Capítulo 5

~ Corpos ~

 

Toda criatura viva possui um tipo de sexto sentido, algo que avisa com antecedência o perigo que se aproxima, um eriçar nos pelos da nuca, uma dor no joelho, qualquer coisa. A mente de Argan, naquele momento, encontrava-se em completo alerta.

Ele não conseguiria dizer o que havia de errado por ali, mas sabia que o perigo se aproximava cada vez mais. Viu que sua estadia ali havia se estendido por tempo demais e ele não podia se dar ao luxo de assentar num lugar. Estava sendo caçado por muitas pessoas, inclusive pelos membros treinados de sua Ordem.

Como um bom mestre, o Anokin não tentou deixar de lado aquela predição, mas também não se manifestou. Sabia bem que uma hora a Guilda dos Ladrões apareceria para vingar as treze almas perdidas, e fugir num momento como aquele não seria justo com aquelas pessoas.

Naquela manhã, algumas horas depois do massacre dentro da estalagem, Argan ajudou Melisa e Lyandra a arrumarem tudo. Segundo Tom, o estabelecimento deveria ficar fechado por alguns dias, até que eles pudessem dizer que estavam livres do mau-cheiro que impregnava nas roupas, o odor pútrido de sangue e cadáveres em decomposição – que estavam empilhados do lado de fora, alguns metros longes, para serem cremados.

O Anokin ajudou sem nem mesmo pestanejar. Carregou os corpos para fora e passou um pano úmido no chão de madeira. O sangue emplastrado no soalho seriam como cicatrizes, marcas que lembrariam para sempre um evento terrível.

– É nos momentos difíceis que nos mostramos fortes, não é mesmo, Argan? – disse Tom, sentado na escada enquanto observava o trio trabalhar.

Argan olhou para o velho e deu um breve sorriso, voltando-se para a sua tarefa. Queria dizer a ele que os momentos difíceis nem sequer haviam começado, e que as coisas dali para frente só tendiam a piorar. Até quando deveria manter a esperança daquelas pessoas alta o suficiente para que achassem que tudo ficaria bem?

Claro, Tom já ao menos sabia que a chance de haver retaliação era muito grande, mas nem mesmo parecia se importar. Melisa e Lyandra estavam felizes por achar que todos os problemas da família haviam acabado, e até mesmo o colar da garota parecia ter perdido o seu valor, embora ainda continuasse pendurado em seu pescoço.

Durante o almoço, feito rapidamente pelas duas mulheres da casa, Argan decidiu averiguar a propriedade, armado com tudo (não cometeria o mesmo erro de relaxar novamente). Saiu da estalagem e teve de cerrar os olhos. Fazia um tempo que já não olhava para o sol diretamente, e isso fez com que suas retinas ardessem. Quando se acostumou à claridade, olhou para as paisagens que cercavam o estabelecimento.

As montanhas que quase selaram a vida de Tom permaneciam ali, incólumes. De longe, parecia-se com gigantes adormecidos, prestes a se erguerem e esmagarem tudo a sua volta. À sua frente, a grande floresta que ele vira uma vez que estava quase no topo do mundo começava. As imensas árvores eram tão densas que seus galhos se cruzavam umas com as outras. A escuridão ali era ferrenha, mas Argan conseguia ver que mais ao fundo os troncos começavam a se espalhar mais.

Mais ao fundo, ele sabia bem, estava o acampamento da Guilda dos Ladrões. Antigamente, num tempo onde o Anokin era respeitado como um mestre, eles desmantelaram muitas guildas de ladrões e assassinos. Isso havia sido há tanto tempo que hoje Argan percebia como o punho de ferro que uma vez controlara Abalônia hoje não era nada.

– Está pensando muito? – perguntou uma voz conhecida atrás de si.

Argan se virou e viu Tom mancando até a sua direção.

– Você deve tentar ficar mais em repouso, Tom, senão sua perna não irá se curar nunca. – disse ele. Ao fundo, o mugido alto e longo de Brutus se fez ouvir. – Viu? Até mesmo seu touro concorda.

Aquilo fez com que ambos rissem por um longo tempo, algo que havia se tornado raridade para Argan. E sempre que eles tentavam parar, Brutus tornava a mugir, e então o riso recomeçava.

