O barulho do arrastar de correntes era agonizante, a criatura se movia devagar mas o cheiro de podridão denunciava o quão próximo de Moira ela estava, a garota ouvia claramente o bufar pesado da besta sobre sua cabeça, sentiu o gosto de vomito encher sua boca mas segurou com a mão, qualquer barulho e ali seria seu fim, ela sabia disso, ali debaixo do assoalho de sua antiga casa uma das crias do demônio estava pronta pra lhe levar direto para o inferno como fez com muitos ali naquela cidade.
Moira começou a rezar mentalmente pro único santo que conhecia, são Gonçalves protetor do sul e de tudo que e vivo, nunca foi de acreditar em santos isso era verdade mas tinha aprendido a rezar com a mãe, e isso já era o suficiente.
O entortar das madeiras grossas a cada passo da besta faziam um ruido que ecoava ali em baixo mas a garota preferia assim, a cada passo que aquele bicho dava ela se sentia mais próximo de estar a salvo, faltava menos de uma hora para seu pai chegar do trabalho, torcia pra que a criatura já estivesse bem longe dali naquele momento, continuava rezando ate ser interrompida por um rugido ensurdecedor, enterrou a cara na areia e fechou os olhos, o corpo começou a tremer descontrolada, agarrava com força a porta do alçapão e sem conseguir se controlar começou a chorar, as lagrimas dificultavam sua visão, pra falar a verdade ela já não via nada mesmo, a pouca iluminação de sua casa tinha sido coberta pela silhueta do monstro e por fim a criatura começou a farejar, e dali pra frente Moira sabia que estava morta, não tinha como enganar aquilo, a criatura se alimentava de medo, do terror e sofrimento antes mesmo dos dentes encostarem na carne das vitimas, e la estava ela tremendo de medo, chorando de desespero.
A besta começou a arranhar o assoalho bem devagar, a cada movimento do braço o chacoalhar das correntes faziam uma barulheira forte, Moira apertava a própria boca com força pois acabaria gritando a qualquer momento, parecia ser mais forte que ela, mas ela sabia que teria que lutar, ao menos tentar, já tinha sido subjugada demais pela criatura e começou a por um plano em pratica em sua cabeça, passou a mão pelo chão de terra batida ate segurar uma estaca de madeira enorme na mão, apertou com tanta força que sentiu uma de suas unhas quebrarem, com uma mão na boca e a outra na arma improvida esperou o monstro arrancar aquele alçapão, só tinha que furar um dos olhos e seria mais que o suficiente, era rápida, não tão rápida com a besta mas teria uma vantagem, pensou também na espingarda velha de seu avô que ficava sobre a lareira, com sorte teria uma bala dentro, começou a juntar coragem mas toda vez que ouvia o som das garras da besta contra o assoalho a coragem se esvaia dos músculos.
Sem querer sua perna em um movimento involuntário levantou e foi de encontro com o a madeira, o som foi baixíssimo mas suficiente pra criatura que antes apenas arranhava o chão agora atacava a madeira como se estivesse contra o mais perigoso dos inimigos, a verdade era que estava com fome, desde que tinha saído do monastério onde era mantido torturado e acorrentado desde que foi transformado naquilo não tinha comido, a casa de Moira era a mais próxima do monastério e mais longe da cidade, a garota seria apenas um petisco pois o banquete viria depois, com cada alma naquela cidade, cada homem, mulher e criança iria pagar por todos aqueles anos de prisão, tortura e espancamento, e isso antes do amanhecer.

Quando o assoalho voou em pedaços se chocando com a parede por um segundo os dois trocaram olhares, pela primeira vez Moria viu seu carrasco, uma besta de pele avermelhada, o corpo era musculoso e cheio de cicatrizes, os restos de suas vestes não cobriam nada mas podia ver claramente a corrente envolta do pescoço e braço direto, tinha um rosto de lobo porem sem se quer um pelo na cara, os dentes eram protuberantes, enormes e tortos, conseguia ver uma nuvem de fumaça saindo da boca na besta enquanto a baba escorria de sua boca enorme, tinha apenas um olho amarelo, o outro foi ferido por algo que parecia ter sido uma marca feita com ferro quente, essa marca pegava seu olho direito e subia ate a testa e só terminava próximo aos chifres, um par de chifres enormes lembravam uma galhada de cervo, nunca tinha visto nada tão anormal, não estava preparada pra aquilo, ninguém estava, parte de si já tinha aceitado a morte mas a outra não podia aceitar, estava gravida e não podia abandonar seu filho, nem mesmo agora que nem havia se formado ainda.

A porta se abriu e a criatura desviou o olhar, novamente rugiu com a força de cem leões, a chão tremia com a força da voz daquela criatura, Moira não sabia quem havia entrado, mas tinha quase certeza que era seu pai, era sua chance, sua unica chance de cegar de vez aquela criatura, tentou se levantar mas o corpo não respondia, as pernas não tinham força alguma e os braços tremiam ao tentar se apoiar no chão.
Então tudo aconteceu muito rápido, la fora conseguiu ouvir a penas o som do engatilhar da espingarda, a besta se pois em posição de ataque e assim o fez, Moira só de imaginar que seu pai seria morto se não levantasse conseguiu reunir forçar alem de sua própria compreensão, não alcançaria o olho isso tinha certeza, levantou o dorso de seu corpo e com toda a força que lhe restava enfiou a estaca no pé da criatura, a peça de madeira era tão grossa que quase dividiu em dois aquela pata, no movimento a besta se descontrolou e foi ao chão gurnindo de dor, a pessoa que estava fora da casa não enxergava a garota e nem mesmo Moira enxergava a pessoa e então o tiro ecoou pelas paredes da casa, o cheiro de pólvora subiu e a garota foi ao chão.
O tiro tinha espalhado, o atirador não esperava que a besta fosse ao chão e tinha mirado ao tórax, parte do tiro tinha pego na cabeça da besta porem a outra parte foi direto no peito da garota, a criatura se debatia no chão, o tiro parecia ter acertado seu único olho bom, com a mão enorme tampava a região ontem tinha sido acertado e em um movimento rápido pulou pela janela.
Apenas o som dos passos indo pra longe da casa era escutado, o resto era um silencio mortal, finalmente Moira viu quem estava la, sim era seu pai, como estava esperando, ela sorriu mesmo sentindo o peito queimar e o sangue escorrer, afinal ela já sabia que morreria ali, seu pai não conseguia se mexer, apenas os olhos enchiam de água, largou a arma e sentiu as pernas fraquejarem, não aguentou e foi ao chão de joelhos, se arrastando foi ate a filha que pendeu o corpo pra cima do pai, a garota olhava nos olhos do pai sorrindo, em sua visão tudo já estava mais claro e ao mesmo tempo escuro.
William beijou a testa da filha e colou a testa da mesma no ombro, as lagrimas saiam de seus olhos e ali ficou, não tinha pra onde ir, já não sabia mais o que fazer.

Ali não era apenas o fim da sua filha e sim o fim de sua sanidade.