Capítulo 3

~O Berço do Viajante~

 

A floresta era densa de ambos os lados da trilha, tornando-a tão escura que nem mesmo o mais rude dos movimentos passariam imperceptíveis aos olhos de alguém normal. Argan, no entanto, podia sentir a movimentação, ouvir os galhos se quebrando sob pequeninas patas e o esvoaçar dos pássaros que trocavam de galhos várias vezes para fugir de um predador.

O Anokin continuou parado em meio à trilha de olhos fechados. Não adiantaria usar os olhos em algo que não se poderia enxergar. Isso só faria ele perder o foco das coisas mais ínfimas para buscar a verdade que ele podia ver. Atrás de si, Brutus bufou novamente. Tom analisava o homem à sua frente com extrema curiosidade. O que ele podia estar pensando? O que estava fazendo no meio de uma floresta perigosa como aquela? Ou melhor, o que ele esperava que acontecesse?

Mas nada aconteceu, para deleite do velho. Argan assentiu quase que imperceptivelmente e voltou a andar puxando a corda. Não havia barulho algum que pudesse quebrar o silêncio da floresta. Não havia vento que geralmente fariam os galhos balançarem e as folhas caírem sobre a cabeça dos viajantes. Estava tudo silencioso e calmo, calmo demais.

De longe Argan já podia sentir o cheiro de comida recém-feita escapando pelas frestas das janelas da estalagem. Se o seu olfato não o enganava, parecia que o prato do dia era ensopado de frango, a especialidade da esposa de Tom, e pão fresco. Sentir aquele aroma todo fez com a barriga de Argan roncasse, lembrando a ele que passara o dia inteiro sem comer nada.

Quando finalmente pôde vê-la, Argan notou os cavalos parados em frente à estalagem e algumas carroças. Galinhas e galos corriam pela trilha, mas nunca se afastavam demais (óbvio que não perderiam sua comida servida diariamente por uma tentativa de fuga). A estalagem em si era modesta, porém grande. Havia dois andares e acima da porta de entrada uma tábua fora posta, com os seguintes dizeres talhados na madeira: O Berço do Viajante.

– É bem humilde nossa estalagem, mas as camas são confortáveis e não há pulgas para aporrinhar nossos sonhos. – disse Tom orgulhosamente. Argan assentiu positivamente, achando que poderia passar ali o resto de sua vida, se isso fosse possível.

– É maravilhosa. – disse ele por fim.

Brutus foi amarrado num palanque pequeno e nem mesmo tentou se mexer. O touro parecia realmente muito velho, preguiçoso para tudo. Argan riu internamente ao analisar o animal.

– Ajude-me a descer, se não for incômodo. – disse Tom, gemendo mais uma vez de dor. – Acho que meu osso está saltado para fora.

Argan se adiantou ao lado da carroça e deixou com que o velho se apoiasse em seus braços que ainda continuavam doloridos, mas não como antes. Olhou para o ferimento na perna de Tom e no modo como ele gemia de dor e notou que era grave a situação. Abriu a porta de madeira com o pé e sentiu no mesmo instante o bafo quente que saía de dentro do lugar lhe inundar o rosto. Uma mistura de cheiros o aturdiu por um instante.

A música baixa que tocava no local por um velho bardo com um alaúde em suas mãos logo foi interrompida. Uma moça que atendia uma mesa de um casal deixou cair a caderneta e soltou um grito de espanto.

– Pelos deuses! Pai! – ela disse, indo diretamente a Argan e Tom. O velho, em seus braços, deu um sorriso doloroso e apertou as mãos da moça assim que ela se aproximou.

– Lyandra. – disse ele animadamente, e Argan notou que o velho apenas fizera aquilo para não preocupar sua filha.

– O que aconteceu? – perguntou ela, voltando logo seus olhos para os do Anokin, que permaneceu impassível.

– Este homem me salvou. – disse Tom, sorrindo e apertando a mão de sua filha. – Viajante, se não se importa, poderia me levar ao meu quarto onde minha esposa poderá fazer um curativo em minha perna?

