Ele soca postes de montão e insiste que vê assombração.

Satisfação. Talvez seja esta a palavra que melhor descreva It: A Coisa. Para um leitor assíduo de Stephen King e amante do livro, ver esta Obra-Prima do Medo foi uma experiência extasiante. O filme estreou no dia 07/09 e já fizemos a nossa crítica sem spoilers, que você pode conferir AQUI.

Ainda assim, faltou um verdadeiro fã da história dar o seu veredito, dizer suas impressões baseadas no que a obra passou para ele. E cá estou, enrolando para dizer o quão magnífico e gratificante foi assistir ao filme.

Esqueça completamente a série de 1991, onde o palhaço Pennywise era interpretado pelo querido e caricato Tim Curry. Apesar de ter sido a primeira adaptação da obra, a série falha ao trazer o sentimento de terror que o livro nos passa com tanto carinho e dedicação ao longo de suas mais de 1000 páginas.

E faço aqui uma reclamação: Saindo do cinema, escutei algumas pessoas comentarem que It: A Coisa estava muito parecida com Stranger Things. E isso é ótimo! Embora poucos saibam, a série da Netflix teve como inspiração a obra de Stephen King, então nada mais justo que o filme que adapta o livro fosse tão parecido quanto!

Agora, vamos falar do roteiro. Se por um lado a fotografia age em perfeita sinfonia com a Trilha Sonora e o tom de suspense, Gary Dauberman consegue explorar bem os personagens com maestria. Embora o começo seja um pouco acelerado, a fim de nos apresentar os personagens, eu não senti que isso tenha prejudicado o filme. Bill Denbrough é muito carismático e aparenta ter sempre a esperança de achar seu irmão estampada no rosto, assumindo em pouco tempo sua posição de líder, como no livro. Somado com o roteiro de ponta e uma direção de arte fenomenal, o ator Jaeden Lieberher ganha as telas e garante sua importância no longa inteiro, diferente de sua primeira versão em 1991.

E enquanto Bill é o rapaz sério, temos Richie Tozier como o seu contraponto. Vivido pelo astro de Stranger Things, Finn Wolfhard, o roteiro garante que ele tenha sempre uma piada na ponta da língua. Nada forçado. É possível ver que tudo o que o garoto diz é realmente da sua personalidade e nós aceitamos isso como verdade absoluta! Beverly Marsh, estrelada por Sophia Lillis, impressiona em seu papel com uma carga dramática muito semelhante ao livro. Há ainda a sensualidade de uma menina de 12 anos (pelo menos na maneira como os outros a veem), passada por nós também na obra. Ela é deslocada, mas finge ser descolada para não sofrer nas mãos de outras meninas, enquanto é abusada pelo pai.

Eu me preocupo muito, muito com você, Bev.

Temos também um Ben humorado, apesar de trazer consigo a imagem de ser o único gordinho do grupo, apaixonado pela menina mais linda. O triângulo amoroso de Bill, Bev e Ben é algo muito lindo de se ver, pois não se trata de algo sujo como os adultos. Não se trata de magoar, de destruir corações… É algo puro e infantil, o primeiro amor deles. Eddie Kaspbrak é tão engraçado quanto Richie, bem diferente dele no livro. Neste, o pequeno hipocondríaco é mais contido, enquanto no filme ele se solta mais e tem bem mais participação.

Mike Hanlon é o único negro do Clube dos Otários e é perseguido ferrenhamente por Henry e sua trupe, tal como no livro também. O ator é muito bom, mas talvez tenha lhe faltado um pouco mais do carisma infantil nele. No fim das contas, parecia que Mike já havia envelhecido antes dos outros. Isso pode ser explicado pelo trauma recente em sua vida, fazendo-o não aproveitar a infância.

Stanley Uris, o judeu, é de longe o personagem mais deslocado. Ele é silencioso demais e muito pouco carismático. Chegamos até mesmo a esquecer de que ele existe em algumas cenas. Acho que posso entender o que os roteiristas quiseram, já que no próximo filme Stan se suicida em sua banheira logo no primeiro instante. Pode ter sido uma tática usada pelo roteiro para não prender o espectador para uma morte tão sem graça. Provavelmente, Stan morrerá e você nem mesmo dará falta (diferente dos livros).

E finalmente, tenho que falar do grande astro do filme. A Coisa, vivida desta vez por Bill Skarsgard, é fenomenal. Ele não é o maior dos problemas do filme. Para dizer a verdade, fica muito difícil saber se a Coisa faz alguma diferença em Derry, já que a cidade é o inferno. Em suas aparições, como quando aparece as primeiras vezes para o Clube dos Otários, são todas aterrorizantes e recheadas de Jump-scares. Esta tática, muito usada em filmes de terror, não é jogada ao léu, estando ali por um motivo. A sensação de medo e de urgência às vezes vem apenas de vermos um balão flutuando, risadas ao fundo, a música tensa que vai aumentando aos poucos, tudo contribuindo para os inúmeros sustos que o filme é capaz de te fornecer. Às vezes, o diretor opta por retirar toda a trilha sonora e elevá-la ao máximo assim que damos de cara com Pennywise.

A batalha final consegue ainda ser bem melhor que no livro, que é algo mais mentalizado e infinitamente viajado. As referências às tartarugas são apenas para aqueles que leram o livro e alguns takes ainda servem como fan-service, como a focada que o diretor decide dar na estátua do Lumber Jack, o lenhador, que nos livros persegue as crianças.

Com alguns pontos importantes, o filme encerra de maneira perfeita e dá o gancho necessário para o segundo filme. Com tantas pontas soltas, eu só espero que o diretor tenha toda a excelência do primeiro longa para fechá-las na continuação. It: A Coisa, está no Top 3 de melhores adaptações de Stephen King. Com certeza assistirei novamente.

E lembrando que, se você quiser ler o livro (o que é altamente recomendável), pode estar acessando o link aqui.

 

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
Edson Shad