Ilustração do personagem: Anderson Oliveira

Capítulo 2

~A Travessia da Montanha~

 

Argan reparou que alguns cumes estavam repletos de neve. O inverno então já estava chegando a Abalônia, e isso era uma coisa que ele facilmente notaria no passado. Ficou surpreso em como as coisas mudavam quando não se tinha tempo para apreciá-las. O tempo passava mais devagar, e a noite era tão rápida quanto um piscar de olhos.

– A trilha vai ficar um pouco apagada devido ao acúmulo de neve. Devemos tomar cuidado. – alertou Tom.

Argan assentiu sem nem mesmo olhar para ele. Continuava a fitar as montanhas. Em seus sopés, enormes pedregulhos tornavam o caminho intransponível por baixo, além de ser berço de centenas (senão milhares) de mortes. Um passo em falso e pronto, o viajante estaria encontrando o derradeiro fim no mar de pedras.

– Vamos? Não é seguro atravessar durante a noite. Existem pedras falsas, se entende o que eu quero dizer. Uma hora você pisa nelas, e então se inicia um desmoronamento e você acaba lá em baixo. – Tom apontou com a cabeça para a região de pedras. O Anokin concordou plenamente e recomeçou a andar.

Agora o cenário era completamente diferente. As árvores foram sendo deixadas para trás – já haviam começado a rarear na bifurcação – e agora apenas uma grama baixa anunciava que ali perto havia uma floresta. O ar limpo e úmido começou a dar lugar a um cheiro mais peculiar e seco. Um odor pungente que afetava as narinas. Argan sabia a origem daquilo. Era o inconfundível cheiro de morte.

Desceram juntos com Brutus a bufar atrás e hora ou outra lhe cutucar as costas com seus chifres brancos e gigantes. A mente de Argan viajava longe, aproveitando o pouco tempo de silêncio que tinha antes de Tom voltar a falar. Não que o velho não fosse uma boa companhia, geralmente quando se está sozinho até mesmo um troll se torna um amigo inseparável se decide conversar, mas o Anokin tinha coisas a pensar. Pensar por exemplo nos problemas e como faria para solucioná-los. Poderia tentar um novo visual talvez, para que ninguém mais o reconhecesse. Então compraria uma fazenda e viveria lá para o resto de sua vida, em paz. Talvez até conseguisse arranjar uma família e…

– Quantos anos você tem? – perguntou Tom casualmente, como se o simples fato de ficar em silêncio fosse muito difícil para ele.

– O suficiente, eu acho. – Argan respondeu.

– Suficiente, hein? Para o quê?

O Anokin pensou por alguns segundos e respondeu confiante em suas palavras:

– Suficiente para me redimir dos meus pecados.

– Que não são poucos, devo supor.

Argan riu.

– Realmente, não são poucos. – respondeu e tornou a ficar calado.

– Heh, pena que meu tempo já passou. Se um dia fiz algo de errado, espero que já tenha pago o preço.

O Anokin não disse mais nada. Continuou acompanhando a trilha e vendo que agora as rochas começavam a cercá-los. Em poucos minutos, começariam a subir a grande montanha. A subida não era completamente íngreme, mas tinha uma angulação que a tornava um obstáculo para algumas pessoas. Argan se surpreendeu ao ver que Tom e Brutus conseguiam subir facilmente. Se o que o velho disse era verdade, eles já haviam feito aquele caminho incontáveis vezes.

E novamente, depois de um pequeno período de silêncio, Tom tornou a fazer uma de suas perguntas:

– E estas armas?

– O que tem? – Argan perguntou, estava começando a ficar estressado. Não queria responder a pergunta alguma. Achou melhor se simplesmente andasse rapidamente para deixar o velho para trás, mas isso não pareceria muito certo.

– Por que as usa? – Tom perguntou.

– Abalônia é simplesmente um lugar muito perigoso para um viajante como eu. – esperou que esta resposta bastasse, mas algo lhe dizia que outras perguntas viriam de uma forma ou de outra.

– Concordo, mas nunca precisei usar destes artifícios para me proteger, se é que me entende. Nunca fui assaltado por estas bandas e espero não ser.

– Que os Deuses te ouçam. É um risco que se tem ao viver uma vida pacífica.

O sol já começava a descer quando Tom e Argan se viram no cume da montanha. O vento ali era forte e ameaçador. A brisa tocava os rochedos e um silvo agudo se tornava parte de todo aquele cenário perigoso. As nuvens agora estavam baixas e pareciam serem quase palpáveis. Algumas crostas de gelo já começavam a se acumular e o Anokin sentia sua respiração ficar mais espessa, enquanto ondas de fumaça gelada saíam de sua boca a medida que bafejava. O mesmo tipo de fumaça saía das narinas de Brutus e da boca de Tom que, por mais frio que parecia fazer, não se queixava.

