A montanha entre nós – 2017  dir: Hany Abu-Assad  com: Kate Winslet e Idris Elba

Produto industrial made in usa saindo sobre medida da linha de produção mais fordista de toda Hollywood pronto para fazer uma grana rápida em cima de um público noveleiro que expresse um “aww” toda vez que depara-se com um labrador na tela. Eu poderia guardar esta sentença para algum outro ponto da narrativa deste texto, mas, tratando-se de A montanha entre nós, qualquer senso de esforço na construção de um discurso arrojado não faria sentido algum, não porque não acredito que o estudo de filmes ruins não tenha valor, tem todo, mas A montanha não é apenas um filme ruim (pelo menos não um que se dê para tirar qualquer proveito do estado de ser tão ruim que é bom), é simplesmente um dos filmes mais preguiçosos que assisti durante todo o decorrer de 2017.

Kate Winslet e Idris Elba representam dois indivíduos bem sucedidos que se encontram num aeroporto em algum estado ao norte dos Estados Unidos com problemas diferentes e uma ideia em comum. Cada um precisa chegar a um destino por conta de clichês diferentes, ela precisa chegar a tempo para sua cerimônia de casamento e ele, cirurgião renomado, precisa chegar a tempo para realizar uma operação importantíssima. O voo de ambos é cancelado por conta de uma tempestade. Kate tem um ideia, “Venha comigo fechar um voo nesse Bonanza (famoso Doctors Killer) que vai sair do aeroporto e nos transportar de maneira totalmente ilícita! Assim, com certeza chegaremos a tempo!”. Eles pegam o voo com o irresponsável, mas simpático piloto que leva seu labrador a bordo. O piloto tem um AVC, eles caem, batem na montanha e apagam. O piloto morre com o impacto, o cachorro sai ileso, Idris também, Kate fica manca.

Um cenário que, a priori, seria experienciado como um inferno gelado na terra por qualquer indivíduo acaba tornando-se um passeio romântico no parque da Rainha Elsa onde o casal se conhece, se apaixona, transa e eventualmente, quanto tem tempo, entra em conflito com o frio e seus dilemas morais. Com direito a piadas de labrador, essa comédia romântica travestida de tragédia termina com seus heróis escapando das garras da montanha, retornando à civilização, onde Kate dá um pé na bunda de seu marido unidimensionalmente indiferente (não que os personagens de Kate e Idris sejam mais densos que uma porta de papel), e encerra em um take interrompido do beijo final/felizes para sempre de Idris e Kate.

Eu poderia, entrar em uma discussão da questão do tempo plástico e falso que é executado durante a obra, expor a inabilidade total da decupagem de expressar qualquer tipo de subjetividade ou sensibilidade verdadeiramente humana, ou, apontar a indiferença na performance absolutamente automatizada de Winslet e Elba, mas, esse filme simplesmente não merece qualquer fração deste tipo de atenção. Contudo, se a praia do leitor for a de consumir um produto hollywoodiano barato e assistir a uma grande aula de como despir-se, como diretor, de qualquer juízo autoral perante a indústria cinematográfica, então, este é o seu filme.

Após um trágico acidente de avião, dois estranhos terão que se unir para sobreviver em condições atmosféricas extremas numa remota montanha. Quando percebem que a ajuda não vai chegar, decidem embarcar numa viagem assustadora por centenas de quilómetros de terra selvagem, encorajando-se mutuamente para aguentar e abrindo espaço para uma atração inesperada.

Gabriel Silveira

Eu gosto bastante de filmes.

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