HÁ MUITO TEMPO, NUMA GALÁXIA MUITO, MUITO DISTANTE…

 

Prólogo

 

Coruscant, Templo Jedi, 32 ABY

A Sala de Meditação estava barulhenta demais. Não que as pessoas estivessem conversando ali dentro, o que era terminantemente proibido pelos Mestres, mas a Força estava perturbada. Era como uma fissura no véu, um ferimento incurável. Obi-Wan Kenobi podia sentir. Os olhos fechados e a mente aguçada tentavam, de todas as maneiras, concentrarem-se em não pensar em nada. Infelizmente, as imagens ainda assaltavam a memória do recém-nomeado Cavaleiro Jedi.

Mestre Qui-Gon fora assassinado não havia muito tempo, mas mesmo assim o cavaleiro sabia que devia esquecer aquilo, reiterar os ensinamentos de seu antigo tutor e seguir em frente. Tinha em suas mãos a terrível e árdua tarefa de treinar o jovem Anakin como um Padawan. Um tempo que ele usaria para treinar, expandindo assim suas habilidades e conceitos. No entanto, seguir adiante provara ser tão difícil quanto construir seu próprio Sabre de Luz.

Desistindo da tentativa de livrar sua mente, ele se ergueu. O sorriso de Darth Maul ainda permeava seu consciente. Kenobi ainda o via enfiar aquele sabre de duas lâminas no peito de seu Mestre. Balançando a cabeça, afastando as memórias por um curto período de tempo, ele saiu da sala. Fez uma rápida reverência a um Mestre Jedi Togruta que estava entrando e disparou pelo corredor do Templo.

Não sabia o motivo de sua corrida, mas talvez fosse uma maneira figurativa de fugir de seu passado. Mesmo que tivesse derrotado um Aprendiz do Lado Negro, ele ainda se sentia incapaz, sem esperança alguma de que fosse um dia um Mestre valoroso. Sentiu medo, sentiu insegurança e sentiu ódio. Quando Qui-Gon desfaleceu, ele sentiu tanta raiva que pensou não ser mais capaz de controla-la. A partir dali, a Força assumiu seu papel e lutou por ele. A Força guiou seus movimentos, moveu seu sabre. A Força o salvou no embate. Entretanto, ele achava que precisava de mais do que isso.

Dois Padawans vinham em sua direção. Seus olhos se arregalaram ao mesmo tempo e eles soltaram gritos entusiasmados. Tomaram a posição de sentido ao Obi-Wan passar e prestaram uma reverência formal demais. O Cavaleiro deveria saber que teria de lidar com aquele tipo de fama. Afinal de contas, ele tinha derrotado um Sith quando os Sith em questão nem mesmo eram para existir. A presença de Darth Maul, além de pujante, significava que uma nova guerra se aproximava. Significava, acima de tudo, que seu Mestre, até então oculto, estava se preparando para o embate.

Obi-Wan virou em direção à esquerda, diminuindo sua passada para apenas um trote. Deu-se conta de que não sabia para onde estava indo, mas que seus pés o levavam imediatamente à sala do Mestre Yoda. Continuou seguindo o caminho, pensando que talvez fosse a Força que estivesse guiando seus passos. Subiu uma escada em espiral e passou a andar pelo corredor. Lá fora, a cidade de Coruscant ofuscava o brilho do horizonte. A noite começava a cair e nuvens pesadas de chuva começavam a se reunir. Ele parou para observar a paisagem. Colocou uma mão no queixo e sorriu.

É por isso que eu luto. Disse ele para si mesmo. Deixou-se ficar mais alguns instantes ali, até decidir que era hora. Virou nos calcanhares e seguiu pelo corredor até uma porta com o símbolo da Ordem Jedi grafado em tinta preta. Ergueu a mão para bater e então ouviu lá de dentro, antes mesmo que pudesse se anunciar:

– Entre. – falou a voz facilmente reconhecível de Mestre Yoda. Kenobi deu um sorriso, pensando na impossibilidade de surpreender o pequenino Mestre verde de alguma forma.

Quando entrou, foi arrebatado pela sensação de paz. A Força ali era poderosa, uma camada grossa e viva que permeava toda a região do recinto. Havia cinco pufes, sendo que apenas um deles estava ocupado. Mestre Yoda estava sentado com as pernas cruzadas, olhos fechados e mãos sobre os joelhos.

