Goteiras. Pingos d’água batem no chão ao passo que ressoam na mente do prisioneiro como marteladas, uma tortura não proposital. As correntes tilintando, elos sofrendo uns contra os outros rangem os dentes de um homem – quase um garoto, na verdade – que pende, com braços e pernas imóveis, na parede fria e coberta de limo e umidade. Com a cabeça baixa seus cabelos negros, cobertos de suor, desenrolam-se e revelam seu olhar marejado contemplando seus pés: verdadeiras assinaturas do trabalho em seu corpo, repletos de sujeira, calos, inchaços e cicatrizes. Pés que estão acostumados a andarem descalços em um chão agressor, pernas e coxas com músculos prestes a estourar a pele, fazendo silhuetas e relevos fortes pelo membro inferior inteiro. Reluzente seu abdome repleto de suor, sujeira e sangue, os retos e oblíquos pareciam denotar o esforço que ele fazia para respirar, já usando musculatura secundária. O sangue vinha de cortes espalhados não só pelo abdome mas também pelo tórax, claramente marcas de açoite. Por último, seus braços que, apesar dos músculos volumosos, parecia fraco demais para os elos que sustentavam seu corpo.

Uma luz incandescente forma sombras paralelas, alinhadas sobre o prisioneiro e a parede. Ela vinha de fora, acompanhada de passos vagarosos e ruidosos. A tocha tremeluzia nas mãos de um vulto negro que se revelava pouco a pouco assim que chegava perto das barras da cela, ofuscando completamente seu rosto. O prisioneiro recolhe todas suas forças, força os dentes uns contra os outros, abafando seu urro de dor, um gemido sofrido e rouco que ecoa pela sala fria e úmida. Então ele finalmente consegue erguer a cabeça e mirar a silhueta, sem sucesso. Não bastasse a incandescência, sua visão estava completamente turva devido à má alimentação que passou durante os dias que ali esteve.

Seus esforços não pararam por ali. O prisioneiro ainda tenta mover suas cordas vocais inutilmente, deixando apenas um gemido sair pela boca: todos os seus músculos estavam já incapacitados de realizar qualquer tipo de ação. A figura à porta da cela parece mexer em seus bolsos, o que produz vários tilintares de ferro enquanto deles retira uma argola com várias chaves presas. Sem pressa, escolhe uma das chaves e insere na fechadura corroída, desgastada e oxidada, o que faz com que, ao girá-la, um som ensurdecedor e agonizante de metal sendo violentamente riscado propague-se pelo local. Em seguida, empurra a porta, entra na sala e se aproxima do rapaz preso à parede e joga sua tocha alguns metros para a direita, revelando seu rosto.

Era uma mulher. Os cabelos dourados, perfeitamente lisos e limpos, escorrem de seu couro cabeludo como verdadeiras cascatas louras, fios áureos de cabelo deslizando por suas costas desaguam nas curvas perfeitas de seu corpo. Os buracos negros em suas órbitas eram como cristais brutos de turmalina encrustados em sua alva pele, que apenas pelo olhar poderia ser descrita como macia e lisa, revelando a sua vaidade: nenhuma maquiagem e ainda assim era a figura mais bela que o rapaz já viu. Suas vestes eram do mais fino linho branco – trajes de dormir que deixavam transparecer seus seios e corpo por baixo do tecido conforme a chama alternava-se – e cobriam como um vestido suas silhuetas. Os olhos do prisioneiro brilhavam, marejados, frente à imagem angelical da mulher em sua frente.

– Eu senti sua falta, Adrian – Disse a voz doce e serena, porém preocupada e também um pouco abafada, sob um sorriso tão branco quanto sua pele. Ela disse enquanto se aproximava do rosto do prisioneiro, ajoelhando-se. O prisioneiro então a fita por alguns instantes e hesita. O coração palpitava e seus olhos demoraram a acreditar que ela estava ali.

– Lu… Luna – Sussurra rouco com dificuldade Adrian. Seu sussurro mais soou como uma cólera de uma garganta rasgada. – E… Eu tam…

Luna o interrompeu – Eu sei que você também sentiu, meu amado. – E levou a mão direita até o rosto de Adrian, sem temor por sujá-la de suor e sangue. A mão acaricia seu rosto e vai em direção aos cabelos, empurrado uma mecha para trás da orelha e lá repousa. O prisioneiro, assim que é tocado por sua mão, desaba em choro. De seus olhos como um rio de tristeza despencam lágrimas sofridas, deixando úmidos seus secos olhos, marcando um rastro de limpeza pelo rosto sujo.

