Calma, ódio, medo, revolta e solidão.

Calma. Ao lado de uma mesa de jantar de madeira enegrecida, descamada e queimada, soltando farpas, sentava-se uma mulher magra como uma tábua, com marcas de idade e olheiras enegrecidas, rasas mas muito notáveis, deflagrando a tristeza e inquietude no olhar verde-água que mira distante. Os cabelos, dourados, parcialmente penteados, apareciam em fiapos, com uma certa graça quando reluzidos pela chama da lareira pobre. Vestia-se com um manto acinzentado por ela mesma feito, sem imperfeições notáveis, estendendo-se até a boca dos pés, calejados pelo serviço diário da casa – limpava, cozinhava e cuidava da família. Apesar da aparência fúnebre, era, para mim, a mulher mais bela que já havia visto: minha mãe.

Tudo era calmaria, menos minha mãe. Chovia lá fora em gotas finas e harmoniosas, com uma leve brisa que arrepiava a alma, mas um arrepio prazeroso. Minha mãe, com o par de esmeraldas brilhantes circundadas por carvões negros encrustados em uma pele alva parecia já estar em seu limite da agonia, mas eu me sentia tão bem em estar a sós com ela, quem me dava amor, comida e tudo o que eu precisava. Corri para abraçá-la, na época eu deveria ter completado seis invernos ou um pouco menos, não sabia exatamente o que fazia, mas queria vê-la sorrir. E meu objetivo tinha sido alcançado – nunca me esqueço dos olhos encharcados de lágrimas frias fechando-se; dando a visão ao seu sorriso, de dentes perfeitos, brancos, grandes e que me arrancavam qualquer mágoa; de seus braços finos envolvendo-me a cabeça e as costas. Mas isso durou pouco.

Ódio batia na porta. Três murros na velha porta. Os estrondos ressoam com a dança da poeira esvoaçando de cada canto da madeira. A porta chacoalhava. A feição de minha mãe não mudava: seu rosto coberto de uma tristeza causada pela vida distoava com seu sorriso acalentador, ela vislumbrava a porta e agia como um cão esperando por seu mestre dar-lhe uma surra. Eu sabia muito bem quem batia. Os três estrondos foram sucedidos por uma voz abafada, tonta, grossa, dando saltos em seu timbre, altos e baixos.

– Abre, mulher. – Gritava – Abre de uma vez sua vagabunda!

Ela hesitou, sem demonstrar surpresa ou sequer medo.

– Se você não abrir eu vou ter que arrombar essa merda! – O tom era mais alto agora, e a raiva já era notável apenas ao ouvir o resfolegar da língua entre os dentes.

Minha mãe enfim levantou-se. Seus passos leves atravessaram a sala suja até a porta que filtrava ameaças. Uma chave enferrujada vira-se e o som do rangido me faz ter calafrios. Eu permaneço atrás da cadeira, com olhos assustados de uma criança perdida. A mão delicada, quase cadavérica, gira a maçaneta, porém seu movimento jamais terminaria: um estrondo a mais vindo de fora e a porta esbarra violentamente, como um coice de cavalo, atinge minha mãe e arremessa-a alguns passos para trás, acertando o chão gelado de madeira.

Medo. É o que senti quando vi o homem que havia chutado a porta no rosto agora ensanguentado de uma mulher pura. Lá de fora vinha a brisa noturna, serena e admirável, contrastando com o homem que permanecia de pé. O cabelo negro dela escorria mesclando-se com o sangue brotando da testa e escondia a feição do desespero. O homem entra na sala com passos raivosos, com bafo de álcool, com perfume de outras mulheres. Não, aquele não era meu pai. Meu pai falecera antes mesmo de eu nascer, nunca o conheci. Enquanto o homem entrava nada restava em mim além de medo escondido no canto da sala.

– Mulher… – Falava com um tom misto de calmaria e superioridade, enquanto estendia o braço direito ao pescoço de minha mãe, apertando-a e levantando-a no ar – Por que não abriu a porta para mim? Por acaso não sabe seu lugar? Não sabe quem manda aqui? Não? – O tom de voz aumentava proporcionalmente à força do aperto. Minha mãe agonizava, gemia e tentava em vão se soltar dos braços do brutamontes vestindo roupas sujas, com a barba sem nenhum cuidado, suor escorrendo das maçãs do rosto e cabelos negros enrolados, longos até a nuca.

Revolta. Senti meu corpo entrar em combustão por dentro, como se meu coração fosse envolto de uma fornalha, eu não consegui suportar ver minha mãe ser tratada dessa maneira. De sopetão, levantei-me do chão, com os olhos encharcados e o rosto repleto de lágrimas e corri em direção ao homem em uma tentativa fútil de socá-lo. Fechei os punhos junto com os olhos e meus golpes apenas surtiram um efeito: fazê-lo rir. Quando viu-me fazer essa estupidez, largou minha mãe ao chão e esmurrou-me com tanta violência que fui jogado um par de metros para trás, chocando minhas costas contra a lareira.

– Ha! – Exclamou em escárnio – Vejam só se não é o filho do grande Reynald, o Último Paladino – e essa última palavra fora em uma ironia imbatível – Era um homem tão grandioso que morreu enquanto dormia, pelas mãos de uma vagabunda que me lembrava muito sua mãe, pequeno. Faça-me um favor e volte para aquele canto coberto de choro e não atrapalhe os adultos.

Assim que ele terminou sua frase, voltou-se para minha mãe, agarrando-a pelos braços. Jogou-a com violência na cama, montou sobre seu puro corpo ferido e voltou a esganá-la, e tudo o que eu ouvia eram gritos, grasnos e gemidos abafados, trancados pelos dedos gordos e nojentos do homem, impedidos por sua ira e luxúria. Enquanto ela morria vagarosamente de asfixia, o homem despia-se apenas da sua parte inferior, um doente, um psicopata que estava prestes a estuprá-la. A cama movia-se com violência e ecoava rangidos de madeira antiga. Os olhos de minha mãe viravam devagar, os gemidos ficavam mais escassos e seu braço finalmente caiu sem movimento de lado.

O homem continuava a fazer o que lhe agradava enquanto dizia:

– Você não presta nem pra isso sua… – E jamais pôde terminar a frase.

Nunca terminara a frase pois sentiu algo perfurar suas entranhas, das costas até a cicatriz umbilical, espirrando sangue sobre o leito profano em que deleitava-se. O braseiro que estava ao lado da lareira agora estava em minhas mãos, rasgando pele, ossos, gordura e músculos. Arranquei de lá, percorrendo o mesmo caminho de entrada. O sujeito caiu na cama de lado e rolou para o chão, acredito que atingi algum órgão vital que deixou-o fraco em instantes.

Meu corpo fora tomado pela revolta, ódio e repúdio. Permaneci sobre seu corpo com o braseiro entre minhas duas mãos erguidas para o alto, a visão estava turva e eu ardia por dentro. Desci com as mãos uma, duas, três, incontáveis vezes. A parede e o chão estava borrados de sangue, minhas roupas imundas com fluidos corporais de um homem pecaminoso. Dois corpos sem vida restavam no quarto: o de minha mãe, estuprada até a morte e o de meu padrasto, perfurado até o inferno.

E também eu.
Solidão.

 

Juninho Knoll