– Me diga uma coisa, se puder. – disse Tom, parando de rir aos poucos. Argan apenas o fitou, imaginando o que se passaria na mente do velho. – Nunca soube bem como era a tal Ordem de Santo Efígio. Pode me contar o que é?

– Como sabe que eu…

– O brasão em seu peito, aquele que se preocupou tanto em esconder. Eu já o vi e sei do que se trata. Mesmo assim, não conheço a Ordem. Para mim, é apenas uma imagem.

Argan abaixou a cabeça e logo em seguida olhou para a floresta à sua frente. Havia tanta coisa a ser dita, e tão pouca informação não confidencial, que ele acabaria tendo de calcular suas palavras antes de sua boca processá-las.

– Não posso dizer o que ela é. – disse ele, parecendo dar fim ao assunto.

Tom pareceu decepcionado.

– Oh, tudo bem então. Sabe como é, curiosidade de um velho homem que…

– Mas… – Argan o interrompeu. – Posso lhe dizer o que a Ordem era.

Os olhos do velho brilharam surpresos. Havia ali uma expectativa quase infantil de que seus sonhos iriam finalmente ser esclarecidos. Argan se manteve em silêncio por um tempo, pensando em onde poderia começar a explicação.

– A Ordem de Santo Efígio era uma guilda secreta que trabalhava na defesa dos reinos de Abalônia. – começou. – Éramos mais diplomatas que guerreiros, mas ainda assim treinados para extinguir um foco maligno. Em minha época, o líder da Ordem era Dumás Eridot.

Os olhos de Tom se arregalaram, em silêncio. Argan, no entanto, ouviu a pergunta antes dela ser proferida.

– Sim, ele era irmão de Jaffa Eridot, seu Rei Supremo. Enfim. Dumás tinha sua elite. Ele a chamava de Anokins. Éramos treze, sendo eu o mestre destes. Anokins tinham de ser especialistas em três estilos de armas. Espadas, adagas e arco-e-flecha. Eu dominava (e ainda domino) duas mais. Bastões e arte seca, sem nenhum tipo de arma, apenas seus punhos e pernas.

“Além disso, os Anokins também tinham de dominar a arte de se esconder, rastrear, conhecer culturas, reconhecer feitiços, reconhecer armadilhas e até mesmo ouvir à longas distâncias com extrema precisão. Enquanto isso, haviam os soldados que variavam em raças e classes. Haviam os paladinos, guerreiros que usavam de magia arcana. Ou os arqueiros arcanos, ou os magos e feiticeiros, numa variedade enorme. Elfos, anões, qualquer tipo de raça que lhe vier à mente, também abrigávamos.”

Argan fez uma pausa, como se prosseguir em sua memória dos tempos antigos fosse tão difícil quanto enfrentar uma horda de inimigos.

– Mas Dumás morreu, e seu predecessor por hereditariedade seria seu filho Hansem Eridot. Este se mostrou fraco em todos os treinamentos comigo, e nunca seria um bom líder. Não me surpreende que a Ordem esteja em decadência.

– E seus doze companheiros de elite? – perguntou Tom.

Argan demorou a responder, mas quando disse, o velho sentiu sua espinha gelar.

– Sob a ordem de Hansem, eles estão atrás de mim. E é uma questão de tempo até que me encontrem.

– Você não parece preocupado com isso, embora lhes tenha ensinado o que sabia… – disse o velho, prestando atenção no Anokin à sua frente.

– Eu disse que os havia ensinado o que sabia, mas não disse que havia ensinado tudo. – após dizer isso, Argan abriu um sorriso misterioso em sua essência, algo como alguém que esconde cartas demais na manga.

– Devo supor que o Rei está atrás de você por causa da morte de seu irmão.

Argan o olhou nos olhos, seu semblante complacente mudando mais rápido que uma piscadela. Tom então se arrependeu de ter dito aquilo. O Anokin, sem dar continuidade à conversa, foi em direção à floresta.

– Aonde vai? – perguntou o velho, temendo a ideia de Argan abandoná-los à sorte com os ladrões.

– Vou meditar. – disse ele.

E sumiu no meio das árvores.

