A brisa que soprava entre as grandes portas idosas, desgastadas, era gélida e trazia consigo minúsculos flocos de gelo, quase imperceptíveis, que, ao tocarem a pele, causariam calafrios em qualquer um. A luz era pouca: ao fundo algumas velas, pouco eficientes, feitas de alguma gordura animal – seu cheiro era repugnante – pendendo em um único candelabro de cobre, agora escurecido e com marcas de negro pinceladas por um broche de chamas de muitas outras velas. Sob o candelabro havia uma mesa de madeira coberta por um grande pano alvo, que tocava o chão, com crucifixos dourados ali bordados, detalhes perfeitos feitos à mãos habilidosas.

O lugar era um pequeno mosteiro, apesar de não possuir nenhuma imagem divina a não ser as cruzes da mesa. Cheirava à poeira e umidade, misturados com pecado e sangue. Sim, o silêncio era notório, algo prazeroso, digno de degustação, um dos poucos momentos de pureza dentro daquele lugar. Além de bordados, sobre a mesa havia alguns borrões vermelho-escuro, assim como no chão e em algumas paredes. Sangue do meu sangue, alguns dizem, mas prefiro sangue por sangue. Seis eram os homens que estavam sobre as poças e jorros de escarlate, vestindo o que uma vez era chamado de manto branco, que uma vez combinava com a mesa uma vez branca. Estavam espalhados por todo o mosteiro.

Alguns minutos antes, os seis sentavam nas cadeiras de palha imundas ao redor da mesa, com capuzes escondendo rostos e vozes escondendo identidades.

Uma voz rouca, perdida pela idade, cheia de falhas e cuspindo perdigotos ao rebento saía de dentro de um capuz – A cidade já nada suspeita, estão todos em nossas mãos, em breve seremos mais poderosos que o próprio senhor daqui.

– Sim – disse com escárnio uma segunda voz, mais grave e menos rouca – Não consigo entender como esse povo burro acredita em tantas mentiras e continua pagando o maldito dízimo – deixou saltar alguns risos e cuspiu no chão depois de se engasgar com a própria saliva durante a terceira gargalhada.

No canto mais escuro da mesa, tremia um rapaz mais jovem, que nada falava no meio do burburinho dos outros cinco, estava com os braços cruzados, com olhos fixos em uma costura da mesa.

– O que é isso, moleque? Está com frio? – dessa vez foi o primeiro homem, que fez uma pequena pausa para limpar com a manga a saliva que havia escorrido de sua boca – Pelo amor do Senhor, essa juventude está cada vez mais afeminada! Não suporto garotinhas que ficam se tremendo na minha frente, vá fechar a porta e pare com isso.

Com um olhar baixo, consentiu e levantou-se, vagarosamente, o rapaz, dando passos curtos até a porta, enquanto todos na mesa riam do discurso do velho que cobria a mesa com sua saliva durante a fala. A mão do garoto tocou a porta aberta e foi fechando-a com a mesma velocidade de seus passos, enquanto o vento frio batia em seu rosto, fazendo os olhos ficarem entreabertos e o nariz congelar. Naquele momento, ele sentiu frio e eu senti o calor.

Foi um golpe apropriado e combinando com a ocasião: frio e silencioso, direto no coração, atravessando devagar tecido, pele, carne, raspando ossos, perfurando o coração e repetindo até sair pelas costas do manto outra vez, com a lâmina coberta de sangue. A sensação do sangue escorrendo para dentro da luva da armadura, por entre as aberturas das placas de aço, foi incrível, uma mistura de calor com a textura do sangue percorrendo os dedos até ficar perdido na mão e coagular me fez sentir purificado.

Os outros na mesa não viram de imediato o que acontecera, não notaram o cavaleiro vestido com armadura de placas, coberto de inscrições sagradas, com um elmo reluzente, do tipo cruzado, deixando à vista apenas olhos e uma faixa do nariz até o queixo, brandindo uma montante encharcada de sangue, indo em direção à mesa. A distração durou poucos instantes, logo notaram-me, e as reações ainda me surpreendem: alguns rezavam, com as duas mãos juntas em frente ao coração e sinais intermináveis de cruz no ar, em hipocrisia para seu falso deus. Outro procurou esconderijo, um correu em minha direção para tentar algum golpe inútil e, obviamente, foi morto com tanta facilidade quanto o rapaz da porta. Mas o que mais me intrigou foi o mais idoso, que, enquanto todos os outros morriam, um a um, permaneceu sentado no seu lugar, apenas observando-me seriamente, sem demonstrar sinal algum de tristeza ou raiva ou qualquer emoção. Quando terminei meu trabalho, dirigi-me a ele, limpando o sangue da espada no pano que cobria a mesa, então o velho baixou o capuz, dizendo-me, com olhos azuis, barba grisalha e nenhum cabelo no couro cabeludo coberto de manchas negras e sinais:

– Maldito seja, Paladino! Você e sua ordem irão apodrecer nos sete infernos por suas transgressões! – Com um cuspe pegajoso e enegrecido disparado em minha armadura ele terminou sua frase, seguida de um sorriso de poucos dentes, amarelados e repletos de manchas negras, como sua cabeça.

– Eu não sigo a luz falsa, padre. Não sou iludido por sete infernos ou por um paraíso onde boas pessoas são levadas e simplesmente perdoadas de seus pecados terrenos. – Respondi, levando a ponta da montante em seu pescoço, empurrando com gentileza e vagarosamente, fazendo-o sentir o calor do sangue de seus companheiros misturado com o frio do aço atravessar a garganta. – Não atendo mais por esse nome de Paladino, pecador. – Aquilo foi um exagero de minha parte, o que não me orgulha nem um pouco, já que os gorgolejos me irritaram e algum sangue espirrou entre as aberturas do elmo, atrapalhando minha visão com sangue profano.

Quando tudo se acabou, admirei o silêncio por alguns instantes, de olhos fechados, apenas sentindo a gélida brisa vinda da porta entreaberta. Retirei o elmo, colocando-o com cuidado sobre o corpo do velho. Em seguida limpei o sangue dos olhos e, com a mão fechada encostada na testa, agradeci pela Missão bem sucedida. O punho da espada estava leve, como se eu estivesse com minha alma em mãos, como se eu estivesse aliviando o mundo de um peso insuportável, como se tudo estivesse mais… Limpo.

 

Juninho Knoll