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Amigos. Um tempo atrás, quando o tema da Baleia Azul ainda era recorrente, eu prometi que ia escrever um pequeno conto sobre a depressão. Bom, enfim terminei. Seria muito importante que repassassem, pois sabemos que nossa comunidade (geeks e nerds), é uma das mais afetadas por esta doença.

 

A Menina e o Mendigo

Fabiana respirou profundamente, tentando conter o choro que queimava em sua garganta e marejava seus olhos. Olhou uma última vez para o arranha-céu à sua frente abaixou a cabeça. Era isso então. Aquele era o fim. O momento pelo qual ela estava esperando, ansiando durante cinquenta dias. Cinquenta dias onde maltratou seu próprio corpo para encontrar a saída. O último desafio, o ponto final em sua história cheia de falsos amigos e amores que acabavam de um dia para o outro.

Ela cerrou os punhos. Estava tremendo demais. O queixo tremelicava e ela sabia que se o deixasse bater uma vez, seria incapaz de parar. Abriu a porta que dava para a recepção. O ar-condicionado ali dentro era fraco demais para esfriar seu corpo. As pessoas olharam para ela, mas como sempre não dedicaram mais do que alguns segundos de avaliação para notarem que ela era indigna de atenção. Na cidade que nunca para, ninguém pararia para olhar uma menina como Fabiana. Ela tinha noção disso.

A recepcionista estava ocupada demais no telefone. Era uma mulher bonita, loira e de olhos azuis. Apesar de não ser tão diferente dela, Fabiana se sentia incrivelmente menos atraente do que ela. E o que isso importava, no fim das contas? Ela só precisava caminhar, mesmo que de olhos fechados. Não precisava enxergar o caminho para saber aonde seus pés a levariam.

Subiu as escadas. Não, não usaria elevador. Ela não tinha pressa. Tudo no fim iria se acertar. Enquanto ascendia rumo ao topo do edifício, ela levantou sua manga esquerda, daquela blusa xadrez vermelha que ela gostava tanto de usar. O desenho da baleia ainda cicatrizava. Não doía mais. Outras dores tomaram conta dela. À medida que o tempo ia passando e os desafios iam se completando, ela ia se sentindo ainda mais capaz, sentia-se parte de alguma coisa. Não era mais o objeto esquecido num canto da sala. Era finalmente o instrumento numa orquestra.

E sorrir, mesmo que o choro quisesse transbordar, tinha se tornado sua especialidade. Ela sabia bem como esconder seus sentimentos. Ah, como ela sabia. Era profissional nisso. Pelo menos em alguma coisa ela tinha de servir, não?
Alcançou o último andar. Estava cansada e com as pernas latejando. Encontrou a porta da saída de serviço. Não parou para descansar. Uma lágrima desceu e ela deixou que escorresse por todo o seu rosto. Sentiu o sabor salgado e carregado de emoções quando a gota chegou à sua boca.

Abriu a porta.

O vento lá em cima era forte. Não havia sol. O mundo era cinzento. Cinzento como o coração de Fabiana. O clima era perfeito, despertando nela o sentimento de vazio, a ânsia pela válvula de escape. Um botão que bastaria apertar e pronto, todos os problemas se resolveriam. A morte era bem vinda, uma amiga com os braços abertos esperando para acalentar a alma perdida.

Ela foi até a beirada do edifício, enxergando os outros prédios erguendo-se pela cidade. Suas pernas vacilavam, mas ela não parou um instante sequer. As lágrimas brotaram com força e despejaram-se como uma maré pelo seu rosto. O queixo começou a bater com violência e ela não tinha mais como parar aquilo. Então estacou na borda do prédio. Olhou para baixo, sentindo a vertigem confundir seus sentidos.

Era isso então. O fim.

Ela abriu os braços. Iria voar.

– É uma queda e tanto. – disse uma voz atrás dela.

Fabiana recuou assustada e olhou para trás. Era como se uma mão invisível a tivesse puxado ao invés do susto a empurrar de encontro ao inevitável destino. Com surpresa, ela notou que não estava sozinha. Havia um homem ali. Usava roupas maltrapilhas, tinha olheiras profundas e uma barba espessa e suja. O cabelo era desgrenhado e crescia para todos os lados. Ele sorria.

– Quem é você? – Fabiana perguntou. Estava com ódio por aquele homem ter interrompido o seu momento. – Como chegou até aqui?

O homem cruzou os braços e olhou para a porta pela qual Fabiana passou momentos atrás.

– Acho que como você, eu subi as escadas. Não tem outra maneira de alcançar o topo quando estamos no chão, não é? Temos sempre que galgar nossos próprios degraus…

Fabi limpou as lágrimas.

