Com roteiro e direção de David Ayer, Esquadrão Suicida chegou com a missão de mostrar um lado descontraído do recente universo cinematográfico da DC. A introdução dos personagens é feita de forma mista. O diretor já participou de filmes conhecidos do grande público como Dia de Treinamento e Velozes e Furiosos – ambos como roteirista/produtor e roteirista, respectivamente. Era de se esperar que tivéssemos uma grande expectativa pelo que ele poderia fazer com um universo com os maiores ícones de heróis e vilões dos quadrinhos. Ele tinha a missão de estabelecer um novo Coringa e alguns anti-heróis e vilões com histórias bem fortes, embora distintas.

Alguns personagens são bem apresentados e o espectador acaba entendendo seus motivos ou desenvolvendo uma empatia por causa das consequências de suas mazelas e passados sombrios. Outros são jogados para o público durante o filme com uma explicação de uma única frase e fica só por isso. Era de preocupação geral se Will Smith roubaria todo o destaque por ser um ator com uma fama problemática, mas lembrem-se de que o Deadshot também recebeu esse destaque (quase um protagonismo) no longa animado “Batman: Ataque ao Arkham”, onde o Batman não era o foco.

O que mais chamou atenção foi a forma como deram importância ao El Diablo na trama. O argumento que o faz se segurar em quase todas as lutas é válido, tendo em vista as consequências passadas que acarretaram na destruição de sua vida pessoal. Entretanto, no final, Ayer tentou forçar um elo entre ele e os outros membros do esquadrão que ficou mais estranho e gratuito que a introdução dos vilões menos importantes.

Há uma certa descaracterização no Capitão Bumerangue, porém o personagem é um dos melhores coadjuvantes do filme. Katana tem menos relevância do que gostaríamos e as cenas de ação dela, apesar de bem feitas, não são dignas da profundidade e da potencialidade do que se poderia esperar dela. Killer Croc, apesar de ser sempre um alívio cômico, é pouco explorado. E o Amarra está lá… como outro personagem qualquer. Para felicidade de quem curtiu Batman V Superman, o morcego de Gotham foi novamente impecável em todas as suas aparições e Ben Affleck só voltou a fortalecer seu papel. Tem outro cameo, mas não quero estragar a surpresa. Só tenham a certeza de que a sala de cinema foi ao delírio com essa cena misteriosa e outra envolvendo Coringa e Harley,  que é uma referência total aos quadrinhos.

Magia se mostrou uma vilã que passou no quesito relevância. Ela realmente precisava ser detida com urgência e seu plano seria posto em prática com ou sem a criação do time especial de prisioneiros da Argus. Contudo, a criação dessa força especial deu a impressão de ter acelerado a Magia a atacar contra a humanidade junto do outro vilão do filme. Uma pena que Cara Delevingne não saiba atuar tão bem; em alguns momentos a forma caricata de suas feições era mais para cômica que dramática. Amanda Waller, responsável pela criação do esquadrão, mostrou-se uma personagem que atendeu todas as expectativas que pairavam sobre ela. Viola Davis estava sensacional e quase ninguém conseguiu tirá-la do altar de badass durante o filme todo.

Por último, temos o casal mais controverso da DC: Coringa e Harley Quinn. Todos nós nos perguntávamos qual seria o tipo de relação entre os dois que seria explorado por David Ayer. Jared Leto fez um Coringa diferente de tudo o que se esperava, e isso nem é uma coisa negativa, porém está longe de chegar na profundidade e no nível certo para ser um ícone dos cinemas, coisa que Heath Ledger, mesmo desacreditado, conseguiu. Ainda que esse Coringa tenha dado um ar misterioso e psicótico, dá pra sentir falta em seus planos mirabolantes e em sua falta de apego com as pessoas ao seu redor. Ele incorporou um gângster incontrolável e possessivo, mas o personagem não é só isso. Aqui ele claramente tem uma fixação doentia por Harley Quinn, e esta se apaixonou por ele de forma similar à serie animada do Batman. É importante ressaltar que claramente há um sentimento entre os dois e também uma necessidade de ambos estarem sempre juntos. Isso pode incomodar uma parcela do público que vê essa paixão como algo nocivo para Harley, ignorando que ambos são vilões que já fizeram coisas horríveis, embora o Coringa esteja num patamar completamente superior de maldade.

A trilha e as músicas pop que tocaram durante todo o filme criaram uma atmosfera eletrizante do começo ao fim, mas a edição fez isso de uma forma desorganizada. Há momentos em que o filme precisa diminuir seu ritmo para que tudo possa ser assimilado por quem está assistindo e isso é um dos maiores defeitos de Esquadrão Suicida. Principalmente quando são várias cenas rápidas cheias de informações e falas, isso precisa ser visto e entendido e não passado para trás. O filme não é cansativo ou estressante, mas causa um desconforto em algumas cenas. Dou um destaque negativo a uma cena em câmera lenta totalmente previsível e que poderia ter sido feita de uma forma completamente diferente para explorar o nível dramático que aquilo estava representando.

Espero que os erros de Esquadrão Suicida sejam corrigidos quando seus personagens forem usados num próximo filme, com outro diretor e roteirista. Há muito potencial a ser explorado ainda, mas não chegou aos pés do que Batman V Superman e Man of Steel representaram para o DCU.

Nota: 7,5/10

Tiago Amorim
Deus é top

Tiago Amorim

Responsável por não deixar a máquina do 1 Real a Hora parar. Atualmente tentando escrever o livro da HQ Trilhas Exemplares, porém a luta contra a procrastinação parece não ter fim. Amanhã ele termina...
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