando:

– R’lyeh! R’lyeh!

Phillip bateu a cabeça num cano de pressão do navio e sentiu a cabeça zonzear. Ainda assim, se recuperou consideravelmente rápido. Abriu a porta e desceu atrás dos dois homens enlouquecidos.

– É A CIDADE! É A CIDADE! – gritava Abraham, correndo em direção à amurada. James o seguia numa insanidade compartilhada. O que diabo estava acontecendo?

– Segurem-nos! – gritou Phillip. Pulou os últimos degraus e se jogou sobre o corpo de James, rolando com ele no chão do convés. O menino tentou se desvencilhar, violento, mas o aperto do capitão era forte demais. Já Abraham continuou sua corrida sem fim e aproximou-se da amurada do navio. – Segurem! – tornou a gritar Phill. Os homens, sem entender muita coisa, correram até o velho e o seguraram pelo pescoço quando ele já estava com metade do corpo para fora, gritando sempre que aquela era a cidade.

– Me solta! – gritou James. – R’lyeh me espera! Me solta! Ela me chama! Tio, ela me chama!

– Cale a boca, moleque. Acalme-se!

Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn!

A voz em sua cabeça tornou a sussurrar, agora como uma cachoeira na qual sua sanidade começava a se aproximar. Phillip fechou os olhos e colocou os dedos na têmpora, sentindo uma súbita dor de cabeça lhe afligir. James parou de se debater, mas seus olhos ainda eram baços, vagos demais para alguém que tinha seus pensamentos em ordem. Estava com medo demais e a histeria era facilmente explicada. E de repente caiu a ficha de Phill.

As ruínas que ele observava foram as mesmas ruínas que ele prometeu encontrar a Abraham. Eram exatamente como ele as havia descrito. Uma luz bruxuleante e um tanto distante brilhava naquela direção, como um farol chamando a atenção de todas as embarcações, ou talvez as atraindo. Ele precisava analisa-la melhor… Soltou James quando viu que ele estava recobrando o pouco da consciência que ainda lhe restava e foi até a ponta da proa. Os homens estavam ao seu redor, vinte no total. Senhores e jovens robustos e acostumados com o cheiro do mar. Acostumados com o peso das vergas e da falta de comida sem sal. Alguns eram ainda veteranos de guerra. Era uma tripulação decente e Phillip era capaz de confiar a vida naqueles marujos. Mesmo diante de tal anormalidade, eles mantinham o silêncio, ainda que incrédulo. Aguardavam ordens, queriam saber para onde ir, quais postos tomarem. Mais atrás, Abraham ainda continuava a gritar. O homem mais próximo do capitão era o imediato Tatch, um negro robusto com um senso de humor inabalavelmente bom. Apesar de sempre estar sorrindo, até mesmo em tempestades terríveis, ele não se deixava desanimar. Era quem mais gritava e quem mais procurava ajudar.

– Que é aquilo, capitão? Parece uma cidade imensa. – falou ele com as mãos na cintura e uma respiração profunda.

– É o que me parece também, Tatch. O fato de dois de meus homens terem parcialmente enlouquecido me deixa ainda mais nervoso em relação ao lugar. – falou Phillip, olhando para as torres que recortavam o céu noturno. – O navio parece estar sendo atraído até ali e não há vento algum.

– É o demônio, capitão. O demônio controla estas águas. Dá pra sentir no ar. A maresia aqui é diferente. Não fede apenas à algas e peixe e sal. Fede à morte e coisa antiga. Os homens estão preocupados, mas não falarão a menos que o senhor diga que eles podem falar.

Phillip coçou a barba, pensativo.

– Quantas armas nós temos? – perguntou ele, depois de um tempo de silêncio. A cidade realmente atraía a sua curiosidade.

– Oito Springfields e seis pistolas Colt M1911. Temos barris com pólvora e cerca de dez dinamites. – respondeu Tatch de imediato. Armas era sua principal paixão. Passava horas cuidando de cada uma delas, montando e desmontando.

– Faremos uma incursão por estas ruínas.

Tatch arregalou os olhos. Era a primeira vez que demonstrava medo, depois de tanto tempo que passou ao lado de Phillip. Era um homem religioso e supersticioso demais para simplesmente invadir aquelas ruínas, sabendo que alguma coisa maligna agia por ali.

– Desculpe-me, capitão, mas o senhor perdeu a cabeça. Invadir aquelas ruínas é o mesmo que implorar pela morte!