Adrian balbuciava, parecia se afogar meio aos grasnados guinchados guturais por ele produzidos na tentativa de se expressar. – A… Cul… Pa… Não… Foi… – Interrompeu-se em um um engasgo seguido de tosse. Luna voltou a afagar-lhe os cabelos. A negritude de sua íris absorvia o calor da chama que vinha da tocha, um olhar misterioso, que mistura amor, pena, ódio e temor. Então, Luna diz:

– Adrian, pare de se torturar, por favor, fique em silêncio e deixe-me falar.

Adrian fitou-a por instantes e parecia compreendê-la. Fez sofrido com a cabeça que sim, sem parar de mirá-la nos olhos, de perder-se nas sombras de seu olhar, de deixar seu âmago ser atraído por aquele buraco negro.

– Adrian… Eu te amo, sempre irei te amar – Dizia enquanto levantava-se, segurando a ponta do queixo do prisioneiro para ajudá-lo a olhá-la de baixo para cima – Mas nosso amor nunca poderá dar certo. Jamais uma princesa poderia casar-se e viver com alguém como você. – As palavras saíam de sua boca como disparos de arbalete contra o peito de Adrian, porém uma lágrima começava a brotar do olho direito de Luna.

– Mas, meu amado, eu acreditava, do fundo do meu peito, que você iria lutar por nós. Iria dar um jeito, iria até os pés do rei, meu pai, e pedir-me em casamento. Mas não, você teve medo. – Nesse momento, Luna mudou subitamente sua feição, parecia que a raiva havia tomado conta de seus músculos da face e agora mostrava sua verdadeira intenção. – Sabe, Adrian, o pior de tudo não é ver você sofrendo aqui, com essas algemas, morrendo de fome e sede, fazendo suas necessidades em si mesmo e no chão, sendo torturado e chicoteado pelos soldados de meu pai. O pior é saber que você não fez nada, nada! Nada para mudar seu destino e estar em minha cama agora.

Confusão e desespero foi o que o prisioneiro exprimia em sua face. Um homem quando está de guarda baixa assim revela suas emoções sem nenhum pudor. O rosto estava completamente lavado de lágrimas e os balbuciares transformavam-se em frase.

– Luna… Não… O que… Você está falando? Pare! – Reuniu toda a força de seu corpo para expelir a última palavra, cuspindo sangue ao rebento, atingindo o vestido de Luna com algumas gotas.

Ela, então, fita-o por alguns instantes e escorre a mão por suas vestes até a borda de sua parte inferior. As mãos sobem enquanto vão revelando sua perna vagarosamente, com certa sensualidade em contraste com a atmosfera rígida que regia sobre a cela. Ela revela um coldre amarrado à coxa esquerda, escondendo um punhal sob a vestimenta. Ela, então, retira-o de lá enquanto observa o extremo desentendimento e terror de Adrian com veemência.

– Apesar de tudo isso, eu ainda te amo, Adrian, e quero que tudo dê certo – Ela sorri, forçando as silhuetas da pele. Agora o rosto angelical se tornava algo demoníaco que Adrian nunca havia visto: os olhos esbugalhados enrugavam as órbitas e ela chegava cada vez mais perto. – Eu quero que tudo dê certo, mas não aqui.

Assim que terminou a frase, seu punhal já havia atravessado músculos, rasgado a pele e lacerado vasos sanguíneos no pescoço do homem atado à parede. As únicas coisas audíveis eram o som de aço raspando em ossos e os gorgolejos de um homem em seus últimos instantes.

Então o silêncio.

O som de lâmina caindo ao chão.

O som leve e abafado de um corpo caindo ao seu lado.

Duas poças de sangue que convergiam em uma única direção.

Como dois lagos juntando-se em um só, duas poças de sangue unem-se sob o punhal, mesclando-se.

O sangue dos dois.

E tudo o que resta é vermelho e aço na escuridão.

 

Juninho Knoll