– Você está bêbado, só pode!

O Homem riu. Apontou um dedo pra menina e disse:

– Acho que estou muito bêbado. Eu podia jurar que acabei de
ver uma menina achando que podia voar sem ter asas.

– Você veio aqui para rir? Só pra isso? Veio apreciar a vista de uma menina tomando uma decisão pesada?

O sorriso do Homem desapareceu.

– Vim aqui para garantir que você aprecie a vista comigo.

Afinal de contas, é notável que você ainda não tomou a decisão pesada.

Fabiana virou-se. Não podia acreditar que um mendigo estava tentando bancar o psicólogo com ela. Caminhou novamente até a beirada, sentindo o ímpeto de simplesmente pular. Queria sentir o mundo te abraçar da maneira como ela nunca foi abraçada antes. Parou novamente na borda, olhando para baixo.

O mendigo foi até o seu lado. Não disse nada. Simplesmente encarou a queda como quem vê um cão fofinho na rua.

– É lindo, não é? – ele perguntou, depois de um longo silêncio, quebrado apenas pelas respiradas profundas de Fabiana.

– O que é lindo nisto? – ela perguntou, com asco. Seca. Não queria que aquele homem se aproximasse da sua vida como se a conhecesse.

– O tanto de histórias que podemos ver daqui. Milhares de pessoas circulando por aí somente no nosso campo de visão. Outras tantas ao redor do mundo. Cada uma carregando uma história, uma dor, uma felicidade… É lindo.

– Eu só vejo sofrimento. Só vejo motivos para cair.

O mendigo se sentou na borda. Balançava as pernas como se estivesse sentado a poucos metros do chão.

– Realmente. Mas uma pessoa que acredita muito em suas teorias vai achar motivos em todo lugar que olhar. Mesma coisa com alguém que está sofrendo. Pra ela, tudo é sofrimento escondido.

Fabiana olhou para o mendigo. Recuou um passo. O homem continuava a olhar para frente. Não dava atenção para ela, o que era ainda pior. O fato dela não existir para os outros era um alívio algumas vezes. Mas agora se sentia incomodada.

– E o que você sabe sobre sofrimento alheio? O que você entende disso? – ela perguntou raivosa.

– Verdade. O que um mendigo poderia saber sobre sofrimento, não é?

A ironia viajou até os ouvidos de Fabiana e ela entendeu a falha. Sabia o que tinha feito de errado e a raiva sumiu por completo. Estava tão focada em sua dor que acabara por descontar num mendigo.

– Eu não quis dizer que você não sabe o que é sofrimento, só que… – disse ela, meio sem jeito para continuar.

O mendigo riu, ainda sem olhar pra ela.

– Não me importo com isso. Mas me diga… Qual seu nome?

– Fabiana. Sinto muito, eu realmente não quero conversar.
Não conversaram comigo enquanto tiveram tempo pra fazer isso. A vida não pode colocar alguém pra falar comigo bem quando eu estou decidida a acabar com a minha dor.

– Bom, é a primeira vez que conversamos e faz um bom tempo que não converso com alguém que não está interessado em roubar meu prato de marmita. Acho que nós dois estamos precisando de uma boa conversa. Depois, se você ainda quiser pular, prometo que não vou te segurar. Não vou intervir de maneira nenhuma. Mas sabe como é, a subida até aqui foi longa e cansativa.

Fabi limpou uma lágrima que descia naquele instante e abaixou a cabeça. Sentou-se. Tinha todo o tempo do mundo. Seus pés balançavam livres e a paisagem parecia atrai-la. A vertigem gritava, desnorteando-a.

– Eu tenho que pular. – disse ela, depois de um longo tempo de silêncio. O homem parecia não se importar e muito menos se sentir incomodado com a situação. Ora ele a fitava, ora fitava o horizonte. Mas desta vez ele a encarou e franziu o cenho.

– Tem? E por quê?

– Você não entenderia. É… É um jogo.

– Um jogo onde você se mata? Na minha época, eu brincava de futebol mesmo. E eu era bom! A cada gol, era um abraço que eu recebia e o pessoal todo gritava o meu nome, me chamavam para festas, me faziam beber até cair e então, no outro dia eu tinha de estar pronto para outra partida. Era um bom jogo, pensei que me fazia feliz.

– Não é esse tipo de jogo. – respondeu Fabi.