– Se for algo novo ali, meu amigo, estaremos milionários. Sem falar que estou curioso. Até então, me parece realmente uma cidade muito antiga. Eu mesmo jamais ouvi falar de algo parecido, a não ser por Atlântida.

Tatch se afastou. Phillip olhou para ele. Se ali tivesse um espelho, o capitão teria visto o brilho psicótico que começava a se formar em seus olhos. Ele não estava nada bem, mas pensava estar. Era aquele o pior tipo de loucura, não era? Quando não se sabe se está vivendo a realidade e tomando decisões sóbrias. O imediato viu esse brilho e entendeu que Phill não voltaria atrás em sua decisão. Fez então o sinal da cruz no ar e virou as costas.

– Confie em mim, Tatch. – gritou Phillip.

O imediato não voltou a olhar para ele. Desceu para o porão, deixando Phillip lá em cima com os outros. Em sua mente, ele só conseguia pensar em escrever uma carta para a família, pois tinha certeza de que não retornaria se caso decidissem mesmo aportar naquelas ruínas.

Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn!

Phillip balançou a cabeça, atordoado. A voz estava ficando cada vez mais forte à medida que se aproximavam da cidadela. Ela era enorme, agora que vista de mais perto. Não havia apenas torres, mas pontes que as interligavam e muros altos. E o silêncio no mar persistia, nem sinal da chuva brava que uma vez assolou o navio. Nada a não ser o balançar suave oceânico e o cheiro de morte e de maus presságios. E a voz, que o atraía para os portões perdidos.

– Joguem as âncoras. Seguiremos de barco a partir daqui. – falou ele, saindo da amurada e indo até Abraham, que agora parecia estar mais calmo. Ele e James haviam sido colocados lado a lado. A insanidade neles era aparente, mas Phillip achou que talvez, se Abraham descesse para a cidade, ele ficaria até melhor do que era antes. E James precisava de uma aventura para tirar o verniz, não precisava?

Claro que precisava. Todos precisavam. Todos queriam ver o que tinha naquelas ruínas. Phillip tinha certeza de que estava fazendo um favor para todos. A voz dizia aquilo para ele e aquilo que ela dizia parecia chama-lo. E por que não aceitar a ordem de uma voz misteriosa, provavelmente de Deus? Se Deus o mandasse uma mensagem, ele ouviria, não? Então que Tatch fosse para o diabo com sua insubordinação. Ele era o capitão e sabia o que estava fazendo, não sabia? Não sabia? Coçou a barba e depois os braços. Parecia que alguma coisa rastejava por baixo de sua pele. Olhou para ela. Viu olhos que o observavam por baixo da epiderme. Sentiu-se cego sem aqueles olhos. Sua pele atrapalhava a visão. Tinha que fazer todos verem o que estava acontecendo. Tinha que fazer com que acreditassem. Ele era o capitão, tinham que obedecê-lo. Tinham, tinham sim. Coçou a barba e os braços. Os olhos sumiram. Agora seus braços eram tentáculos. Ele riu. Tentáculos eram legais. As ventosas repletas de dentes se abriam e se fechavam. Uma delas sussurrava o nome R’lyeh. Phillip não sabia o que era, mas algo dentro dele dizia que era o nome da cidade. Era o nome daquelas ruínas, belas ruínas. Coçou a barba, mas descobriu que sua barba não era mais barba, e sim tentáculos. Olhou para os braços. Eram braços, pelo menos. Ele riu, mas depois gritou espantado. Eram tentáculos! Coçou então os tentáculos, mas descobriu que eram barbas. O mundo ao seu redor girou. Ele olhou ao seu redor. Estava no meio de uma clareira. Estava cercado por pedras e enormes torres. Ele estava acompanhado por pessoas. Não, não eram pessoas. Eram criaturas. Tinham o formato de sapos com peixes, olhos dourados e bocas repletas de dentes. Uma das pernas saía do ventre delas, e os braços ficavam onde deveriam ser os seios. Andavam por meio de uma calda de serpente. Eram criaturas estranhas e Phillip sentiu-se enjoar. Olhou então para onde todas olhavam. Coçou a barba e depois os braços. Então coçou o peito. Riu, pois no peito havia braços. Suas pernas eram tentáculos. Ergueu seu olhar e viu uma enorme torre. No topo dela, uma bola azul que só fazia aumentar de intensidade. Phill riu e coçou os braços. Olhou ao redor. As criaturas o observavam.

