Reencontro

Opa, galera! Mais uma vez trago a vocês um pouco do nosso mundo de RPG (Role Playing Game ou Jogo de Interpretação) de mesa. Esse reencontro aconteceu depois de muito tempo e foi bem interessante. Foram duas semanas de narração e eu compilei aqui pra nós os eventos. Como já devem imaginar, duas semanas de jogo é bastante coisa e por isso vou dividir em duas partes pra que a leitura seja mais prazerosa. Aproveitem!

(…) A luzes de neon abrilhantaram a noite da cidade combinando com as luzes das sirenes. Dexter e Kali perambularam por quadras ignorando a numeração das ruas e a balbúrdia dos policiais bloqueando o trânsito, checando o interior de cada veículo, revistando pedestres à força e se divertindo com o caos. As pernas ameaçaram um ataque de cãibras quando o sujeito de chapéu sussurrou encarando o perdido. É aqui. Disse Kali, enquanto invadiram um beco tomado pelas trevas espantando gatos e ratos camuflados pelos latões de lixo. O fedor de lavagem ardeu as narinas e queimou os olhos. O cowboy descobriu a porta dos fundos de um restaurante. Aterrissou os dedos na maçaneta, engoliu em seco, apertou as pálpebras e soprou. Ma Tahan Minna. Ouviu o estalo da fechadura cedendo e notou uma lágrima de suor percorrer o caminho da testa ao queixo num instante. Todos os feitiços serão desencantados ao atravessarmos a soleira. Insistiram na invasão após uma troca de acenos e chegaram a uma cozinha industrial ocupada por prateleiras de ferro, chapas, fritadeiras e fornos. Inexistia sinais de funcionários e estoque. Exalando vida havia apenas as aranhas tecendo suas teias nos cantos das paredes. Kali pigarreou cabisbaixo. Por ali. Apontou a passagem para o salão. Está te esperando. Adicionou petrificando perto do freezer.

O loiro seguiu sua jornada encurtando a passada. Venceu os obstáculos e desembarcou num espaço iluminado por candelabros em cima de dezenas de mesas redondas. A decoração esbanjava luxo a começar do piso de tábuas e terminando nos pratos de porcelana virados pra baixo e os olhares de prata. Depois de um tempo investigando o legista descobriu uma mulher de vestido preto sentada de costas, sozinha e perto dos banheiros virando o menu de um lado pro outro. Seu penteado ondulado unia-se ao perfume a entregando personalidade… individualidade. O conjunto era familiar… Bem na hora, Dexter. Nem cedo, nem tarde… Na hora.

O legista serpeou pelo restaurante seguindo a voz de fada saindo dos lábios de Mathylda. Estava a dois corpos de distância quando ouviu a cadeira se arrastar empurrada pela mulher se erguendo. Seus restaurant2movimentos eram sincronizados, cada gesto parecia um passo de tango. De costas ela tinha curvas suficiente para entortar o pescoço de quem as tentasse acompanhar. Mantinha os fios encaracolados tampando apenas a nuca e um pedaço de tatuagem em forma de pentagrama. Está faminto, Dexter? Indagou a Encantadora girando nos calcanhares fazendo os saltos ecoarem. Seus lábios adornados por um batom rosa realçaram o magnetismo de seu sorriso, tornando seus olhos roubados do fundo do mar ainda mais perigosos. Ouvir aquela voz o desarmou completamente! “Mathylda?!” Sua mente já havia lhe pregado aquela peça antes… ou será que não? Mathylda…sussurrou, boquiaberto, incapaz de pronunciar qualquer outra coisa que fizesse sentido. “Essa voz. Esse perfume. Não pode ser ilusão!” Pelo menos ele não queria que fosse. Se aproximou dela pra constatar a veracidade do encontro e quase saltou pra trás quando ela se moveu. Ah… sim, claro… ah… não tomei café da manhã ainda… Estava pior do que uma criança de 4 anos. Aquela mulher era um perigo pra sanidade mental dele, pois exercia uma força muito maior e incompreensível que qualquer Exarca jamais poderia. Coçou os olhos numa última tentativa de absorver a cena. “É verdade! É ela mesma!” Constatou, e tudo o que conseguiu fazer foi sorrir como um adolescente perto de sua paixonite do colegial.

Seja cavalheiro. Ela cruzou devagar os braços abaixo do busto destacando um pingente de prata em forma de coração no decote. A vista saltava entre a cadeira que usava e o legista. Mas claro! Sentiu seu rosto se contorcer numa careta, desfazendo o sorriso ‘paspalhão’ e voltando a uma expressão normal. Me permita, madame… Se adiantou como pode e puxou a cadeira alguns centímetros. Por favor. Apontou pra cadeira enquanto sorria. Ela aceitou a oferta acomodando-se no assento balançando o corpo e espalhando seu perfume. Depois aguardou o loiro ocupar seu espaço do outro lado da mesa. Por onde começamos, Dexter? Fingindo que estamos numa reunião de negócios ou que somos amigos que não se veem há um tempo? As pontas dos dedos deslizaram pelos ombros. Sentia saudade da trivialidade de um encontro seguindo a etiqueta do Decaído. Ele sentou-se na cadeira do outro lado da mesa, sorrindo e observando hipnotizado cada movimento da dama. Não sou nenhum homem de negócios, então vou optar por um reencontro de amigos de longa data. Terminou a frase com um sorriso mais maduro. Damas primeiro. Fez um gesto de ‘pode começar’ com as mãos. Como tem passado? Indagou.

