Conto: Harley Davidson

 

Eu encarava um quadro especialmente estranho, com retoques avermelhados sobre um corpo nu e feminino quando a moto soou lá fora.

O posto de gasolina do meu velho não é o melhor  do mundo, está meio carcomido, as mercadorias não são das melhores marcas, mas se tem algo que ele gosta é a cerveja, temos Irlandesas, Alemãs e Russas. Com toda certeza ele gasta uma grana preta com elas, mas muitos motoqueiros solitários ou motoclubes compram as cervejas aqui, caixotes e mais caixotes do chamado elixir dos deuses.

Pela porta envidraçada pude perceber uma moto sozinha, era uma Harley Davidson cromada, o que já tornava aquela cena um tanto peculiar. O homem acima tinha um visual malhado, calças jeans desbotadas, sapatos sociais e um colete escuro sobre uma camiseta preta. Seus cabelos eram fartos, castanhos, sua barba meio longa e usava um óculos grande e preto. Sem capacete, o motoqueiro anos setenta já me impressionou.

Ele empurrou a porta de leve, silencioso e caminhando em passos lentos, a figura parecia um completo forasteiro.

– Cadê seu pai, garoto? – ele murmurou, estranhamente sua voz era bonita. Não era rouca, dura, áspera, nem aguda ou ridícula. Era bonita, a voz de um homem justo.

– Foi pegar as cargas de cerveja, mas eu atendo tão bem quanto ele. – respondi destemido.

Pela barba eu pude perceber um sorriso, ele deslizava as mãos pelas prateleiras de comida industrializada.

– Sabe, eu também tenho uma relação assim com meu pai. Quando ele não está, eu atendo pelo nome dele. – e então sorriu novamente.

Meus pais sempre foram religiosos. Isso é o Texas! Meu velho é um pouco fervoroso, é um grande orador na igreja local e minha mãe também. Embora ambos sejam completos caipiras em relação a tudo, se há algo que nenhum dos dois tem é preconceito, é impressionante como são fervorosos com a graça de Deus, mas não são tão ridículos e extremistas como os nossos vizinhos.

– Quanto é uma alemã, garoto? – o homem barbudo perguntou novamente.

– Doze e cinquenta-  respondi um pouco desconfiado, ele não comprava nada, só lia e checava as embalagens.

– Pegue uma pra mim, vai. – ele respondeu.

Suspiro deixando o balcão, caminho para as geladeiras e tiro uma autêntica Hofbrau Original. Caminho na direção do forasteiro e ele pega a cerveja, abre lá mesmo e bebe um longo gole.

Limpando as beiradas da boca da cerveja escorrida ele emite um sorriso satisfeito.

– Caramba, garoto. Que cerveja maravilhosa! Não tínhamos nada assim em Nazaré.

Emiti um olhar esquisito, Nazaré? O cara devia ser um veterano de guerra, parecia esquisito demais para mim. Aliás, meu velho sempre me falou para não falar com estranhos.

Voltei ao balcão e notei a outra pintura na parede, ao lado da mulher nua. Era um homem, barbudo, cabelos castanhos, branco e obviamente divino. Era Jesus Cristo, filho de Deus e mais uma penca de nomes por aí.

Observei o rosto de Jesus da pintura e do forasteiro, é naquele exato momento que eu me pergunto que tipo de drogas eu andei experimentando e eu nunca havia experimentado drogas.

– Você é Jesus? – pergunto, enquanto ele bebe mais cerveja.

Virando o rosto na minha direção há um sorriso implementado em seus lábios, ele tira o óculos e exibe olhos especialmente brilhantes, como se de um fogo celestial sem escalas.

– ISSO AÍ! – ele exclama. – Finalmente, em todos esses… Dois mil e dez anos.

Eu não poderia voltar pra trás mesmo, se aquele cara era realmente Jesus eu tinha uma porrada de perguntas para bombardear o filho de Deus.

– Então desde sua crucificação, você passou toda a vida humana… Por aí? No mundo? E os mitos que você voltaria?

– Ah, isso é pra boi dormir. Depois de me foderem total lá, eu deixei aquela região… Fui para o Egito, curti pra caramba, Grécia, Roma… Bem, eu viajei bastante, vivi bastante. Abri portas para bondades, eu não ia me esquecer da minha principal tarefa. Então é claro que atos bondosos que ocorreram na humanidade foram por minha culpa.

– Por que você não impediu certas coisas? – pergunto encabulado, era difícil acreditar nas palavras do lunático.

– Eu não sou o único no mundo, garoto. Deixe-me ver… Idade Medieval, Moderna… Bem, quando chegamos ao antigo século das guerras foi minha última ação bondosa, ou pelo menos aniquiladora.

– O que você quer dizer com isso?

– Hitler, garoto! Era ele o tempo todo, Satã, Capetinha, Belzebu. Bem, ele tem vários nomes, como eu! Hitler, o grande filho da puta que assassinou milhões e liderou a Alemanha por uma ditadura horrenda extremista.