Todos dentro da estalagem pararam o que estavam fazendo para ver o viajante e Tom passarem pelas mesas. Por sorte, o símbolo da Ordem de Santo Efígio estava oculto pelo corpo do velho, senão alguém já poderia tê-lo reconhecido e o lugar se tornaria um mar de sangue.

Lyandra os levou até um quarto que ficava na parte dos fundos da estalagem, e onde provavelmente eles dormiam depois. Neste quarto havia uma cama de casal bem arrumada e com lençóis brancos como se houvessem acabado de sair da limpeza. Um criado mudo fora posto mais ao lado, junto com um candelabro e acendedores de pavio. Com muito cuidado e delicadeza, Argan colocou Tom em cima da cama, depois de Lyandra ter retirado o lençol. No mesmo instante, salpicos de sangue se espalhavam à medida que o velho girava de dor. Agora que tudo estava calmo, era o momento onde o sofrimento começava.

– Tudo bem pai, mamãe já está vindo. – disse a garota.

Lyandra tinha os cabelos loiros e olhos cinzentos, com um corpo de atrair a atenção de qualquer viajante. Usava uma túnica branca e uma saia de algodão branco, agora já suja de cerveja e outras coisas.

Naquele exato momento, quando Argan ainda tinha sua visão presa em Lyandra, ele ouviu a porta do quarto se abrir num estrondo e se virou para contemplar uma bela senhora com feição preocupada no rosto que parou alguns segundos para encará-lo. Logo em seguida, virou-se para o marido e colocou as mãos sobre os quadris.

– Mas o que foi que aconteceu? – perguntou séria, lançando hora ou outra um olhar de esguelha para Argan.

– Aquela maldita montanha. – grunhiu Tom, segurando a perna esquerda.

– E quem é este? – ela se virou para Argan, que não soube o que responder.

– Este – começou Tom – é o motivo de eu estar vivo.

Todos os olhos se voltaram para ele, e Argan se sentiu incomodado. Não gostava de ser o centro das atenções nem quando era criança. Preferia ser mais um em meio à multidão do que ser cravejado por pensamentos que ele nunca chegaria a descobrir.

A bela senhora cruzou os braços e, num tom desconfiado, perguntou:

– Você o salvou da morte?

Argan apenas se limitou a acenar positivamente. Viu que os olhos dela passavam por toda a sua roupa. Certamente, se ela visse o símbolo da Ordem, ficaria instigada a saber mais. E saber demais num tempo como aqueles significavam coisas terríveis.

– Bem… Obrigada então. Sou Melisa. – ela lhe estendeu a mão. Argan a cumprimentou. – Parece que já conheceu meu marido Tom e minha filha Lyandra.

– Sim, sim. É uma bela família que tem aqui, Tom. – disse o Anokin, lançando um olhar para a garota ao seu lado. Sua beleza era o suficiente para acabar com a guerra no mundo inteiro.

Lyandra sorriu e abaixou a cabeça. Um silêncio permeou o quarto até que Melisa ordenou que ele saísse para que elas cuidassem do ferimento do marido. Argan saiu com rapidez e sentou-se a uma cadeira próxima ao balcão. Todos os olhos, mais uma vez, estavam focados nele. Por nenhum momento o capuz saiu de sua cabeça, portanto seus olhos ainda eram duas piscinas de sombras em sua face.

Os gritos de dor de Tom cruzaram a estalagem alguns minutos depois. Outros instantes se seguiram até que Melisa e Lyandra saíssem, ambas com as mãos ensanguentadas. Foram as duas em direção a um lavatório para se limpar.

O cheiro de comida dentro da estalagem era muito forte, e apenas fazia a fome de Argan aumentar. Quando Lyandra veio postou suas mãos sobre o balcão, olhando-o curiosamente, ele logo tratou de pedir o prato do dia.

– É pra já. – respondeu ela, com um sorriso. Em seguida, virou-se e partiu para a cozinha.