Como deve saber, vim arrastada e cheguei inconsciente neste pedacinho do céu. Andei por aí, fiz amigos e soube das confusões envolvendo meus companheiros de Cabala. Então decidi não me envolver. Agora procuro um jeito de voltar pro outro lado do Abismo. Resumiu o conto a respeito de sua estadia no Superno. Ignorou episódios bons e ruins disposta a se concentrar na companhia do legista. Nil é o melhor lugar a se ficar. É perigosa e traiçoeira como os filhos de Arcádia gostam de ser, mas supera o resto dos domínios.

Era a vez do legista de falar. Chegamos aqui ontem, e não tive boas impressões desse lugar… “Até agora…” Aterrissei aqui no Natureza Primordial e conheci um trio dos nossos dentro da Biblioteca de Atlântida. Foi uma aventura e tanto, encontramos um Oráculo que nos deu uma profecia e estamos atrás das pistas pra cumpri-la. Resumiu a história, embora estivesse louco pra contar cada detalhe do que acontecera desde o instante que abriu os olhos no meio daquela floresta. Deixaria a história pra uma outra oportunidade, embora talvez nem tivessem mais uma, mas lembrou-se do sonho premonitório que teve e nele teria sim uma outra vez na companhia dela. Temos que chegar a Lemúria e aqui encontraremos algo que precisamos. Nós estávamos indo até o Cardeal pra pedir ajuda a ele na busca.

Ela rebateu. Primeiro: Lemúria é uma lenda até deste lado do Abismo. Um conto melhor que o nosso, mas não passa disso. O tato deslizou das clavículas escorregando em direção ao busto onde brincaram com a correntinha. Segundo: O Cardeal e o Dakar são babacas e se merecem. Deixe-os morrer. Uma das mãos perpassou por cima da mesa pousando sobre a do Necromante.

O problema não é deixar os dois morrerem, e sim todos os outros no caminho deles. Suspirou, sentindo o toque suave da mão dela. Nem sequer se lembrava daquela sensação… ” Quanto tempo desde que eu senti esse calor em minhas mãos?” Anos trabalhando com os mortos tinham-no feito esquecer o quão gostoso era a sensação de calor fornecida por outro ser humano. Conheci uma garota de Lemúria. Ela é nascida lá e precisa da minha ajuda pra voltar e salvar a todos nós. Olhou-a nos olhos, imaginando a reação dela a isso. Ela é bem diferente de você, embora também seja uma encantadora. Comentou enquanto se dava conta de que alguma coisa havia mudado nela. Talvez fosse só impressão dele, mas ela não estava tão lívida e ousada quanto ele se lembrava. Gostaria que pudessem se conhecer… Pousou sua outra mão sobre a dela. O Cardeal deve saber como voltar, se é mesmo isso que deseja. Disse, por fim, de forma triste.

Ela recolheu a mão antes de se ajeitar na cadeira. O interesse crescera no âmago. Esta parte da história eu desconhecia, Dexter. Murmurou enrugando a testa cheia de curiosidade. E onde está a tal Lemuriana? Adoraria conhecê-la… Seria como um ateu testemunhar o divino.

“Aí está! Aquele fogo pelo qual me apaixonei não morreu.” Arregalou o sorriso antes de continuar. Nesse instante eu diria que estão a caminho da Suméria, pois é lá que o Cardeal está. Nos separamos durante a fuga dos guardas d’O Olho, Kali e eu escapamos pela penumbra, mas os dois saíram voando. O ponto de encontro era o metrô na rua 23, sentido Eufrates. De lá iríamos até o Cardeal. Por sorte encontramos Kali no Covil dos Nerds e ele me trouxe até aqui…“Queria muito te ver mais uma vez…” sentiu sua voz desaparecer. “Droga, por que não consegui falar?! Droga, Dexter, diga! Você pode não ter outra chance!” Eu… estou feliz por isso… Não era exatamente o que ele queria dizer, mas já havia dito.

Largou uma risadinha sem graça no ar. Esqueço-me que os Necromantes não leem os fios do Destino. Meneou a cabeça de forma divertida sentindo-se uma adolescente na véspera do baile. Também estou e ficarei mais em breve. Provocou fuzilando os olhos do tímido. Apreciava as nuances do jogo de gato-e-rato, sobretudo a versão em que a mulher era a predadora. O lugar pra onde pretende ir é perto daqui. Resmungou abrandecendo o clima de sedução. Mas antes de partirmos, preciso perguntar certas coisas.