– Hitler era o Diabo?

– Literalmente. – ele responde, bebendo mais um gole.

– E o que você fez?

– Bem, eu liderei a guerra total. É claro que mexi meus pauzinhos, ou meu pauzão para os fabulosos Aliados meterem o cacete no Eixo.

– Para uma figura divina você xinga bastante, sabe? – pergunto, mascando um chiclete roubado.

– Cacete! Quem foi o filho da puta que inventou essas regras? Garoto, entenda uma coisa: Eu sou o filho de Deus, eu prego a paz e o amor. Acha que eu sou o tipo de pessoa que dissemina ódio? Todas as pessoas que usam meu nome ou sei lá, religiões que a usaram para discursos de ódio, saiba que meu pai e eu nunca concordamos com isso. Homossexualidade? Pode ter que é um pecado na Bíblia, mas pense bem… Ela foi escrita por aqueles homens, profetas de um passado, que por acaso eu já vi com meus olhos escondiam certas coisinhas…

– Você tá me dizendo que alguns pecados bíblicos são traumas de profetas?

– Sim! Eu nem me lembro o maluco que escreveu o versículo que dissemina ódio aos homossexuais, mas eu tenho certeza que ele escondia algo… Bem, o que eu digo é que você nunca deve levar tudo no literal. Ás vezes até eu falo merda.

– Espera, voltando a guerra… Você acabou com a maldade do Diabo com mais mortes ainda? Por que não finalizar com um estalar de dedos, ou só matando Adolf? Por que enviar mais soldados daqui e de outras nações para a guerra?

Eu me surpreendi em como eu estava falando, geralmente eu dormia nas aulas de história.

– Bem… Eu não sou totalmente puro, meu pai me fala isso toda hora… Mas se o homem faz tal coisa, ele merece ter uma resposta.

– Mas Hitler era o diabo! – respondi

– Era, mas os homens o seguiram. Temos esse choque de conceitos desde o início, a maldade e a bondade… Mas também há quem a escolhe, se você segue a maldade por livre espontânea vontade, você arcará as consequências, igualmente com a bondade. Conversei com o Diabo muitas vezes, pensei em até mesmo tentar traze-lo de volta. Mas não deu certo, a maldade está impregnada no homem e quanto mais o homem ser maldoso… Bem, haverá maldade.

– O grande problema de tudo é o homem?

– De certa forma sim. Por toda a história eu fui bondade, o Diabo foi a maldade. Ambos lutamos e nos encontramos, mas o homem segue o caminho. O que eu digo é que a humanidade tem beldades, criações que nem eu conseguiria. Essa cerveja, O Grande Lebowski, Revista Playboy… A humanidade é bondosa, mas ainda há maldade e esse conflito é inevitável de todas as formas possíveis, o homem ainda tem salvação, mas vai custar demais para chegarmos até ela.

– Você fala como se fosse humano. – notei.

– Eu sempre fui um, garoto. Me apaixonei, transei, bebi, na verdade eu não só transei com mulheres, mas com homens também. Além que eu já fiz muita merda, drogas, orgias… Mas tudo isso é de uma significância pacífica, eu sou um homem de correntes. Se agrada a todos me verem como um salvador, eles terão. Se agrada a outros me verem como uma figura liberal, que vai a festivais de Rock e planta árvores por amor, também os servirei. Mas nunca use meu nome pelo ódio, ele é um sentimento da maldade, do oposto.

Encarei ele por um curto instante, lá fora outra moto chegava.

A mulher ruiva, com alguns tatuagens esperava Jesus Cristo em pé, encostada em sua moto. Eu nunca tinha visto peitos tão fartos e perfeitos como aquele, com aquele decote eu iria me nutrir por umas boas semanas.

– Se cuida, garoto. – ele deixou o dinheiro no balcão, era uma nota de vinte. – Fica com o troco e além de tudo… Para de babar.

Ele saiu porta a fora, beijou a mulher e ambos montaram em suas motos. Com um ronco selvagem os dois forasteiros, figuras divinas ou sei lá o que partiram pelas estradas desérticas do Texas.

E eu até fiquei com certo medo depois de tudo.

No outro dia, quando a manhã surgiu nublada e um clima meio frio instalou-se no local, eu notei a vinda de mais um motoqueiro.

Esse era diferente, forte, bruto. Com muitas cicatrizes, uma barba negra e profunda, escura, hirsuta que unia-se a seus longos cabelos negros. O homem entrou no local, senti uma aura estranhamente sombria.

E de uma maneira bem estranha, o retrato de Jesus não estava mais lá. Meu pai o havia trocado para uma ilustração, não havia somente Jesus resplandecendo.

Mas havia o Diabo também. Sombrio, nefasto e acima de tudo  um guerreiro.