Por cima dos ombros, Argan se virou para olhar os outros presentes na estalagem. O casal que Lyandra havia atendido estavam conversando baixinho, mas o assunto não parecia ser nada misterioso. Trocavam sorrisinhos. Amantes apaixonados, da maneira como o Anokin nunca poderia ser. Também havia um homem barbado encostado numa parede ao fundo, com braços fortes e em sua mão direita uma caneca grande com alguma bebida que ele não saberia dizer o que era. Graf, talvez? Hidromel? Vinho? Não importava. A única coisa que demonstrava se tratar de uma bebida alcóolica era a face avermelhada e os olhos que nada mais enxergavam. Em breve ele estaria roncando, encostado à mesa.

O velho bardo agora tocava uma música fúnebre, com as letras tão bem pontuadas que deixava uma chama de piedade à quem a ouvia.

 

As folhas caem

Vidas se esvaem

Os corvos saem

 E os Guerreiros morrem

 

Esta é a visão

Que o Velho Bardo tem da guerra

Uma desgraça magnânima

Que cai sobre a Terra

 

Pois vou eu narrar

Muito em breve

E com muito pesar

Uma guerra que há muito ferve

 

Rei Julian e Rei Baltazar

Ambos decidiram se exaltar

E sem nenhum remorso

Uma peleja iniciar

 

Tudo em causa,

Vejam só

De uma princesa

Feia de dar dó

 

Príncipe William

Belo e formoso

Se negou a ficar com a feia Giulia

De aspecto monstruoso

 

E eu não estou, cá entre nós

Inventando história

As palavras brotam como foz

E não se esvaem de minha memória

 

Rei Julian, achando aquilo uma imensa ofensa

Para com a sua pequena

Levantou sua espada

E a mão do príncipe fora cortada

 

Sem nenhum alerta

No meio do jantar

A ferida fora aberta

E o sangue começou a jorrar

 

Tudo isso num encontro formal

E sem precedentes

Para que tudo ocorresse

Tão mal afinal

 

“Se a mão de minha filha

Não lhe apetece

William nunca encontrará outra rainha

“Que o amará com um defeito desses”

 

E com estas palavras

Do Rei Julian embriagado

Rei Baltazar rogou pragas

Ao ver seu filho aleijado

 

E agora, Rei Baltazar me convoca

Para a guerra presenciar

Enquanto ele um vinho emborca

Verei homens livres se matar.

 

Portanto, não sei se voltarei

Pois é com desagrado

Que digo em nome do Rei

Que nem mesmo um bardo é poupado.

 

Em meio à carnificina,

Posso eu ser terrivelmente degolado

E o rei que um dia animei

Pelas tuas mãos morrerei.

 

Não sinto alegria em nada que digo

Sinto medo em cessar

Deixarei com o meu amigo

Desmond, O Bardo, o terrível desfecho contar.

 

Portanto adeus

Gentis colegas

E fiéis amigos meus

 

Parto para o meu destino

É muito o meu pesar

Em saber , menino

Que não posso voltar.

 

Adeus,

Adeus…

 

Adeus.

 

Os aplausos se iniciaram assim que o alaúde parou. Argan também aplaudiu e quando se demorou a olhar para o bardo, viu que realmente o conhecia. Sim, ele e seu filho Desmond eram os responsáveis pelas festas que aconteciam todos os fins de semana nos grandes salões da Ordem… Só de pensar nos tempos antigos fez com que Argan tivesse um arrepio forte que percorreu sua espinha. Pensou em tudo o que havia deixado para trás. Sua casa, seu…

– Aqui está. – disse Lyandra, acordando Argan de seus pensamentos.

– Obrigado. – respondeu ele, olhando para o prato de ensopado em sua frente.

Sorveu a sopa lentamente, aproveitando o gosto excelente da comida. Havia também um pão seco ao seu lado, que ele fez questão de molhar e mordiscar. O melhor de tudo, no entanto, era o frango. Fê-lo pensar na última vez em que tivera uma refeição quente em sua barriga, e em quanto tempo voltaria a tê-la depois daquele dia.

– Vai ficar hoje? – perguntou a menina mais tarde, com um sorriso gracioso e que expressava gratidão.

Naquele momento, a estalagem já estava quase vazia. O homem barbado já dormia, roncando alto e o velho bardo já havia recolhido sua bolsa de moedas – muito cheias por sinal – e saído de mansinho, pedindo a Melisa que agradecesse a Tom pela estadia e que assim que pudesse, voltaria com outras canções.