A ideia de meditação de Argan não era exatamente a mesma que muitos. A única maneira de ele pensar era fazer com que sua mente se ocupasse de alguma coisa, para que seus problemas futuros não se transformassem em problemas presentes. Por isso escalou a árvore mais alta da floresta, agarrou seu arco e uma flecha e esperou por movimentação. Queria que qualquer coisa passasse em sua mira, qualquer coisa.

Havia um cheiro estranho no ar, que se sobressaía sobre o odor da relva próxima a ele. Seu nariz aguçado – embora simplesmente humano – conseguia captar aquela essência que se assemelhava à podridão.

Não sabe por quanto tempo ficou ali, em cima daquela árvore, observando pequenos animais indefesos passar em sua linha de visão, correndo para se esconderem de um predador escondido. E havia aquele sentimento estranho de que algo estava extremamente errado ali.

Subitamente, a imagem do colar de Lyandra lhe veio à mente. Sabia que já o havia visto alguma vez em sua vida, e que também havia ouvido aquelas palavras que soavam como uma profecia maligna… Mas de onde?

Um vento forte vindo do norte fez com que as folhas sobre o galho grosso onde Argan estava posicionado balançassem com ferocidade. No entanto não fora aquilo que o preocupara. O cheiro se tornou mais forte, atingindo suas narinas com força total. Um animal morto em decomposição não tinha aquele cheiro estranho… Não, aquele odor era restrito a apenas uma espécie. Homens.

Com um pulo gatuno, Argan desceu da árvore e rolou sobre a relva para amortecer a queda. Seguiu a origem do cheiro antes que esse mesmo decidisse desaparecer. Enquanto corria, seus olhos conseguiam encontrar marcas de pegadas antigas, mas que decididamente não eram de animais. E havia aquele rastro que seguia ao lado das pegadas, que também não se assemelhava a pés humanos. O rastro talvez fosse alguma cobra que passara por ali, embora o chão sulcado fosse fundo demais até mesmo para o peso de uma enorme anaconda.

Não, alguém havia sido arrastado. E alguns metros mais longe, outras marcas não menos sutis mostravam que não havia sido apenas uma vítima, mas duas, carregadas por duas… Coisas, que Argan nem mesmo conseguia identificar.

Então ele estacou, quando o cheiro forte e pútrido preencheu completamente suas narinas. Ergueu os olhos e o que ele viu fez com que seu estômago revirasse. Tampou o nariz com a boca, embora seus olhos lacrimejassem e ele quisesse fechá-los, e se aproximou de dois corpos presos às árvores por correntes.

– Pelos Deuses. – sussurrou, tentando processar tudo.

Um era do sexo masculino, com toda a certeza. Com a cabeça presa por uma corrente, seus olhos já estavam saltados para fora e sua coloração era negra, praticamente irreconhecível para pessoas normais. Seus braços estavam presos ao redor da árvore como se a abraçasse de costas. Os ombros já não suportavam a pressão da elasticidade, assim fazendo com que os membros estivessem quase sendo cortados por conta própria. Não havia mais sangue, e a barrigada do rapaz já estava toda para fora, devido a explosão dos gases intestinais.

A mulher estava exatamente na mesma situação. Agora ele já sabia qual o origem do cheiro. Duas pessoas haviam sido assassinadas ali há mais de duas semanas, mas…

Ele estacou, olhando para um pedaço de pano no chão, próximo aos corpos nus. Ergueu com a ponta da espada desembainhada e, embora a roupa agora não passasse de um trapo sujo e fétido, Argan reconheceu quase que imediatamente.

– Olá, senhor e senhora Mullen.

Seria uma pena ter de dar uma notícia daquelas para Lyandra, mas ele não achou necessário naquele momento, a menos que… Não, não podia ser.

Não faria nem quatro dias desde que Argan os viu pela última vez, e, no entanto os corpos estavam ali há mais de duas semanas. Não faria sentido ter visto os fantasmas daquelas duas pessoas, presas ao lugar que costumavam visitar… E então tudo fez sentido. Parado e pensando no que podia ter significado aquilo, Argan revistou o interior de sua mente à procura de uma explicação racional. E quando a encontrou, não conseguiu simplesmente acreditar.

Mais rápido do que poderia aguentar, o Anokin voltou correndo para a estalagem. Agora ele reconhecia o colar. E agora ele sabia que Lyandra corria perigo extremo de vida.