– Perturbado você está, hmm? Em Mestre Qui-Gon Jinn você pensa. – Não foi uma pergunta.

Obi-Wan abaixou a cabeça, as duas mãos à frente do corpo. A porta se fechou atrás de si, automaticamente.

– Sente-se. – disse Yoda, abrindo os olhos e indicando um dos pufes. Apenas a luz natural entrava naquele ambiente pacífico. Obi-Wan sentou-se em posição ereta com as pernas cruzadas. Não sabia o que o levara até ali, mas sabia que não podia contar com ninguém melhor que aquele Mestre para auxiliá-lo no caminho que queria seguir. Ficaram em silêncio durante um bom tempo. O Cavaleiro não se atreveu a romper o remanso. – Cheia de dúvidas sua mente está. À mim veio em busca, para sua mente libertar, hmm?

– Sim, mestre. – disse o rapaz. E pensar que até pouco tempo era um Padawan com o sonho de ser um Cavaleiro Jedi… – Não consigo afastar da mente a morte de meu Mestre. É como um fantasma insistente que não me deixa concentrar. Não tenho nem mesmo como ensinar Anakin a ter calma e paciência. Não posso ensiná-lo a arte da meditação, sendo que eu mesmo não consigo meditar.

Yoda riu.

– Com medo de ser um mau Mestre, você está, hmm hmm… – ele ergueu um de seus três dedos e apontou para Obi-Wan. – Mas grande papel na luta contra Darth Maul você desempenhou, hmm? Poderoso na Força, você é. As visões, com o tempo, desaparecer irão. Mais do que capaz você é. Novos desafios, você terá. Aceitar a morte você deve, antes que a vingança o consuma.

– E a Vingança é provocada pelo amor. E amar é um passo para o Lado Negro. – completou o Cavaleiro. – Compreendo Mestre. – aceitou ele, abaixando a cabeça em sinal de respeito. Yoda sorriu.

– No entanto, perturbando a sua mente alguma coisa está. Interessado em saber o que é eu estou.

– Agora que descobrimos que os Sith retornaram tudo mudará. Sinto uma forte influência do Lado Negro, Mestre. O que faremos? Se há um Lorde Negro ao lado dos Separatistas, não vejo horizonte para esta intriga, senão a perdição da galáxia, afundada numa guerra civil.

– De fato, a presença dos Sith uma infortuna surpresa é. Relação com os Separatistas, não sabemos se há. No entanto, se aproximando uma guerra está. Preparar nossa mente e nosso corpo devemos. Pessimismo somente ao medo leva e no caminho para o Lado Negro o medo está.

– Então estamos tomando providências? Quero participar! Creio que possa ser útil no campo de batalha. – disse Obi-Wan, deixando sua voz crescer junto com seu entusiasmo. Sua mão direita fechou-se num punho e suas pernas se descruzaram. Em seus olhos havia o brilho da esperança e da força de vontade.

– Lembrar-se de seu dever como Mestre de Skywalker você deve. Em sua tutela ele está e o peso da Profecia ele carrega. Tomadas estão sendo as providências, mas seus serviços por ora necessários não são.

Obi-Wan fechou os olhos, a chama do entusiasmo gritava em seu peito, uma voz que não permitia se calar. Ainda assim, ele controlou aquele animal voraz que ansiava por despedaçar o Lado Negro. Tinha muito que aprender, mas sua vontade não residia em ser mestre. Era um ponto que teria de lidar em sua personalidade.

Levantou-se, fez uma reverência silenciosa e carregada de pensamentos e saiu da sala de seu Mestre. Sabia aonde ir.

Anakin estava levitando cinco livros quando Obi-Wan chegou. Mesmo que seu mestre tivesse se aproximado, os objetos permaneceram no ar. A concentração do menino era memorável, digna de nota. Mesmo usando a Força, o Padawan parecia ser capaz de se concentrar em outras coisas sem que isso alterasse seu poder.

– Finalmente, Obi-Wan. Vê o que eu consigo fazer? Antes só conseguia levitar dois! – disse o menino, agora fazendo os livros girarem em círculo.