Sua visão desanuviou antes que ele pudesse gritar, acometido pelo pânico e terror que inundaram seu coração como uma onda gigante que se aproximou sem fazer alardes. Ele estava sendo segurado por quatro homens, tal qual aconteceu com James e Abraham. Teria ele ficado louco? Notou também que estava aos berros, mas não saberia dizer o que falava. Sua garganta doía muito e seu corpo inteiro tremia. Então, tomando novamente posse de sua consciência, ele respirou fundo e parou de lutar. Estava na amurada do navio. Ao longe, ainda havia a cidade, agora encoberta por uma espessa neblina.

– Já chega. Não vamos descer nem que o capitão queira fazer isso. – falou Tatch. – Ele não está em condições de opinar sobre nada no momento. Amarrem-no junto com Abraham e James para que eles não se machuquem.

– Eu já estou bem! – gritou Phillip. Estava rouco e sentia o gosto de sangue em sua boca, um sabor metálico. – Não sei o que me deu.

Em sua morada em R’lyeh, Cthulhu, morto, aguarda sonhando.

A mesma voz o assaltou e ele olhou para os lados, assustado. Suava em bicas, procurando a origem daquele tom que ele compreendia tão bem. Olhou em direção à James, cujos olhos fitavam os seus.

– Agora o senhor entende, não é? – ele falou balbuciante.

Phillip engoliu em seco. Sentiu dentro de si as entranhas se contorcerem. Estava lívido de pavor, mas também determinado a entender. Soltou-se dos quatro homens que o seguravam e ajeitou sua veste, tomando de volta sua posição como capitão. Olhou aos homens ao seu redor e declarou:

– Não sei o que há naquela cidade, mas ela nos atrai. Tive visões e estou mais do que determinado a partir em direção a ela. Os que não concordam com os termos, podem permanecer dentro da embarcação, mas já aviso que não me terão mais como amigo ou chefe. Estarão expulsos de minha tripulação assim que retornarmos à Inglaterra.

Os homens se entreolharam, receosos. Obviamente que não tinham passado pela mesma experiência que Phillip, então não podiam compreender o quão importante aquilo era. Mas o capitão sabia a importância daquela missão e faria de tudo para cumpri-la. Mas Tatch resistiu firmemente.

– Não há o que fazer naquele lugar amaldiçoado! Se o capitão e estes dois homens, que ficaram conosco durante um longo tempo, de repente enlouqueceram só tendo um vislumbre dela, o que acontecerá então se pisarmos em seu solo? O lugar é para os loucos, aviso já. Não pisarei em terra e procurarei outra embarcação que possa me servir. – falou ele, respirando fundo e deixando seu corpo inteiro tremer. Phillip viu que ele estava tão louco quanto Abraham, mas que sua insanidade tinha algo a ver com o medo, e não com a cidade em si.

– Todo tesouro é bem guardado. Esta cidade se chama R’lyeh, agora me lembro! – uma boa mentira, ele nunca ouvira falar naquele nome. Mas as vozes na sua cabeça não mentiam, não é? – E Cthulhu nos aguarda!

Mais uma troca de olhares entre os homens. Abraham se encolheu atrás de Phillip e James soltou um gritinho desesperado.

– E o que é este Cthulhu, cujo nome nem sei pronunciar? – perguntou outro marinheiro, sendo o primeiro deles a erguer a voz.

– Ora, saberemos ao chegar na cidade! Pode ser qualquer coisa! Desde um documento antigo até um tesouro inimaginável.

– Ou um demônio! – falou outro. Os homens começavam a se erguer contra ele. Se a intenção de Tatch era derrubá-lo, estava conseguindo. E o desgraçado apenas o encarava, parecendo estar segurando o riso debochado.

– Não é um demônio. Estes termos supérfluos não nos levam a nada, senhores. Acreditem quando digo que devemos aportar.

– Não vamos descer do navio, Phillip. – gritou Tatch.

O mundo de Phillip escureceu. Ele não fazia ideia do que aconteceu, mas só retomou sua consciência quando estava com uma pistola na mão direita, que tremia de nervosismo. A arma estava apontada para seu imediato. O capitão respirava pesadamente e ele não fazia ideia de como fora tão rápido. Tatch o encarava com os braços para o alto, completamente rendido.

– Nunca mais fale assim comigo na frente de meus homens! – gritou Phillip. Baba escorreu de sua boca.

– Abaixe esta arma, capitão… – pediu Tatch, cauteloso e sem nenhum traço de sua antiga personalidade truculenta e sarcástica. Onde estava o sorrisinho maldito?