No momento, só ele e mais três viajantes estavam no local, além do beberrão. O casal já se preparava para ir embora. Argan achou tudo muito suspeito o fato de que eles fossem embora agora que a penumbra era completa. Certamente conheciam as bandas por ali e sabiam dos riscos. Mas mesmo assim se foram. O Anokin os acompanhou com o olhar, a tempo de ver a mulher, com seu cabelo castanho e olhos azuis, voltar-se e lançar um olhar para Lyandra. A garota, no entanto, apenas sorriu e acenou.

– Os Mullen são sempre muito gentis. A senhora Brinn certamente deixou alguma coisa em baixo da mesa. Ela sempre faz isso. Deixa algum presente para mim como forma de gorjeta e de agradecimento. Tenho muitas joias graças a ela. – disse a menina, dando a volta no balcão e indo até a mesa deles.

– E como eles sabem que você vai receber o presente e não outra pessoa? – perguntou Argan, achando aquilo tudo muito estranho.

– Sou eu que arrumo tudo quando todos vão embora. Assim, eu sempre consigo encontrar alguma coisa em baixo da mesa. – ela respondeu, abaixando-se e logo depois se erguendo com um colar em suas mãos.

O colar era muito bonito, Argan pôde notar de longe. Era banhado à ouro – e ele tinha uma dúvida se aquilo não era realmente ouro – e havia um pingente numa ponta. Uma forma de hexágono com detalhes em alto relevo nas laterais, como se fosse uma tampa. Lyandra riu e colocou-o em seu pescoço. Então, a pequena tampa se abriu e havia um dizer encrustado lá dentro, pois ela começou a ler:

Sagrada Verdade ao que usar, azar e morte se retirar. – sua voz era um tanto assustada, mas ao final ela voltou a rir. – Se ela acha que isso me trará sorte e verdade, quem sou eu para questionar?

No entanto, Argan não viu graça alguma naquelas palavras. Soavam como maldição. E aquele colar não lhe era de todo estranho…

Enquanto pensava nisso, Lyandra passou ao seu lado e voltou a terminar de limpar o balcão. Naquele exato momento, Argan reprimiu a vontade súbita que teve de dizer a ela que a havia achado sedutoramente especial, e que não negaria uma noite ao seu lado. Afastou tais pensamentos de si com muita força de vontade, pois estes se pareciam presos à sua boca, prontos a serem ditos.

– Como está seu pai? – ele perguntou finalmente. Sua mente voltou a agir normalmente, embora a vontade ainda estivesse ali, escondida e irreprimível.

Lyandra o olhou.

– Está bem, obrigada. Minha mãe enfaixou a perna dele e colocou talas de madeira. Ele disse que você pulou atrás dele e o segurou antes que ele caísse no precipício, é verdade? – ela perguntou, se aproximando com o pano em suas mãos e esfregando o balcão.

Argan sentiu a vontade de falar voltar um pouco mais forte, mas se conteve novamente e acenou positivamente.

– E que ainda escalou a montanha toda com ele em suas costas. Também confere isso?

Mais um aceno de cabeça.

– Qual sua idade? – ela perguntou.

– O suficiente. – respondeu ele. – Me traga vinho, por favor?

Ela sorriu e se afastou, indo para a adega. A vontade que preenchia o pensamento de Argan sumiu como mágica.

– Mas que diabos… – disse ele, mas não continuou a frase ao ver que a garota trazia consigo uma caneca e uma garrafa de vinho.

A vontade, no entanto, voltou.

– O suficiente, não? – ela disse, sorrindo. – Eu queria ter o suficiente também. Dezesseis anos de idade e ainda fico por aqui.

– Desculpe-me, devo me retirar. Estou muito cansado. – disse ele, saindo rapidamente da presença de Lyandra.

Subiu as escadas e se trancou em seu quarto. Ele não gostava nem um pouco daquilo, e sentia que havia uma aura muito estranha naquele colar. Durante a noite, as palavras de Lyandra perfurariam sua mente e não o deixariam dormir.

Sagrada Verdade ao que usar, azar e morte se retirar.

Fechou os olhos, mas continuou alerta como sempre.

 

 

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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