– Eu sei que não. É pior! Aqui, você tá sozinha e vai pular. E no final, o pessoal não vai te abraçar. Vão lamentar a sua decisão e falarem algumas palavras bonitas para expressarem o que o coração está sentindo. Tudo em vão, se quer bem saber… As palavras que todos dizem depois da morte são tão vazias quanto tapinhas nos ombros dos nossos “amigos”.

Fabi abaixou a cabeça. O vento começou a se tornar mais ameno, mas o frio enrijeceu seu corpo. A vista não lhe provocava vertigem alguma.

– Não tenho amigos. – disse.

– Ah, tenho certeza de que tem uma amiga muito importante. E que agora você está prestes a jogar sua amizade no lixo só por causa de pessoas que não souberam te enxergar em sua verdadeira forma.

– E que amiga seria essa?

O mendigo a olhou. Seus olhos brilharam levemente e ele sorriu por baixo de sua barba desgrenhada.

– Você. Você deve ser sua melhor amiga, antes de tudo. Para que os outros a aceitem, você deve se aceitar. Não tem que mudar por ninguém, já que ninguém mudará por você. Se seu círculo de amizades cobrava isso, eles não são seus amigos. Afinal de contas, você pede pra que uma violeta se torne uma rosa? Ou aceita que ela seja a violeta, mesmo que não goste dela? A violeta se aceitou como violeta quando resolveu desabrochar. Ela sabe que alguém irá querê-la em algum buquê por aí e não se desespera.

– Se eu fosse minha própria amiga, não teria esse sentimento de vazio dentro de mim. Essa dor que só parece crescer ainda mais. É como se eu fosse espectadora do mundo dos outros, entende? Eu sei que entende. Costumo olhar para as pessoas e penso que cada um tem uma história diferente. E eu sou só a figurante, que vai aparecer ao fundo e fingir que
existo, que sou alguém.

– A grama do nosso vizinho é sempre mais verde, não é? Eu sei como é me sentir sozinho. A sensação de vazio é a coisa mais normal do mundo, se quer saber. O ser humano odeia pensar que está lhe faltando algo, embora nunca saiba o que é. Por isso ganha dinheiro e gasta com coisas supérfluas. Gastam mais do que podem pagar, mas se sentem cheios e completos e felizes. Abrem sorrisos, estampam a felicidade, mas amanhã estão tristes novamente. A sensação de vazio em não se ter amigos, de não ser querida… Você é sociável? Já se levantou da cama numa sexta-feira e pensou em sair? Aposto que não. Dentro da sua casa, você está sozinha. Não espere que ninguém te convide. Eu esperei e hoje estou aqui. Senti-me vazio e busquei outros meios. Hoje, obriguei-me a me sentir completo com o pouco que tenho. Não sou feliz, mas sei que posso encontrar a felicidade.

– Acho que o pior de tudo é isso mesmo. Ficar em casa. Encarar minha mãe e meu padrasto. – os olhos da menina voltaram a se encherem de lágrimas e sua voz ficou embargada. O choro veio não muito depois. O Homem não tentou se aproximar e muito menos tentou consolá-la. Pelo contrário, ficou olhando-a enquanto Fabi soluçava e seu peito explodia em ondas chorosas.

– O que há com sua casa? E com sua mãe e seu padrasto? – perguntou o mendigo, vendo que ela já parava de chorar.

– Nada. Não vou falar sobre isso com um estranho.

– Entendi. Ainda pensa em pular?

Fabi balançou a cabeça positivamente, limpando o rosto.

– É a única maneira de fugir da dor?

Mais um aceno positivo.

– Tem certeza?

Outro.

– Você tem quantos anos?

– Dezessete. – respondeu ela, depois do incômodo silêncio.

– Dezessete anos… E qual sua matéria favorita na escola?

Fabi respirou fundo e olhou para cima. Seu rosto estava inchado.

– História.

– Que ótimo! Quando eu estudava… O que foi? Eu já estudei! Mas como eu ia dizendo, quando eu estudava, também gostava muito de história. Gostava bastante da época das explorações navais, sabe? Você certamente sabe quem foi Pedro Álvares Cabral, não sabe? Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e tantos outros navegadores.

Fabi franziu o cenho e olhou para o Homem ao seu lado. Era um mendigo, mas parecia ter sido algo muito maior antes. Parecia ter se adaptado às ruas logo depois de ter saído de uma posição de alto-escalão. Era inteligente demais e estudado demais para ser qualquer um.

– Sei quem são. – respondeu ela.

– Pois então. Suponhamos que você seja uma desbravadora dos sete mares. E suponhamos que sua vida seja o mar, levando-a para o desconhecido. O que acontecerá se você estiver no meio do oceano, perdida? Sabe que poderá encontrar uma ilha desconhecida, algo totalmente novo e com mais aventuras do que você mesma já experimentou se continuar seguindo. Mas então você desanima. Olha pros lados e só vê o mar. E o que faz? Joga a âncora e diz aos seus homens: “Descansem, pois morreremos de fome e sede em pouco tempo!”. É o que acontecerá se pular.