Estremeceu em êxtase com a afirmação da Encantadora. “Ela está feliz em me ver!” Segurou a reação o máximo que pode, reduzindo-a a um tapinha na mesa. Então você vem comigo? Perguntou, antes que ela pudesse terminar de falar. Perguntas? Ok, sou todo ouvidos. romantic-dinner-couple-1

Vou se as respostas forem convincentes. Cruzou as pernas debaixo da mesa fazendo questão das pontas dos pés resvalarem nas canelas do legista. Estamos no Reino do Pandemônio. Como sabe que existo e não sou um produto da Mente, um dos arcanos Regentes deste lugar?

Isso aconteceu comigo no Natureza Primordial, e percebi lá que, sendo uma ilusão da mente, você não saberia nada que eu não sei e vice versa, saberia que eu, por exemplo, não posso espiar o futuro pelas linhas do destino, Saberia da existência da Lemuriana e de tudo que eu já sei.

O raciocínio era interessante. A Natureza Primordial tinha a Mente como arcano Inferior, então os desequilíbrios por lá forçariam a criação de vozes, imagens e cheiros aleatoriamente. Num lugar como o Pandemônio, sobretudo em Nil, as anormalidades geradas por falta de parâmetro seriam incoerentes. Trocaria a oportunidade de reinar um domínio do Superno pela vida de anônimo perseguido pelos Profetas do Trono e outras aberrações no Decaído?

Aqui não é muito melhor do que lá, sabia? Venho sendo caçado desde o instante que pisei aqui pelo tal Olho… Também conheci um rapaz que está aqui há tempos, que viveu fugindo e comprovou que seria extremamente difícil se tornar rei aqui. Olhou pro teto enquanto se recostava na cadeira. Acho que escolheria um dos dois, Superno ou Decaído, baseado no que posso aproveitar mais… onde seria mais feliz… não sei bem se lá ou aqui, mas só depois de resolver essa bagunça onde me meti… Respondeu, sincero e confuso, da forma que achou ser mais clara… Deu pra entender?

Sim. Murmurou distante, libertando a mente para viajar em devaneios. Logo depois retomou a concentração no loiro à sua frente. Energizou o tom e continuou. Agora a última: o que faria se soubesse que esta é a última noite de sua vida?

Eu n… Parou antes de completar a frase. “Eu não sei!” Ficou espantado com a sua falta de resposta para essa pergunta tão comum e recorrente. “Quantas vezes já ouvi essa pergunta e pra todas elas tinha uma resposta pronta?!” Todas. Era sempre algo mundano: passar o dia com a família; encher a barriga de comidas gostosas; passar o dia na praia; Viaja.Era sempre muito simples responder àquele tipo de pergunta, mas perante a Encantadora, era uma missão quase impossível. Respirou fundo e reuniu toda a coragem que ainda lhe restava. Eu realmente não sei… ou melhor, não me importo. Isso era surpresa até pra ele mesmo. Acho que ‘o que’ ou ‘onde’ pouco importam, mas ‘com quem’ eu preferiria estar nos últimos momentos da minha vida. Sorriu, por alguma razão que desconhecia. É tão clichê, mas é como me sinto… Olhou diretamente nos olhos dela. Pode até parecer uma cantada brega, mas se essa for mesmo a última noite da minha vida não me arrependo que seja aqui, com você, Mathylda. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu o peso que carregava nas costas por conta de sua ‘ineptidão social’ sumir. Pela primeira vez em muito tempo, soube que estava falando sinceramente tudo o que pensava, sem medo de represálias ou de chacotas, sem medo de ser considerado um idiota. “Essa mulher é mesmo muito perigosa! Ela conseguiu me desarmar sem eu nem ser perceber…” Minha admiração por você não me deixa mentir…

Ela conhecia mulheres que se constrangeriam ouvindo os dizeres do homem. Outras se derreteriam pelas palavras… Porém o Superno não era Hollywood ou cenário de romances do Decaído. E sobretudo, estava longe de ser uma destas moscas-mortas suspirando por gracejos. Tem pressa em encontrar seus companheiros ou…?Dex deveria dizer sim, sem hesitar um segundo sequer, mas não conseguiu. Acenou com a cabeça um tímido ‘não’ sem desviar o olhar dela.Mathylda suavizou os movimentos ao se erguer e exibiu malícia em forma de sorriso na face ao encarar o loiro de cima pra baixo. Sabia que daquele ângulo a luz faria o arquimago enxergar as pontas dos seios denunciando a falta de sutiã e marcando o vestido. Que suas curvas o incitariam e seu olhar o enfeitiçaria sem magia. Venha, Dexter. Chega de perguntas e respostas. Vamos transformar esta noite, vivê-la como se fosse nossa última…

Os créditos da narrativa vão para meu grande amigo e narrador Carlos Eduardo. Usamos um programa de interface online chamado RPG2ic e caso se interessem em saber mais sobre nossas sessões, baixem o programa e procurem por mim [panda] ou por ele [caredu] e ajudaremos a se familiarizar com o 2ic. Essa foi a primeira de duas partes desse reencontro, não deixem de acompanhar…