Do lado esquerdo, Argan pôde ver pequenos fios de fumaça se desprendendo de casas e torres altas e escuras. A vila Ortrid estava já se preparando para o inverno, cuidando de seus habitantes que, naquele momento, já deveriam estar apinhados em volta de uma lareira deixando o calor das chamas fluírem pelos seus membros. O Anokin daria sua liberdade para voltar a ter uma regalia daquelas um dia.

Na tentativa de esquecer o seu sonho, ele cutucou Tom e voltou a andar. O velho deu um puxão na corda e Brutus, que estava parado mordiscando um pedaço de capim.

– Chegaremos lá na hora do jantar. Poderá dormir lá, se assim lhe apetecer. – Tom ofereceu. Parecia ser até mesmo dono do lugar. – Minha mulher faz o melhor ensopado da região, isso posso lhe garantir.

– Sua família toda trabalha lá? – Argan perguntou.

– Trabalha sim, há mais de sete gerações. – havia orgulho na voz do velho. – E já passamos por tantas maldades, e ainda assim nunca revidei.

Argan parou no meio do caminho e se virou para confrontá-lo.

– Maldades? Que tipos de maldades?

– Nós temos uma dívida eterna para com a Guilda dos Ladrões. – respondeu Tom, como se aquilo explicasse muita coisa. Para Argan, no entanto, a coisa pareceu fazer bem menos sentido que antes.

– E por que teriam uma dívida com tais?

O velho riu.

– Não tivemos escolha. Eles simplesmente vieram um dia e nos ameaçaram, dizendo que aquelas regiões eram deles e que três quartos do que ganhávamos deveria ser debutado a eles.

Argan cerrou os punhos com força. Em tempos passados, antes de ele ser um renegado devido aos seus erros, ele e sua Ordem era contra todo este tipo de barbárie. A Ordem de Santo Efígio sempre existiu em prol dos mais fracos, defendendo-os sempre que estes solicitassem ajuda. Ele bem sabia que o mal nunca havia se extinguido, mas era um choque saber que sua antiga morada hoje já era desconsiderada e que até mesmo a antiga Guilda dos Ladrões voltava a atacar sem escrúpulos ou medo. Esperava que o processo não se ampliasse e os outros clãs e guildas voltassem a agir. Seria um grave problema para todos os reinos de Abalônia.

Era aterrador perceber o quanto a Ordem de Santo Efígio havia se tornado inútil.

– Sabe manusear essas armas que carrega? – Tom perguntou. E antes dele falar, Argan sabia aonde o estalajadeiro chegaria. Por isso, olhou-o de esguelha.

– Sim, eu sei. – respondeu.

– Então… Quem sabe… Quem sabe você poderia nos ajudar. – disse o velho, num tom simplório de imploração e ardente súplica. Para que tudo ficasse mais evidente e desesperador, só faltava mesmo ele se ajoelhar e agarrar as vestes de Argan.

O que aconteceu, no entanto, foi um pouco mais drástico que isso. Argan viu a perna de Tom se dobrar e achou que o velho estava prestes a fazer aquilo que ele suspeitava. Porém, a expressão assustada do estalajadeiro entregou que aquilo não era algo normal.

Antes que Argan pudesse perceber, as pedras começaram a deslizar, levando consigo o corpo de Tom, que gritava por ajuda. Sua mão se soltou da corda que segurava o touro e ele continuou a escorregar em direção aos rochedos.

O Anokin nem mesmo pensou, apenas agiu por impulso. Pulou atrás de Tom, embora sabendo que sua vida pudesse se perder naquele mar de pedras. Não se importou, tinha de salvar aquele homem.

Enquanto escorregava pela encosta, com as pedras a deslizarem do seu lado e Tom mais abaixo tentando se segurar em alguma coisa ao passo em que seu corpo rolava sem parar, Argan puxou uma espécie de adaga pequena com um furo em seu cabo, por onde uma corda passava, e a lançou em direção à pedra mais próxima. No mesmo instante em que a adaga se enrolou à pedra, o Anokin pulou e por alguns instantes pareceu voar na direção de Tom, com os braços abertos e olhos focados em seu alvo.

Tom estava prestes a cair de um penhasco que significaria sua morte quando sentiu ser agarrado no último momento. O seu corpo e o corpo de Argan bateram com força no paredão, mas mesmo assim o Anokin não o soltou. A corda fora tensionada ao máximo, e o Anokin torcia para que ela aguentasse o peso dos dois. Lá em baixo, a visão vertiginosa era de rochas pontiagudas encarando suas vítimas, chamando-as com vozes sibilantes, pedindo para que alimentassem suas superfícies com sangue.