– Impressionante. Sua capacidade de manipular a Força é extraordinária, mas ainda está muito rústica. Vamos treiná-la com o tempo. Por ora, seria bom que sua mente estivesse focada somente no que vai aprender comigo. – disse Kenobi, os braços cruzados atrás do corpo e o rosto impassível. Não seria nada bom se o Escolhido crescesse sabendo que é o Escolhido.

Os livros despencaram e Anakin se colocou de pé. Usava o traje branco padrão de todo Jedi, com uma pequena trança atrás da cabeça. Diferente das outras crianças, ele não passou pela fase dos Jedi Iniciados, um passo atrás dos Padawans. Era o que tornava aquilo uma tarefa ainda mais árdua. Uma criança mais jovem seria bem mais fácil de moldar ao nível acadêmico para se tornar um Cavaleiro como Obi-Wan, mas Anakin Skywalker conviveu toda a sua vida em Tatooine, onde era escravo de um Toidariano vendedor de droides. O que ele sabia sobre disciplina? O que ele sabia sobre a Ordem Jedi senão as poucas coisas que Mestre Qui-Gon Jinn o ensinou?

No entanto, a vontade de aprender do menino era implacável. Ele queria controlar a Força, queria ser como os grandes Mestres e deixou clara essa sua opinião vezes demais para que Obi-Wan desacreditasse. Talvez Kenobi estivesse errado, mas ele acreditava no potencial do menino.

– Creio que já tenha em sua posse um sabre de luz de treinamento, não é?

Anakin assentiu positivamente e apontou sua mão em direção a uma estante. O sabre de luz que estava ali em cima começou a tremer, mas nem com o maior dos esforços o menino conseguiu trazer até ele. Desistindo de tentar impressionar, ele correu até a arma e a pegou. Ligou-a, com o facho azul aparecendo de repente e mostrou para Obi-Wan como sabia girá-la bem em sua mão. Kenobi franziu o cenho, demonstrando irritação.

– Primeira coisa que aprenderá enquanto estiver em minha tutela. Seu Sabre é sua vida e sua responsabilidade. Ele deve estar com você a todo o momento, e não jogado em qualquer canto. Segunda coisa é que a Força não deve ser usada ao seu bel prazer. Nós Jedi sempre optamos por uma maneira melhor, antes de usar os poderes fornecidos por ela. Terceira coisa: Nunca ligue seu sabre, a menos que vá usá-lo.

O sabre se desligou com um ruído. Anakin, sem graça, guardou-o em sua bainha.

– Seria bom se tivesse algo pra bater. – disse ele, mais para si do que para seu Mestre. Obi-Wan escutou e cruzou os braços.

– Tenha calma, Padawan. Tudo tem o seu tempo.

O que estou dizendo? Quando era aprendiz de Mestre Qui-Gon, era tão ávido por combates quanto este menino. Com o passar do tempo, nossa mente amadurece ou somos nós que nos tornamos hipócritas?

Anakin abaixou a cabeça e concordou em silêncio. Obi-Wan podia sentir todo o poder que o menino emanava, a vontade de fazer alguma coisa até mesmo se igualava à de seu Mestre, frente à recente monotonia. Exceto, é claro, pela maneira como os Jedi os encarava, um por ser o Escolhido e o outro ser o primeiro Jedi a matar um Sith em questão de um milênio.

– Me acompanhe. – disse o Cavaleiro. Colocou as mãos atrás das costas e se virou nos calcanhares. Seu cabelo começava a crescer, agora que uma trança já não o enfeitava, muito menos o marcava como um jovem aprendiz.

Anakin e ele chegaram até o corredor, onde uma imensa janela mostrava o horizonte, onde a cidade não parava sua rotina. Era possível ver o Templo do Senado dali, onde a República residia nas mãos do recém-nomeado Chanceler Palpatine.

– Vê isso tudo? – disse Kenobi, ao ver que seu aprendiz parou ao seu lado. – Seu dever como Jedi será garantir que cada pessoa boa neste planeta e em toda a galáxia esteja segura. E fará de tudo para que a violência seja a última de todas as formas. Para isso, treinaremos não só seus movimentos para que se torne um combatente exímio, mas também aguçaremos sua mente para que seja um diplomata honorável. Crê que consegue fazer isso?

– Sim, Obi… Digo: Mestre. – respondeu o menino, se corrigindo. Chamar Obi-Wan de Mestre era uma das coisas mais difíceis de acostumar… Bem, talvez só não mais difícil do que se acostumar com aquele tecido maldito.