– Não entendi. – falou ela, confusa.

– Se você pular, vai estar se entregando aos problemas. Se você pular, não vai mais ver o que o mundo te reserva, as surpresas que podem te trazer novas maravilhas! Talvez, quem sabe, o resultado de toda a sua luta! A recompensa, um baú cheio de tesouros que vão mostrar que suas batalhas compensaram, no fim das contas. E talvez, se levantar sua âncora, vai navegar o suficiente para encontrar um navio manejado por um capitão mais experiente, que vai ensinar-lhe o caminho se você procurar por sua ajuda. Entenda, naquela época, todos os capitães assumiam sua ignorância olhando para as estrelas, para suas bússolas. Então por que não assumir a sua também? Procure ajuda para continuar navegando!

– Você deu uma volta inteira só para me dizer que eu preciso de um psiquiatra? Demorou todo esse tempo só pra tentar me convencer de que não posso pular?

– Na verdade, estou lhe dando o tempo necessário para pensar e refletir. Embora diga que está determinada a pular, sei que não é verdade. Mas se acha que estou falando asneira e que minhas palavras não prestam, pode pular. Vou cumprir minha promessa e não vou te segurar.

Fabi crispou os lábios. Seus dedos cravaram na borda do prédio e ela se arrastou levemente para cima. Lá embaixo, a vida continuava seu fluxo. O Homem só a observava. Ele não parecia nem mesmo apreensivo.

– O que acontece se um navio maior para ao seu lado e você espera que ele o ajude, mas na verdade está recheado de piratas que destroem sua tripulação e faz coisas terríveis com eles?

– Sua tripulação sobreviveu?

– Sim, mas continuam muito assustados. Não sabem mais em quem confiar. O outro navio que parou ao seu lado não acreditou em uma palavra que disse, dizendo que já ouviu falar daquele pirata e que ele jamais faria uma coisa daquelas.

O Homem abaixou a cabeça, em silêncio. Fabi foi se aproximando cada vez mais do seu fim. A dor em seu peito voltava a queimar, apesar da pouca intensidade.

– Sua tripulação deve aprender que nem todos os navios são maus. Ela deve procurar ajuda. Você precisa de ajuda. Entendi onde quis chegar. O trauma é algo terrível, não é? Ele te faz perder a esperança no mundo inteiro. Sua confiança explode em milhões de fragmentos e você não tem força o suficiente para reconstruí-la. Isso faz muito tempo?

– Um ano.

– E ele tentou alguma outra vez?

Fabi balançou a cabeça negativamente.

– E por que não o denunciou?

– Ele disse que me mataria.

– Mais um motivo para denuncia-lo. Mas faça isso anonimamente.

A menina ficou em silêncio. Talvez a denúncia ajudasse, mas o medo era muito grande em seu peito.

– Você tem outros familiares?

– Minha avó. Minhas tias.

– Vá morar com elas, ora. O ambiente em que habita mexe com você? Então saia! Não fique aonde te incomoda. Se há um prego em sua cadeira, você continuará sentada nela ou
trocará de lugar?

Fabi nem precisou responder.

– O que eu quero dizer é que nunca é o fim, apesar de que sempre irá parecer. Basta não se calar. Basta confrontar os problemas e buscar ajuda. Basta se amar antes de procurar amar os outros. Basta ser sua própria amiga antes de oferecer sua amizade a alguém. Acho que este pulo não vai ser o fim dos seus problemas. O fim dos seus problemas está mais adiante, mas você precisa ousar continuar seguindo. Mude seus hábitos, mude seus pensamentos. Seja uma nova pessoa. Salte de uma vez em cima da felicidade e não a solte nunca. Para isso, encontre-a.

O choro de Fabi voltou. Seu peito ardeu e ela soltou a borda do prédio. Continuou chorando com as mãos sobre o rosto. Sentiu uma mão acalentadora em seu ombro e a voz do mendigo lhe dizer:

– Estamos com você.

Em seguida, se afastou. Quando ela abriu os olhos, entendeu que precisava seguir em frente. Entendeu que seus passos estavam no piloto automático e que já era hora dela dominar a situação de sua vida.

Fabiana nem mesmo se importou com o fato de que estava sozinha. Limpando o rosto, ela abriu a porta para as escadarias, decidida.

E no céu, as nuvens deram espaço para o sol.