– Hoje não. – disse Argan, em voz alta. Depois se voltou para Tom, que parecia a ponto de perder a consciência. Sua perna esquerda estava torcida num ângulo estranho e algo branco saía para respirar. – Tom, fique comigo. Consegue se agarrar em mim?

– Acho que sim. – disse ele, em meio a gemidos de dor.

– Então faça isso, se prenda em minhas costas, rápido.

Tom virou-se e Argan fez força para puxar o velho mais para cima, a fim de que este passasse os braços sobre o pescoço dele. A corda presa em sua cintura se tencionou ainda mais. Pela primeira vez em muito tempo, o Anokin estava preocupado com outra vida a não ser a sua.

Quando sentiu os braços de Tom passarem sobre seu pescoço, tornando um pouco difícil para respirar, Argan usou as duas mãos para puxar a corda, apoiando os pés na parede e escalando.

– Essa corda vai mesmo nos aguentar? – perguntou Tom, não perdendo a disposição para suas perguntas incômodas.

– Não faça perguntas. Apenas se segure. Vou nos tirar daqui. – respondeu o Anokin, fazendo força para subir.

Com esforço, ele subiu até seus pés passarem a beirada do precipício, e aquilo já serviu para ele soltar uma exclamação de alívio. Seu peito queimava, assim como cada músculo de seu braço. Fazer todo aquele caminho seria muito difícil sozinho, imagine carregando outro em suas costas. Suas pernas tremiam e ele sentia ainda a vibração da corda em suas mãos, e realmente esperava que ela estourasse e ambos caíssem para o derradeiro fim.

Com dificuldade, ele avançou mais alguns passos, pensando que largar Tom para a morte seria muito mais simples do que passar por aquilo tudo. Por sorte, a simplicidade nunca foi muito o forte de Argan.

– Não vou te deixar cair. – grunhiu ele, as veias saltando em sua testa.

– Eu sei. – respondeu Tom com sinceridade.

A rocha onde a corda de Argan havia se prendido agora estava mais próxima, uns dez metros acima. Agora com o terreno mais plano, a tarefa ficava um pouco mais fácil, mas nem de perto próxima de ser concluída.

As mãos do Anokin queimavam e seus polegares ficaram em carne viva com rapidez. O movimento de escalada logo se tornou automático. Não havia mais dor, pois a adrenalina fluía com rapidez em suas veias.

Argan já estava tão cansado que nem notou quando chegou à rocha, muito menos que desamarrou a corda e tornou a escalar com Tom às suas costas, mas agora com os dedos penetrando nas cavidades que ele encontrava. Já era possível ver Brutus logo acima, mascando preguiçosamente o mato próximo e esperando o retorno de seu dono.

Não soube dizer quanto tempo escalou aquela montanha com Tom preso em seu cangote, mas quando chegou ao topo, pareceu ter levado uma eternidade. Colocou o velho na carroça e permitiu-se deitar para respirar. Sua visão anuviou e tudo ficou preto.

– Minha perna dói muito. – disse Tom, trazendo Argan para a realidade.

Argan não respondeu, mas se ergueu. Mal conseguia manter-se de pé, mas decidiu não demonstrar isso para Tom. Como se não precisasse de descanso algum e sem ouvir o agradecimento do velho, ele segurou a corda que puxava Brutus e voltou a caminhar, tomando o devido cuidado para não pisar numa pedra falsa novamente.

Caminharam até o momento em que o sol começava a descer, deixando o crepúsculo tomar conta de todo o céu e terra, trazendo sombras tardias para a presença de todos os viajantes. E junto com elas, os perigos que na luz ficariam escondidos e que na noite acordavam para caçar.

Felizmente, enquanto desciam com o velho Tom guinchando de dor e Argan se sentindo um pouco melhor, eles viram luzes saírem de uma pequena região florestal, onde certamente seria a estalagem.

Tom soltou um som prazeroso ao avistá-la. Estavam a menos de um quilômetro de terminarem o trajeto. E já haviam descido toda a montanha – sem incidentes – quando Argan se virou para trás e contemplou a passagem das montanhas, sombrias e incólumes.

Edson Shad

Edson Shad

Spohr do 1 Real a Hora, escritor, cinéfilo e geek desde que ser Nerd não estava compensando com as garotas. Interestelar é o filme da minha vida e meu sonho é um dia ser igual o Stephen King.
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