– Oh, agora voltei a ser seu capitão, não é? Vamos ver como vão me chamar se seus miolos se espalharem na porra do meu navio.

Como os outros o chamariam, Phillip não ia saber tão cedo. Estava preparado para puxar o gatilho, pois sentia que era aquilo que deveria fazer, mas algo aconteceu. Uma onda enorme, não vista por ninguém, acertou a lateral do navio. A arma escapou das mãos do capitão quando ele foi jogado para o lado. A embarcação começou a virar, ameaçando ficar de ponta cabeça. Cinco homens deram seu último grito quando estavam deslizando pelo convés em direção ao mar. Abraham e Tatch eram dois destes pobres coitados que foram os primeiros a morrer naquele dia.

Phillip começou a deslizar também, sentindo um frio profundo na barriga. Não, não era seu momento de morrer. Não podia ser!

– Não pode ser! – gritou ele, tentando se segurar em alguma coisa e vendo o corpo de Tatch cair para fora do navio e ser atropelado por ele. Justiça, seu merdinha insubordinado, pensou.

Não estava acreditando ainda que iria morrer quando uma mão segurou seu colarinho com força. Olhou para cima e viu James, os olhos espantados, mas conscientes. Isso deu tempo suficiente para que Phillip visse uma fissura na amurada e se segurasse ali. O coração batia forte em seu peito e ele podia jurar que não estava mais respirando. Contêineres caíram no mar com um baque profundo e foram arrastados.

Mas a cidade se aproximava.

Aproximava-se demais.

A onda morreu e o navio continuou pela inércia. Virou, como por mágica, para o lado oposto ao que estava caindo, e então se chocou com os rochedos que circundavam a cidade. Fez um barulho do casco se quebrando e simplesmente parou. R’lyeh nos trouxe por conta própria. Cthulhu nos trouxe.

Os homens se levantaram, aturdidos. O que diabos estava acontecendo ali? Phillip sabia a resposta e estava feliz. Cthulhu o protegia e ia continuar protegendo. Eliminou o problema que ia impedi-lo de se aproximar da cidade, não eliminou?

Então por que estou querendo levar armas para a cidade de tão bondosa entidade?

Mas que armas seriam estas? Todas as armas agora estavam descansando no fundo do mar, juntas com o infiel, seus seguidores e Abraham, cujo desejo era se juntar à cidade. E se juntou. R’lyeh era realmente bondosa!

Os homens se ergueram. Eram doze contando com Phillip e James, que agora também estava de pé. O capitão olhou para o garoto, fraco demais para prosseguir. Não permitiria que ele descesse do navio, a cidade podia não gostar de pessoas fracas. Sem falar que, é claro, alguém tinha de ficar de olho no navio.

– Preparem os botes. Vamos até a cidade.

Os homens se entreolharam, assustados. Phillip não pôde acreditar. Aqueles subordinados ainda desconfiavam de sua palavra?

– Escutem! É o desejo da cidade que cheguemos até ela. Aqueles que foram contra, morreram! Tatch foi contra a vontade de R’lyeh e de Cthulhu e pereceu no mar eterno!

Novamente os homens se entreolharam. Deviam pensar que ele era louco. Phillip não sabia, mas seus subordinados estavam completamente corretos em pensar desta maneira. Mesmo assim acataram à ordem de seu superior. Talvez ele estivesse certo, no fim das contas. Não tinham presenciado tamanha força da natureza que os arrastou para aquelas ruínas malditas?

Os botes estavam intactos e foram descidos para o mar sem muita vontade por parte dos tripulantes. Eram dois barcos pequenos, que virariam com qualquer onda, mas o oceano voltou a ser calmo. James estava se preparando para descer, mas Phillip colocou a mão em seu ombro.

– Você fica. – falou ele.

– Mas eu quero ir. – disse o rapaz.

– Preciso que alguém fique no navio, cuidando de tudo. Estaremos de volta em breve.

James recuou da amurada. Olhou para seu tio e as palavras se formaram em sua mente, mas ele não se atreveu a proferi-las. Seria como dar sentido à profecia, torna-la real. Não, não voltarão, pensou.

Phillip assentiu positivamente, sabendo que alguma coisa incomodava seu afilhado. Ainda assim, não tinha muito o que fazer ali. James não estava pronto para enxergar os eventos magistrais daquela cidade. Ele não estava preparado para que sua mente fosse aberta. O capitão estava. O capitão era o mais capacitado entre todos. R’lyeh e Cthulhu escolheram-no para passar suas mensagens. Escolheram Abraham, mas ele era fraco. Escolheram James, mas ele também não era capaz. Mas a escolha dele foi completamente fundamentada.