 

***

 

Lyandra ainda estava limpando a estalagem com sua mãe, recolhendo ainda o que havia restado de cadeiras e mesas intactas depois da batalha, o que não havia sido muito. O chão agora estava mais limpo e não havia mais aquele cheiro de sangue que impregnou nos móveis.

Ela estava absorta em seus pensamentos, toda vez segurando o amuleto com uma mão e olhando para a peça brilhante em seu pescoço. O que faria com aquilo, por que simplesmente não conseguia…

A porta foi aberta com violência e Lyandra não pôde suprimir um grito histérico, esperando que fossem os bandidos novamente. Mas não, parado à sua frente, estava Argan, com os olhos de alguém que está perturbado com pensamentos obscuros.

– Argan, o que foi? – Melisa perguntou. O Anokin olhou para ela e não respondeu. Em seguida, voltou o olhar para Lyandra.

– Você não está mais segura aqui. – disse ele à garota.

Tom, que ouvira o estardalhaço e viera mancando dos fundos, ouviu o rapaz dizer aquilo e pareceu ficar consternado.

– O que quer dizer com isso? Quer levar minha menina de mim? – perguntou, e sua voz tinha um profundo toque de irritação.

– Este colar que você usa. – Argan apontou para o objeto. – Ele é o Colar da Rainha! A Rainha não morreu depois de retirarem o colar. Ela morreu, pois este colar só pode ser removido com a morte de quem o usa! – havia urgência em sua voz, como se a qualquer instante os caçadores de recompensas apareceriam ali.

– Isto que você diz não faz o menor sentido! – agora foi Lyandra quem gritou.

– Não fazia para mim também! – retorquiu Argan. – Mas fui até o meio da floresta e descobri os corpos de seus amigos que te deram isso.

Uma sombra de apreensão passou pela face de todos ali. Lyandra sussurrou algo como “Mullen?” e em seguida tornou a olhar para o Anokin.

– Eles morreram? – ela perguntou.

– Não depois de você vê-los a última vez, te garanto. Aqueles corpos estão há semanas ali. Seus amigos são Doppelgangers!

– O quê? – Tom exclamou. – O que disse que eles são?

– Doppelgangers, metamorfos, duplicatas, não importa a maneira como os chama. Eles torturam suas vítimas para saber mais sobre a vida delas e assim parecerem mais convincentes nos papéis que assumem. Em seguida, as matam da pior maneira possível, e não gosto de imaginar. O fato é que estes metamorfos são especialistas em roubos. Eles roubaram ou receberam o colar, detectaram a magia imposta nele e resolveram passar adiante. Passar para uma garotinha indefesa como você, Lyandra.

A garota largou-se em cima de uma cadeira, parecia até mesmo a ponto de desmaiar. Seus olhos lacrimejavam. Quando falou, sua voz saiu trépida e angustiante:

– Mas por que eu?

– Eles tinham de se livrar daquilo. Aposto que viram a estalagem e estudaram o casal que sempre deixava alguma coisa pra você. Logo depois os mataram e assumiram seus lugares.

– Apenas especulações! – vociferou Tom. – Mas não vejo as provas!

Então Argan correu até a garota e sem que ela esperasse, colocou a mão sobre o colar, sentindo a vontade de falar a verdade, de mostrar o quão assustado ele estava, mas sua mente era trabalhada contra magias fortes e conseguiu resistir. No entanto, quando tentou puxar o colar do pescoço de Lyandra, a peça se prendeu à garota e uma luz dourada brilhou por toda a estalagem. Quando ela se apagou, o Anokin estava caído lutando para não desmaiar.

Aos poucos em que conseguia ficar de pé, apoiando-se à parede, Argan foi recitando a frase profética:

– Sagrada Verdade ao que usar, azar e morte se retirar.

Quando seus pés pareciam firmes novamente, ele tentou olhar para um dos dois Tom’s que se mexiam em sua visão anuviada quando ouviu um grito que ele não conseguiu reconhecer. Em seguida, recebeu uma forte pancada nas costas e foi jogado para frente.

Virou-se para ver o que o atingiu, enquanto seus olhos ficavam baços. A última coisa que se lembrou é de um homem alto entrando na estalagem e, logo em seguida, desferindo um chute em sua cabeça.

Então, apenas as sombras o fizeram companhia. E ela era fria.

 

 

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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