Obi-Wan coçou a barba para disfarçar um sorriso. Mestre Qui-Gon teria gostado daquilo se estivesse ali. Faria de tudo para que honrasse o último pedido de seu Mestre, acreditando fielmente que o poder de Qui-Gon o guiaria como a Força em seus momentos mais difíceis.

– Se você acha que pode fazer isso, então certamente pode ser um Jedi. – falou, seguindo pelo corredor em direção ao elevador que levava aos níveis inferiores. – Sabia que nem sempre fui um Padawan? Quer dizer, eu não deveria ser parte desta Ordem, nem mesmo servir ao lado de Mestre Qui-Gon.

Anakin arregalou os olhos, apertando o passo para acompanhar Obi-Wan, que continuava falando:

– Eu deveria fazer parte do Corpo de Serviço Jedi e ir para o Serviço Agrícola. Certamente um trabalho bem menos chamativo do que este que fazemos. Talvez, se eu não tivesse salvado Qui-Gon em uma missão em Bandomeer, eu não estaria aqui falando com você, e muito menos você teria saído de Tatooine. Sabe o que eu quero dizer?

Entraram no elevador e Obi-Wan apertou um botão. A porta se fechou e eles começaram a descer.

– Que a Força nos guiou até aqui? – Anakin perguntou, antevendo a resposta.

– Exatamente. A Força cumpriu seus desígnios e, por algum motivo, Ela decidiu que deveríamos ficar juntos.

– Entendi. A Força controla o nosso destino, então.

– Sim e não. As decisões são nossas, mas a Força trabalha ao nosso lado para que sua vontade se concretize. Você está fadado a um destino, mas a maneira como vai trilhar seu caminho é o que pode mudar tudo.

A porta do elevador se abriu e Obi-Wan quase esbarrou em um homem que passava por ele. O Cavaleiro virou-se para se desculpar quando viu de quem se tratava.

– Mestre Dookan! Peço que me perdoe. Não vi o senhor.

Mestre Dookan era já um senhor de barba e cabelos grisalhos. Os olhos eram sábios e a maneira como andava mostrava que ele não era como os outros Jedi. Usava uma roupa escura e uma capa por cima dela. Andara sumido do Conselho Jedi, logo depois de uma batalha na qual falhou e, é claro, a morte de seu antigo aprendiz. A maneira como ele encarou Obi-Wan fez o Cavaleiro crer que tivesse alguma coisa de errado. Logo em seguida, o Mestre olhou para Anakin. Desta vez, seus olhos se estreitaram como se estudasse minuciosamente a alma do rapaz.

– É um belo Padawan que você tem em mãos, Kenobi. – disse o antigo mestre de Qui-Gon e um dos maiores espadachins da galáxia. – Espero que o ensine bem. Seria uma pena se toda esta energia perdesse seu propósito.

– Ele será bem treinado, senhor. Garanto isso. – replicou Obi-Wan. Passou um dos braços ao redor do corpo do pequeno Anakin e continuou a encarar Mestre Dookan.

– Bom. Isto é muito bom. – disse ele. Então o elevador se fechou e ele desapareceu sem dizer qualquer outra coisa.

– Ele é estranho. – Anakin constatou. Obi-Wan sorriu e se virou. Em sua mente, ele tentava entender o motivo de Mestre Dookan estar agindo daquela maneira, algo que não era de seu feitio. Quer dizer, Kenobi fora seu aprendiz em combates com sabres de luz e o Jedi não se lembrava daquele senso de humor que beirava o zero.

– Certamente ele é, meu jovem.

Seguiram então caminho para a biblioteca, deixando para trás aquele incidente. Talvez, se Obi-Wan tivesse expandido seus sentidos, teria notado o desequilíbrio na Força e na maneira como o Lado Sombrio tomou conta daquele elevador assim que Mestre Dookan embarcou. Talvez tivesse avisado o Conselho e a história seria completamente diferente no futuro.

No entanto, a mente perturbada do rapaz não permitiu que ele visse a traição chegando. Por essa razão, o nascimento de Darth Tyranus não pôde ser evitado e, assim, uma série de eventos se desencadearia.

A Força era inexorável e já havia decretado o destino de todos ali em questão de segundos.

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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