Desceu pela escadinha e todos os homens, desarmados, o seguiram. Ninguém queria aquilo, mas estavam sendo movidos por uma força maior. Certamente era Deus, pensavam alguns. Outros, no entanto, rezavam silenciosamente. Começaram a remar. A cidade começou a se aproximar. Havia sim um brilho no centro dela. Era um farol para os perdidos. A cidade vivia. R’lyeh vivia e ansiava por ser descoberta.

Phillip sorria. Seria possivelmente o primeiro explorador daquele lugar. Seria o primeiro a fazer a vontade de R’lyeh e acordaria então Cthulhu, fosse lá o que ele fosse. Era esta a vontade, e ele a cumpriria. Olhou para baixo, para o mar. Tocou seus dedos na água.

Uma mão cadavérica tocou a sua. Uma criatura monstruosa, sem carne no rosto, com ossos preenchidos por algas e pequenas criaturas marinhas começou a puxa-lo para as profundezas.

Phillip gritou, puxando seu braço para dentro. O barco balançou. Os homens se assustaram. Retiraram os remos da água e começaram a se apavorar. Mas não havia nada a que temer. A água estava silenciosa como sempre. Nada tocou seu braço. O capitão estava delirando.

– Haha, foi apenas um truque de minha mente, senhores! – gritou ele para tranquilizar os homens, embora seu próprio coração estivesse em disparada. Mesmo tentando acalmar os ânimos, ele não voltou a olhar para o vazio logo abaixo.

– Esse lugar está carregado de energia ruim, senhor. – disse Donald, uma recém-contratação. Era um homem bom, não desacatava ordens em nenhum momento e trabalhava muito bem na caldeira quando era necessário. Infelizmente, era temente demais à Deus. Phillip detestava aquilo. Estava pronto para provar ao mundo que havia sim algo muito maior que ele. Sentia isso, era possível sentir!

O que você está fazendo? Para onde está levando seus homens?! A voz de sua consciência rugiu, mas ele tratou de apaga-la. Aquele era seu velho eu, tentando novamente tomar as melhores decisões. Mas seu novo eu sabia das coisas melhor do que todos.

Você vai nos matar!

Cthulhu o espera de portas abertas, convidado inestimado.

A última voz era a mesma que sussurrava antes em seus ouvidos. Agora ela se fazia entender, ou ele era bom o suficiente para compreender aquela língua que antes lhe confundira os sentidos.

– Cthulhu nos espera, senhores! – gritou. Não sabia se estava pronunciando de forma correta, até mesmo porque não conseguia dizer exatamente da maneira que a voz dizia em sua mente. Talvez fosse um bloqueio, uma língua tão antiga que seu cérebro fosse incapaz de processar.

– Só espero que não sejamos o seu banquete! – gritou outro marinheiro, no outro barco.

Eu não serei o banquete. O mesmo já não posso dizer sobre vocês.

Uma névoa começava a se formar à medida que iam passando pelos rochedos e se aproximando ainda mais da cidade. A dificuldade em manter o caminho começou a mexer com o psicológico dos homens, que começaram a rezar e balançarem em posição fetal dentro do barco. Phillip não entendia o motivo daquilo tudo. Agarrado aos dois lados do barco, ele estreitava os olhos enquanto os dois marinheiros responsáveis pelos remos grunhiam:

– Você nos trouxe para morrer. Você nos trouxe para morrer.

Phillip olhou para trás. Pensou ter escutado algum barulho. Era como um bloop, mas nada mais logo depois. Procurou pelo segundo barco, mas não o encontrou no meio da cortina branca. Voltou a olhar para frente e seu peito simplesmente quase explodiu ao ver a estátua que encarava o seu grupo. Sua mente colapsou e ele sentiu que estava quase caindo na água.

Uma estátua de no mínimo vinte e cinco metros erguia-se à frente do barco, logo ao lado da escadaria que levava ao interior da cidade. A estátua representava uma criatura nunca antes vista, nunca antes imaginada. Era inconcebível uma arte daquelas, uma tortura psicológica, uma obra de um artista com problemas mentais. Era um dragão, mas ao mesmo tempo era um humanoide. Suas garras eram tão grandes quanto suas mãos, e ela estava parada como uma gárgula, encarando quem se aproximava. Sim, a estátua os encarava. Era como se ela fizesse uma avaliação da alma de cada homem dentro daquele barco. Mas isso nem era o pior de tudo. Possuía asas enormes de dragão em suas costas, apesar de que se assemelhavam também aos morcegos. A cabeça era de um octópode, onde sua barba eram tentáculos.

