O Studio Ghibli através do tempo mostrou de uma forma grandiosa o que é fazer animação. Não que eu menospreze outros estúdios de animação (Mentira, Ghibli é bem melhor que a Disney), mas a genialidade dos criadores, roteiristas e produtores dessas animações excedem totalmente só a infantilidade humana das animações diversas. Cemitério de Vagalumes, A Viagem de Chihiro e outros inúmeros clássicos do Studio só fortificam ainda mais toda a originalidade que eles conseguem captar para tramas tão únicas, concretas e fortes. Ocean Waves ou Umi ga Kikoeru (Eu posso ouvir o oceano) é um trabalho sem tanto orçamento, com produtores jovens e mentes virgens sob sua construção, mas é genial.

Amores sempre encantaram a espécie humana. É difícil definir amor. Tirando toda a parte dos amores que existem com relações de sangue, amizades, etc, eu falo de um amor brutal, o amor que interliga dois indivíduos largados no mundo, como se precisassem de um ao outro para sobreviver. Nessa simbiose insana histórias vem e vão, Ocean Waves é um exemplo belíssimo disso, é o ápice de uma história de amores adolescente, é óbvio que os amores que giram em torno dessa fase podem ter algo concreto e ao meu ver nunca foram tão bem representados em uma animação.

Se há clichê? Inúmeros. Temos a presença de uma garota diferente, de um triângulo amoroso… Mas é na ambientação que acerta, se você é fã de animação japonesa de cara podemos perceber toda uma influência dos anos 90 orientais sobre essa animação, com toda uma trilha sonora chorosa, personagens únicos e momentos que relembram outras animações da época. O estilo de vida, as roupas, os carros, é uma representação artística crua sobre como era a vida oriental nessa época, uma história forte unida a um clima espetacular.

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Temos o protagonista, Taku é fácil de se espelhar. Trabalha para juntar dinheiro, não tem as melhores notas da escola, preza por seus amigos e é normal. Normalidade é uma palavra forte, mas digamos que para os padrões daquele Japão, Taku é um adolescente normal. Yutaka é o seu melhor amigo e aparenta um padrão mais inteligente, um adolescente mais prezado em seus estudos e afins e em meio a esse caos de relações sociais temos a adição de Rikako. Após o divórcio de seus pais, essa garota que era acostumada com um estilo de vida em Tóquio vai viver em Kochi, essa cidade litorânea extremamente oriental (Tá, isso é bem clichê) e é a partir daí que nasce um triângulo amoroso.

Na verdade você não sabe ao certo se é um triângulo amoroso ou não. Rikako é inteligente, bonita, preza por seus estudos e rapidamente se torna uma das melhores alunas, mas não consegue se adaptar a aquele estilo de vida e nem sabe a razão. Yutaka é o primeiro a sentir algo por ela, como se fisgado pela magia elemental do amor adolescente e é nessa isca que nasce todos os dramas em torno da garota. Em uma viagem de turma, Rikako desenvolve uma espécie de amizade com Taku e logo eles se veem imersos nessa “amizade” meio esquisita e repentina.

É ou não é um triângulo amoroso? Como eu disse acima não sou capaz de opinar. Taku não parece ter desenvolvido sentimentos tão repentinos e Rikako não tem indecisão sobre com quem ficar… Mas é a partir desse ponto que toda uma direção artística e sonora mergulha no seu interior.

Vivemos numa era onde amar é temer. Temos medo de amar e quebrarmos esses sentimentos, é uma geração de pessoas que esqueceram como isso é, eu mesmo não faço a mínima ideia. Talvez sofremos muito jovens e fomos tragados por isso, mas agora poucos sabem o que é amor, poucos sabem o que é sentir. Ocean Waves retrata perfeitamente o que é, não tem nenhum tipo de romantização sobre o que realmente acontece dentro das paredes de um colégio e primorosamente unidos a um clima muito bem colocado, em paleta de cores, em direção de arte, em trilha sonora ou quem sabe até em diálogos esses relacionamentos sociais caem e caem muito bem.

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Esse sentimento pode soar clichê, mas é na adolescência que tudo isso nasce. A indecisão, os amores do colégio… Talvez existam adolescentes totalmente despretensiosos com isso, que só estão ligados no prazer carnal, mas o amor ainda persiste em certos corações, o desejo de união também. É nessa animação belíssima do Studio Ghibli que esse misto de emoções e sabores nasce, é nessa união de tudo, da trama e do técnico que Ocean Waves é capaz de exaltar tantos sentimentos.

É meio difícil definir que sentimentos são esses, mas Ocean Waves os traz. Definir como eles são é mais difícil ainda, por isso veja essa animação belíssima do Ghibli, sinta na pele como funciona toda essa relação social e se encante com uma história simples, única e primorosa.