Chobits é um mangá de 2001 pelo grupo CLAMP, pra quem não sabe CLAMP é um conjunto de mangakás que juntas possuem um vasto arsenal de obras, dentre as quais uma cuja adaptação para anime fez um sucesso enorme no Brasil: Sakura Card Captors, o anime que os garotos assistiam mas não queriam admitir.

Eu assisti a adaptação para o anime pelo estúdio Madhouse, de 2002, e vim aqui tratar dele porquê 14 anos depois seus temas não envelhecem, pelo contrário, ficam cada vez mais atuais.

Vamos ao resumo da ópera, sem spoilar o final, no universo de Chobits as tecnologias são mais avançadas que o nosso em relação a robótica e a inteligência artificial, são produzidos em massa os chamados persocons, que são robôs de estimação idênticos a seres humanos, de tamanhos natural, de bolso, infantil… Eles realizam diversas tarefas como telefonar e usar a internet, sempre seguindo o que são programados para fazer.

Então somos apresentados a Hideki, um virjão (a série enaltece isso com frequência) que trabalhava numa fazenda em Hokkaido e então decide se mudar para Tokyo, visando dedicar-se aos estudos e passar numa universidade. Aqui quase todas as pessoas tem um persocon, e realmente apreciam sua companhia (mais do que a de outros humanos?). Hideki quer um persocon, mas é pobre, mal consegue pagar o aluguel do seu novo apartamento. Porém convenientemente ele acha uma linda persocon no lixo.

Depois de ligá-la, Hideki descobre que a única coisa que ela sabe fazer é falar Chii, então como muita criatividade ele dá a ela esse nome, essa ideia foi copiada num tal de Elfen Lied, é, nada se cria tudo se copia, a propósito até as orelhinhas são parecidas nos dois animes. Depois com a ajuda de um gênio mirim chamado Minoru Hideki descobre que Chii veio com apenas um programa de aprendizagem instalado. Ele passa a ensinar a persocon a falar e coisas em geral.

Esse processo de aprendizagem dura bastante tempo, o anime tem 24 episódios mas pelo menos até a metade poucas coisas relevantes acontecem, a questão importante é que Chobits tem um grande tema, que é o romance com persocons. Todo mundo e próprio Hideki parecem preocupados com a possibilidade dele se apaixonar pela Chii, o que pode até estranhar um pouco o telespectador, pois a Chii é bem infantil e o Hideki parece um marmanjo (mas não sabe lidar nada com garotas).

No decorrer do anime vai sendo mostrado que quase todos os personagens tem algum problema de relacionamento relacionado a um persocon, só para citar a professora da escola do Hideki é abandonada pelo seu marido, que prefere passar todo seu tempo com uma persocon, o gênio Minoru quando perdeu sua querida irmã decidiu construir uma persocon a sua imagem e semelhança chamada Yuzuki, inclusive com os traços de personalidade mais próximos possíveis. Ueda, dono de uma loja de bolos onde posteriormente a Chii trabalha se apaixonou e casou com sua persocon, que depois apresentou problemas de memória e quebrou num acidente trágico, e esse passado atrapalhou seu relacionamento futuro com uma pessoa de verdade…

O anime deixa claro que as pessoas estão convivendo demais com persocons, a ponto de preferir eles aos seres humanos, os personagens se preocupam com isso, eles perguntam ao Hideki: “Você prefere ficar com um persocon? Persocons são mais atraentes?”. A verdade é que o relacionamento com os persocons é mais fácil, eles não ficam com raiva, eles não traem, eles não precisam ser conquistados.

Sabendo disso, porquê esse tema parece conversar com a atualidade? Persocons ainda não existem, mas isso não tem impedido as pessoas de não (?) buscar relacionamentos a moda antiga. O Japão é um lugar em que existe muito a cultura das waifus, ou seja, se eu não consigo ou não quero me relacionar com pessoas reais, vou ter um relacionamento simulado com uma personagem da ficção que nunca vai me rejeitar, muitos outros que não apelam pra esse faz de conta simplesmente desistem de relacionamentos e fica por isso mesmo, são os chamados herbívoros. Parafraseando o infame Levy Fidelix: “Japonês não reproduz”… Enfim, esse tipo de pensamento tem alcançado muita gente fora de lá também.

Mas o que tudo isso tem a ver com a realidade virtual que está no título do artigo? Esse ano tivemos pela primeira vez na história uma E3 com grande destaque no VR, a realidade virtual, pra quem não sabe a E3 ou Electronic Entertainment Expo é uma conferência anual que as grandes empresas no ramo dos video games usam para expor seus jogos, consoles e projetos. Nesse ano de 2016 praticamente todas apresentaram inúmeros jogos em VR, bem, pelo menos as que importam, né Nintendo?

A questão é que o VR mal está nascendo e projetos pra atender esse público que quer um “alguém só pra mim” eletrônico já surgem. Fez bastante sucesso na E3 o estande que apresentava nada mais nada menos que pornô em realidade virtual.

E no oriente os caras não ficam para trás nos esforços pra trazer as waifus em VR, quem pesquisar com certeza vai encontrar muitas bizarrices. O que se vê é que a tecnologia está avançando e parece que se algo como os persocons se tornarem uma realidade corriqueira, fisicamente ou no VR, vamos ver uma rima com esse anime que passou muitos anos atrás. Mas, longe eu de fazer juízos de valor se isso é bom ou ruim.

Chobits tende a demonstrar que isso é negativo, mas perto do fim ele desiste dessa ideia, será que o importante mesmo é só amar, independente se algo real? Recomendo que assistam e tirem suas próprias conclusões, é uma boa obra, vale um comentário sobre a trilha sonora, que apesar de não ser lá grande coisa remete muito a época, o segundo encerramento lembra de uma forma curiosa uma música de Silent Hill 2 (Theme of Laura), jogo contemporâneo ao mangá, que trata sobre um relacionamento problemático (quem jogou sabe), 2001 não parece ter sido um ano muito bom para o amor no Japão.