Seus olhos sangraram, pois seu próprio cérebro rasgou-se ao meio. Phillip gritou em agonia e continuou gritando enquanto seu corpo pendia para fora de seu barco. Nunca chegaria à costa. Nunca nem sequer poria seus pés em R’lyeh. Sentiu braços gelados e molhados o acolhendo em um abraço. Braços cinzentos, cheios de pústulas e algas. A estátua o olhava. A estátua o encarava. O antigo capitão foi puxado para dentro da água, sentindo seus pulmões se preencherem enquanto ele se afogava, sendo cada vez mais puxado para baixo. Olhos arregalados, boca aberta, mãos estendidas para a superfície, braços que o puxavam para a escuridão do mar.

E então, só a escuridão.

***

Um ano depois

David contemplava o mar à sua frente, na baía de Bournemouth. Ainda que não houvesse agitação naquela imensidão azul, ele sentia sua mente fervilhar com os problemas do dia-a-dia. Estava cansado demais, precisava relaxar. Afinal de contas, ser demitido de um emprego onde passou vinte anos de sua vida não era um fato que conseguia ser superado com facilidade. Agora a barba branca crescia em abundância em sua face e ele duvidava muito que fosse conseguir um emprego.

Então talvez tivesse sido o destino que o colocara ali, naquele exato instante… Ou talvez fosse algo ainda mais poderoso. Algo que ansiava por mais sacrifícios. Não é possível saber, já que os psicólogos e filósofos estavam com seus rostos virados para outros problemas.

Mas David viu e se espantou. Onde antes não havia nada, exceto a neblina matinal, encontrava-se um navio de transportes de contêineres. Ele estava parado, não emitiu som algum. Na verdade, parecia mais uma daquelas lendas de embarcações fantasmas que constantemente eram vistas por marinheiros experientes. O Holandês Voador era um navio de contêineres? Ele não sabia, mas sentiu um arrepio estranho surgir em sua espinha e cravar-se em sua alma. Sua nuca eriçou e enviou-lhe um alerta silencioso de que algo estava muito, muito errado.

Um tiro de sinalizador foi lançado para cima logo em seguida, ou talvez tivessem se passado alguns minutos, horas… David nem sequer piscava os seus olhos. Havia alguém naquele navio e este alguém precisava de ajuda.

Sem pensar muito, ele pulou na água fria. Não tinha barco, mas sabia que tinha de ajudar aquela pessoa. Sentia isso. Precisava! Era velho já, mas uma vez nadador, sempre nadador. O navio não estava tão longe. A julgar pelo horizonte, estava a quinhentos até oitocentos metros da praia.

Nadou até que seus membros começassem a latejar de frio e dor. Seria muita sorte se ele não tivesse uma cãibra sequer. O ar gelado tocava em sua pele nua, as ondas começavam a se revoltar, sentindo o intruso em sua bela paisagem de calmaria. Água salgada entrava em sua boca e amargava tudo. Que ideia idiota! E o navio continuava a se aproximar.

Quando finalmente chegou, descobriu-se contente pelo navio não ser uma miragem. Seria realmente desgostoso se tivesse de voltar para a praia, enganado por seus próprios olhos. Por sorte, ele não só pode tocar a superfície do navio, como também sentir o cheiro de metal e sal que ele exalava. E antes que pudesse gritar para quem quer que estivesse ali em cima jogar a escada, a mesma desceu como se já estivessem esperando por ele.

David subiu as escadas e parou no meio do caminho. E se aquilo fosse uma emboscada? E se tivessem piratas apenas esperando para que ele subisse e fosse feito de refém? Ah, mas já era tarde demais para ele pensar naquilo. Seus membros doíam e ele duvidava muito que a travessia de volta fosse mais fácil. Sem falar que ele podia sentir que não havia perigo ali. Mas quando terminou de subir, ele tomou um susto que quase o fez despencar para o mar novamente.

Um homem estava sentado em posição fetal. Balançava-se para frente e para trás. O cabelo era loiro, assim como a sua barba. Os olhos eram fundos e a pele era gasta como quem já passou tempo demais no mar. Ele encarava o nada com assombro, medo. E repetia apenas três palavras:

– Temos que voltar.

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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